Experiência do NHS mostra que financiamento adequado, valorização da atenção básica, melhor distribuição de profissionais e assistência domiciliar são fundamentais para enfrentar o envelhecimento da população e reduzir filas
Por Delmo Menezes
O sistema público de saúde do Reino Unido, considerado durante décadas uma referência internacional em atendimento universal, enfrenta uma crise que oferece importantes lições para o Brasil. Longas filas, falta de profissionais, desigualdades regionais e aumento dos custos assistenciais desafiam o NHS, sigla em inglês para Serviço Nacional de Saúde, e expõem problemas que também pressionam o Sistema Único de Saúde (SUS).
Em reportagem publicada pela BBC News Brasil, médicos e especialistas que conhecem os dois sistemas apontam caminhos para melhorar a assistência pública brasileira. Entre as principais recomendações estão fortalecer a atenção primária, investir na prevenção, distribuir melhor os profissionais de saúde, ampliar o atendimento domiciliar e organizar os serviços de forma integrada.
A experiência britânica também deixa um alerta: não basta anunciar reformas ou ampliar a estrutura hospitalar. É necessário garantir financiamento, planejamento, profissionais qualificados e capacidade de executar as mudanças.

A crise de um sistema que inspirou o SUS
Criado em 1948, o NHS estabeleceu um modelo de atendimento universal que serviu de referência para sistemas públicos de outros países, incluindo o brasileiro. O SUS, instituído pela Constituição de 1988, também tem como princípio garantir acesso à saúde independentemente da condição financeira do cidadão.
Apesar dessa semelhança, os dois sistemas enfrentam dificuldades para assegurar atendimento oportuno e de qualidade a toda a população. No Reino Unido, anos de restrição de investimentos, aumento da demanda e envelhecimento populacional contribuíram para agravar a situação.
Em 2025, o governo britânico lançou um plano de dez anos para reformar o NHS, com três eixos principais: transferir parte dos atendimentos dos hospitais para os serviços comunitários, acelerar a digitalização e ampliar a prevenção de doenças.
A proposta contém uma mensagem importante para o Brasil: um sistema de saúde eficiente não pode depender excessivamente dos hospitais e dos atendimentos de emergência.

1. Fortalecer a atenção básica
Um dos pilares do NHS são os médicos generalistas, conhecidos como general practitioners (GPs), responsáveis pela primeira avaliação dos pacientes, pelo acompanhamento de doenças crônicas e pelo encaminhamento aos especialistas quando necessário.
No Brasil, a Estratégia Saúde da Família desempenha função semelhante. Presente em boa parte do território nacional, ela conta com equipes de saúde e agentes comunitários que acompanham as famílias e ajudam a identificar problemas antes que se agravem.
O desafio é fortalecer essa estrutura, ampliar sua capacidade de resolução e garantir que a população tenha acesso regular a consultas, exames e acompanhamento clínico.
Quando a atenção primária não consegue responder às necessidades dos pacientes, os prontos-socorros e hospitais acabam recebendo casos que poderiam ser tratados em unidades básicas ou acompanhados de forma preventiva.
2. Distribuir melhor os profissionais
A falta de médicos em determinadas regiões brasileiras não se explica apenas pela quantidade de profissionais formados, mas também pela distribuição desigual e pela insuficiência de oportunidades de especialização.
Segundo a pesquisa Demografia Médica no Brasil de 2025, citada pela BBC, o Sudeste tinha 3,77 médicos por mil habitantes, enquanto o Norte registrava 1,70.
O Reino Unido enfrenta outro desequilíbrio: a formação e a distribuição de profissionais favoreceram, durante anos, os especialistas hospitalares em detrimento da atenção primária.
A lição para o SUS é investir não apenas na formação de novos médicos, mas também em residência, qualificação e políticas que estimulem a permanência de profissionais nas regiões com maior carência.
A reportagem também destaca a importância de melhorar as condições de trabalho, reduzir a sobrecarga e cuidar da saúde mental das equipes. A retenção de profissionais é tão importante quanto a contratação.
3. Ampliar o atendimento multidisciplinar
Uma das diferenças apontadas pelos médicos entrevistados pela BBC está na participação de outros profissionais nos cuidados de saúde britânicos.
No NHS, enfermeiros, farmacêuticos, fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais podem assumir determinadas atividades de acordo com sua formação e competência. Farmacêuticos, por exemplo, ajudam no acompanhamento de medicamentos e de doenças crônicas, enquanto enfermeiros especializados realizam atendimentos específicos.
No Brasil, esses profissionais já integram as equipes de saúde, mas nem sempre contam com a mesma disponibilidade, autonomia ou organização dos serviços para atender diretamente os pacientes.
A ampliação do atendimento multidisciplinar pode reduzir filas e permitir que cada pessoa seja encaminhada ao profissional mais adequado à sua necessidade.
Isso exige, porém, capacitação, protocolos clínicos, regulamentação e acesso a médicos para os casos que demandam avaliação especializada. O objetivo não é substituir o médico, mas utilizar melhor as competências de toda a equipe.

4. Organizar as filas por prioridade
As longas esperas são um dos sintomas mais visíveis da crise britânica. A reportagem da BBC, com dados da Associação Médica Britânica, registra milhões de pacientes aguardando tratamentos especializados em 2026.
Uma das estratégias discutidas no Reino Unido é revisar as listas de espera, identificar quem ainda precisa do procedimento e estabelecer prioridades conforme a condição clínica de cada paciente.
Para o SUS, isso significa aprimorar a regulação, diferenciar os casos urgentes daqueles que podem aguardar com segurança e acompanhar a evolução clínica das pessoas que permanecem nas filas.
A gestão também pode utilizar ferramentas digitais para organizar encaminhamentos, evitar duplicidade de registros e facilitar o acesso a consultas e exames.
Outra experiência britânica é a adoção de incentivos vinculados ao aumento da atividade e à melhoria de indicadores. A medida, contudo, precisa ser acompanhada de avaliação de resultados e planejamento para que os avanços não desapareçam quando os incentivos terminarem.
5. Preparar o sistema para o envelhecimento
Talvez a lição mais urgente para o Brasil esteja no envelhecimento da população.
Segundo dados apresentados pela reportagem, o número de brasileiros com 65 anos ou mais passou de 14 milhões, em 2010, para 22,2 milhões, em 2022 — crescimento de 57,4%.
O aumento da longevidade representa uma conquista social, mas também exige mudanças na organização da saúde. Mais pessoas vivem com doenças crônicas, precisam de acompanhamento contínuo e, em muitos casos, necessitam de apoio para realizar atividades cotidianas.
No Reino Unido, profissionais relatam situações em que idosos permanecem internados não porque precisem continuar recebendo tratamento hospitalar, mas porque não dispõem de suporte adequado para voltar para casa.
Esse tipo de situação evidencia a necessidade de integrar saúde e assistência social.
O atendimento domiciliar, as visitas de equipes multidisciplinares, as adaptações nas residências e o apoio aos cuidadores podem contribuir para a autonomia dos idosos, reduzir internações evitáveis e liberar leitos para pacientes que realmente precisam deles.
6. Levar o cuidado para dentro de casa
A experiência britânica inclui equipes comunitárias que avaliam as condições dos idosos em suas residências e podem acionar serviços de assistência social. Há também modalidades de atendimento conhecidas como hospital em casa, nas quais determinados cuidados de menor complexidade são realizados no domicílio.
Para o Brasil, ampliar essa abordagem significa investir em prevenção, acompanhamento de doenças crônicas e assistência domiciliar, evitando deslocamentos desnecessários e internações que poderiam ser prevenidas.
A tecnologia também pode ajudar por meio da telemedicina, da triagem remota e do acompanhamento digital de pacientes. Essas ferramentas, entretanto, devem complementar o atendimento presencial, e não criar novas barreiras para quem não dispõe de internet, equipamentos ou familiaridade com os recursos digitais.
7. Mais recursos e melhor gestão
O financiamento é outro ponto central da comparação.
De acordo com números da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) citados pela BBC, em 2024 o gasto com saúde por habitante era de aproximadamente US$ 1.898 no Brasil, ante US$ 6.747 no Reino Unido.
A diferença evidencia a distância entre os recursos disponíveis nos dois países. Ao mesmo tempo, a experiência britânica mostra que aumentar o orçamento, isoladamente, não resolve todos os problemas.
O NHS também enfrenta dificuldades para transformar planos de reforma em mudanças efetivas. Embora o discurso oficial defenda mais atendimento comunitário, os hospitais continuam concentrando grande parte dos recursos e dos profissionais.
Para o SUS, o desafio é duplo: garantir financiamento compatível com as necessidades da população e aprimorar a aplicação dos recursos, com planejamento regional, metas claras, transparência e avaliação de resultados.
A regionalização também precisa avançar para que moradores do interior tenham acesso a especialistas e tratamentos de qualidade sem depender exclusivamente dos grandes centros urbanos.
O que o Brasil pode aprender?
A experiência britânica demonstra que a universalidade do atendimento, por si só, não garante acesso rápido, qualidade uniforme ou sustentabilidade financeira. É preciso organizar o sistema em torno das necessidades dos cidadãos, e não apenas das estruturas hospitalares.
Para o SUS, as prioridades passam por fortalecer a atenção básica, reduzir desigualdades regionais, valorizar os profissionais, ampliar o atendimento multidisciplinar, qualificar as filas e preparar a rede pública para uma população mais envelhecida.
O Brasil tem uma experiência reconhecida na Estratégia Saúde da Família, mas precisa transformar essa capacidade em uma rede ainda mais integrada, resolutiva e acessível. Isso exige articulação entre União, estados e municípios, além de investimentos contínuos.
A principal advertência da crise britânica é que reformas na saúde pública não produzem resultados apenas com anúncios. Elas dependem de recursos, equipes preparadas, planejamento e continuidade.
O desafio brasileiro não é simplesmente copiar o NHS, mas aprender com seus acertos e erros para construir um SUS capaz de atender melhor, prevenir doenças e garantir dignidade à população em todas as fases da vida.
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Da Redação do Agenda Capital / Fonte: BBC News Brasil




