Na avaliação do docente da USP, Carlos Frederico Sparapan Marques o problema central não está no exame, mas na estrutura precária de parte dos cursos, especialmente em instituições privadas abertas
Por Redação
Os resultados do Enamed (Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica), divulgados nesta semana, acenderam um alerta vermelho sobre a qualidade da formação médica no Brasil. Dos 351 cursos de Medicina avaliados em todo o país, 107 apresentaram desempenho considerado insatisfatório, com menos de 60% dos alunos classificados como proficientes.
O resultado repercutiu fortemente no meio acadêmico, inclusive na Universidade de São Paulo (USP). Para o professor livre-docente da Faculdade de Medicina da USP, Carlos Frederico Sparapan Marques, os números confirmam uma preocupação antiga de especialistas da área.
“Nós do meio acadêmico já esperávamos que a qualidade do que seria entregue nesses cursos fosse muito aquém do ideal, devido à abertura totalmente desproporcional das faculdades de Medicina ao longo dos últimos anos. Mas essa nota trouxe um susto, porque a quantidade de gente que está sendo subformada é grande”, avalia.
Segundo o professor, o problema ultrapassa o desempenho em provas e alcança diretamente a segurança do paciente.
“Agora a gente tem que cuidar de uma doença gravíssima, que é quando o médico trata mal o paciente”, alerta.
Estrutura precária e formação incompleta
A divulgação dos dados do Enamed ocorre em meio a questionamentos da Associação Nacional das Universidades Particulares, que estuda acionar novamente a Justiça contra o exame, alegando falhas metodológicas. Para Sparapan Marques, no entanto, o foco da discussão está equivocado.
“Há métodos de avaliação que não são perfeitos, mas faculdades de renome mantiveram um desempenho muito elevado neste mesmo exame”, observa.
Na avaliação do docente da USP, o problema central não está no exame, mas na estrutura precária de parte dos cursos, especialmente em instituições privadas abertas nos últimos anos sem condições adequadas de ensino.
“O médico não atende o paciente apenas do ponto de vista teórico. Não adianta refazer a prova ou mudar a metodologia se o curso não oferece o mínimo. Tem lugares que não têm laboratório de anatomia, que não têm hospitais para atender”, critica.
Impacto no sistema de saúde
Para o professor, a deficiência na formação médica não pode ser corrigida simplesmente com uma nova avaliação. Uma vez concluída a graduação, o aluno carrega lacunas que exigem esforços adicionais para serem superadas.
“Não há como o aluno refazer a faculdade. O que resta é estudar mais para correr atrás do tempo perdido”, afirma.
Como possível caminho para mitigar os prejuízos, Sparapan Marques destaca o papel dos programas de residência médica, que podem ajudar a corrigir falhas de formação, desde que estejam preparados para receber profissionais com desempenho abaixo do esperado.
“Os programas de residência têm a possibilidade de corrigir algumas falhas, mas os cursos e os serviços precisam estar estruturados para lidar com essa realidade”, conclui.
Os resultados do Enamed reacendem o debate sobre a expansão desordenada do ensino médico no Brasil e reforçam a necessidade de maior rigor na autorização, fiscalização e manutenção dos cursos, sob pena de comprometer não apenas a formação profissional, mas a qualidade do atendimento prestado à população.
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Da Redação do Agenda Capital





