
Quando a conveniência vence os princípios: alianças e suas consequências
Por Delmo Menezes*
Em tempos de eleição, poucas palavras são tão repetidas no vocabulário político quanto aliança. Elas surgem nos bastidores, ganham manchetes, mudam de forma rapidamente e, muitas vezes, desaparecem com a mesma velocidade com que foram anunciadas. A quebra de alianças no meio político não é exceção: é regra. Dificilmente passa um dia sem que a imprensa registre o nascimento ou a dissolução de um acordo considerado “estratégico”.
Em sua essência, aliança significa pacto, acordo de obrigações mútuas, ajuste firmado entre pessoas ou grupos em torno de um objetivo comum. Estar aliançado é, antes de tudo, estar comprometido. O problema é que, na política brasileira, esse compromisso raramente é sustentado por valores, princípios ou coerência ideológica. Na maioria das vezes, ele se ancora apenas na conveniência momentânea.
Quando trazemos o conceito de aliança para o campo político, logo percebemos um fenômeno recorrente: alianças firmadas com as pessoas erradas, pelos motivos errados e no tempo errado. Para que uma aliança funcione, é indispensável a lealdade entre as partes. É justamente aí que começam as rupturas. Onde não há confiança, o pacto vira armadilha.
No Brasil, interesses eleitorais costumam atropelar convicções ideológicas. Partidos com orientações completamente opostas dividem o mesmo palanque, confundem o eleitor e fragilizam o discurso público. O resultado é um ambiente político amorfo, no qual tudo se justifica em nome da “governabilidade” ou da “sobrevivência eleitoral”.
Ao longo dos anos, vimos muitos homens e mulheres ingressarem na vida pública com boas intenções. No entanto, no meio do caminho, alianças espúrias passaram a corroer projetos promissores. O que poderia ser uma trajetória sólida e respeitável acaba desmoronando por escolhas estratégicas equivocadas, feitas sem critério moral ou político.
Casos emblemáticos reforçam essa lógica. Escândalos revelados mostram como alianças mal construídas foram capazes de comprometer carreiras inteiras. Políticos antes vistos como “acima de qualquer suspeita” tiveram suas trajetórias interrompidas de forma precoce, não necessariamente por um ato isolado, mas por integrarem redes de interesses que aceitaram como normais.
A ambição desmedida, o enriquecimento ilícito e as vantagens do poder transformaram projetos públicos em ruínas. Muitos desses personagens serão lembrados não por suas propostas ou realizações, mas como símbolos de um sistema corrompido por alianças tóxicas. O velho ditado popular segue atual: “Diga-me com quem andas e eu te direi quem és”.
Há políticos que, no afã de agradar a todos, começam a “atirar para todos os lados”. O resultado é previsível: acabam presos em um emaranhado de compromissos contraditórios, promessas impossíveis de cumprir e relações que se tornam fardos. Quando a conta chega, surgem o arrependimento, a desilusão e a tentativa tardia de reconstruir uma imagem já comprometida.
O período pré-eleitoral intensifica esse cenário. Articulações são feitas às pressas, promessas são firmadas sem lastro na realidade e alianças são celebradas sem reflexão. Passadas as eleições, vêm as cobranças: cargos, espaços de poder, favores e concessões que, em vez de fortalecer o Estado, enfraquecem ainda mais as estruturas institucionais.
Talvez fosse o momento de Suas Excelências refletirem com mais profundidade. Os tempos são outros. A sociedade está mais atenta, mais conectada e menos tolerante a incoerências. Alianças mal-sucedidas não produzem apenas derrotas eleitorais; produzem rupturas morais, políticas e institucionais, encerrando projetos que poderiam ter sido relevantes.
No fim das contas, a política continua sendo um espaço de escolhas. E, como na vida, quem escolhe mal com quem caminha, dificilmente chega longe.
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*Delmo Menezes – Gestor público, jornalista, secretário executivo, teólogo e especialista em relações institucionais com experiência em diversos órgãos da administração direta e indireta. Analista político e observador atento da política local e nacional. Editor-Chefe do portal de notícias Agenda Capital.




