Caso Master/BRB, desgaste político, distanciamento de Celina Leão e reorganização do MDB explicam a decisão que redesenha a sucessão no Distrito Federal e amplia as negociações para a formação das chapas majoritárias
Por Delmo Menezes*
A desistência do ex-governador Ibaneis Rocha (MDB) de disputar uma vaga ao Senado representa, sem exagero, o maior terremoto político do Distrito Federal desde o início da corrida eleitoral de 2026. A decisão encerra uma trajetória iniciada em 2018, quando o então advogado surpreendeu o establishment político ao conquistar o Palácio do Buriti, e inaugura uma nova fase de incertezas, rearranjos e negociações entre os principais grupos políticos da capital.
Publicamente, Ibaneis afirma que a decisão foi motivada pelo desejo de cuidar da vida pessoal. Aos 55 anos, diz que cumpriu sua missão na política e que não precisa de mandato para ser feliz. Trata-se de uma justificativa legítima e coerente com o discurso adotado pelo ex-governador nas últimas semanas.
Entretanto, no ambiente político de Brasília, poucos acreditam que a desistência tenha sido consequência apenas de uma escolha pessoal. Nos bastidores, a avaliação predominante é de que a soma de fatores políticos, jurídicos e administrativos tornou sua candidatura cada vez mais difícil de sustentar.
O primeiro desses fatores foi a crise envolvendo o Banco de Brasília (BRB) e a frustrada operação de aquisição do Banco Master. Embora Ibaneis nunca tenha sido formalmente responsabilizado pelas investigações, seu governo esteve diretamente associado ao projeto de expansão do banco estatal. A indicação e a defesa pública do então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, fizeram com que o desgaste político inevitavelmente recaísse também sobre o ex-governador.
A sucessão de acontecimentos — rejeição da operação pelo Banco Central, investigações da Polícia Federal, afastamentos de dirigentes e os impactos financeiros enfrentados pela instituição — transformou o caso em um dos principais passivos políticos herdados da gestão Ibaneis. Para uma campanha ao Senado, cuja principal estratégia seria valorizar os oito anos de governo, carregar esse tema durante toda a eleição significaria enfrentar uma pauta defensiva permanente.
O segundo fator foi a deterioração da relação política com sua sucessora, a governadora Celina Leão (PP). Durante anos, ambos dividiram o mesmo projeto político. A transição parecia natural e apontava para uma continuidade administrativa. No entanto, poucos meses após assumir definitivamente o comando do Governo do Distrito Federal, Celina passou a imprimir uma marca própria, fazendo críticas à gestão anterior em áreas sensíveis, como saúde pública e à condução da crise envolvendo o BRB.
A troca pública de declarações, vídeos e sinais de distanciamento revelou algo raro na política local: uma ruptura entre criador e sucessora antes mesmo da primeira grande eleição após a transição de governo.
Esse afastamento retirou de Ibaneis um dos principais ativos de qualquer candidato competitivo: a unidade do grupo político. Sem um palanque sólido, sem demonstrações públicas de apoio da governadora e vendo Celina aproximar-se de outras pré-candidaturas ao Senado, especialmente Michelle Bolsonaro (PL) e Bia Kicis (PL), a candidatura do ex-governador passou a enfrentar obstáculos que extrapolavam sua popularidade pessoal.
Outro elemento igualmente relevante foi o ambiente interno do MDB. Lideranças importantes da legenda passaram a reconhecer reservadamente que o cenário se tornava cada vez mais complexo, e aos poucos foram se afastando do ex-governador. A declaração do presidente da Câmara Legislativa, Wellington Luiz, de que a desistência “não era inesperada” e poderia ocorrer “em razão de tudo que estava acontecendo”, reforça a percepção de que a decisão já era considerada uma possibilidade dentro do partido.
Agora, o MDB entra numa fase de reorganização. Sem seu principal nome para a disputa majoritária, a legenda terá de decidir rapidamente se lançará candidatura própria ao Senado ou se concentrará esforços na eleição proporcional e na manutenção de espaço em um eventual novo governo.
As conversas anunciadas por Wellington Luiz com Celina Leão e demais partidos indicam que o momento deixa de ser de definição individual para se transformar em uma ampla negociação política.
É justamente nesse ponto que reside o maior impacto da saída de Ibaneis.
Sua desistência abre um enorme vazio eleitoral. Um candidato que aparecia como protagonista deixa a disputa antes mesmo das convenções partidárias, alterando cálculos eleitorais, estratégias de alianças e até mesmo a composição das chapas majoritárias.
Com um espaço importante disponível, aumentam as possibilidades para que novas candidaturas sejam construídas nas próximas semanas. Lideranças que até então aguardavam definições do MDB passam a enxergar uma oportunidade concreta de ocupar esse eleitorado. Não está descartado, inclusive, o surgimento de nomes que sequer figuravam nas principais especulações políticas até agora.
Para Celina Leão, o cenário também muda. A ausência de Ibaneis elimina um potencial foco de disputa interna e amplia sua liberdade para construir uma coalizão própria, baseada em interesses do atual governo e não necessariamente nas alianças herdadas da gestão anterior. Ao mesmo tempo, cresce sua responsabilidade de administrar o delicado equilíbrio entre MDB, PP, PL e demais partidos que integram sua base política.
A oposição, por sua vez, observa atentamente esse redesenho. Quanto maior a fragmentação entre antigos aliados do governo, maiores podem ser as oportunidades para ampliar espaço eleitoral.
No plano pessoal, Ibaneis encerra uma passagem política incomum. Diferentemente da maioria dos líderes do Distrito Federal, construiu sua carreira diretamente no Executivo, sem passar pelo Legislativo. Foi eleito governador quando poucos acreditavam em sua vitória, reelegeu-se no primeiro turno, enfrentou a pandemia, viveu o episódio do afastamento determinado pelo Supremo Tribunal Federal após os atos de 8 de janeiro, retornou ao cargo e concluiu dois mandatos consecutivos.
O fato concreto é que o Distrito Federal acorda diante de um cenário completamente diferente daquele desenhado há poucos meses. A corrida ao Senado foi reiniciada. O MDB precisará redefinir sua estratégia, Celina Leão ganha maior protagonismo nas negociações e novas lideranças passam a enxergar uma oportunidade inédita de ocupar um espaço que parecia praticamente reservado.
Mais do que a desistência de um candidato, o anúncio de Ibaneis Rocha representa o encerramento de um ciclo político iniciado em 2018. E, ao mesmo tempo, marca o início de uma nova disputa, em que praticamente todas as peças do tabuleiro precisarão ser reposicionadas antes das convenções partidárias.
*Delmo Menezes – Gestor público, jornalista, secretário executivo, teólogo e especialista em relações institucionais com experiência em diversos órgãos da administração direta e indireta. Analista político e observador atento da política local e nacional. Editor-Chefe do portal de notícias Agenda Capital.






Dizer que “A desistência do ex-governador Ibaneis Rocha (MDB) de disputar uma vaga ao Senado representa, sem exagero, o maior terremoto político do Distrito Federal desde o início da corrida eleitoral de 2026” só demonstra a visão de que não sabemos votar. Depois de quebrar o banco de Brasília, a consequência natural do eleitor deveria ser a extinção da vida política do candidato, mas nem disso teremos a oportunidade, pois é mais fácil largar do que enfrentar as consequências.