Megaoperação no Rio teve bombas lançadas por drones. Foto: Reprodução/TV Globo

Megaoperação no Rio deixa 64 mortos e expõe escalada bélica do crime organizado com uso de drones-bomba

Por Redação

A maior operação policial da história do Rio de Janeiro terminou em tragédia e acendeu um alerta inédito sobre o poderio militar das facções criminosas no país. Nesta terça-feira (28), uma megaoperação das forças de segurança contra o Comando Vermelho (CV) resultou na morte de 64 pessoas, entre elas quatro policiais, em um confronto que transformou o Complexo do Alemão e a Vila Cruzeiro, na zona norte da capital, em cenário de guerra.

Em reação à ofensiva, criminosos do CV usaram drones equipados com explosivos para atacar agentes e rivalizar com o aparato do Estado. As imagens de casas em chamas e explosões vistas nos morros cariocas escancararam uma nova fase da criminalidade brasileira: a guerra tecnológica e armada das facções, com táticas inspiradas em conflitos como os da Ucrânia e da Faixa de Gaza.

Drones-bomba e guerra urbana

Os drones utilizados são do tipo FPV (First Person View) — modelos comerciais que custam entre R$ 3 mil e R$ 10 mil e podem carregar até meio quilo de peso, o suficiente para transportar granadas. De acordo com a polícia, os equipamentos foram adaptados para lançar artefatos explosivos sobre as tropas e áreas civis.

Segundo especialistas em segurança pública, a adoção desses drones pelo Comando Vermelho e pelo Primeiro Comando da Capital (PCC) representa uma mudança de paradigma no enfrentamento ao crime organizado, que agora opera com logística, tecnologia e armamento de ponta.

“Cada vez mais facções adquirem armamento de grosso calibre e tecnologia avançada. Já houve até apreensões de equipamentos antidrone em comunidades dominadas por traficantes”, afirmou Leonardo Silva, pesquisador do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Estado de guerra

O secretário de Segurança Pública do Rio, Victor Santos, reconheceu a gravidade da situação. “Esses criminosos dominaram essa região. Hoje, por exemplo, utilizaram drones lançando artefatos explosivos contra os policiais e a população. É a realidade: esse estado de guerra que a gente vive no Rio de Janeiro”, disse em entrevista à TV Globo.

De acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, cerca de 40 milhões de brasileiros (19% da população) vivem em áreas dominadas pelo crime organizado. Em 2023, esse número era de 14%.

Fabricação de armas e táticas militares

Além dos drones, o arsenal das facções impressiona. Investigações recentes da Polícia Federal revelaram fábricas clandestinas de fuzis e explosivos improvisados operando com componentes importados da China e dos Estados Unidos.

Réplicas do fuzil AR-15 foram apreendidas em oficinas clandestinas que abasteciam tanto o CV quanto o PCC. Em agosto, uma operação em São Paulo desmontou uma dessas fábricas, onde 40 fuzis em montagem foram encontrados. Segundo a PF, a estrutura tinha capacidade para produzir até 3,5 mil armas por ano.

As facções também têm desenvolvido explosivos improvisados, como os chamados “cones-granada”, instalados em barricadas e usados como minas terrestres. Em um dos episódios, três policiais ficaram feridos na Favela do Barbante, na Ilha do Governador, após a detonação de um desses dispositivos.

Região da Penha, na zona norte do Rio de Janeiro, virou cenário de guerra após megaoperação contra o Comando Vermelho Foto: Pedro Kirilos/Estadão

Infiltração e tecnologia roubada das forças armadas

Em setembro do ano passado, a Polícia Federal prendeu um militar da Marinha acusado de colaborar com o Comando Vermelho, ensinando traficantes a adaptar drones e desenvolver mecanismos para acionar granadas remotamente.

Segundo o presidente da Associação dos Delegados de Polícia (Adepol) do Brasil, Rodolfo Queiroz Laterza, o uso desses equipamentos representa uma ameaça global. “A guerra na Ucrânia simboliza uma revolução no uso de drones. Agora, facções e insurgentes em países como Nigéria, México e Brasil empregam versões comerciais de baixo custo capazes de destruir veículos blindados leves, como o caveirão da PM do Rio”, alertou.

Laterza defendeu o uso de sistemas antidrones e armas de energia direcionada pelas forças de segurança brasileiras. “Se não houver investimento e capacitação urgente, enfrentaremos riscos imensuráveis à nossa segurança”, completou.

PCC também investe em drones e rastreamento térmico

O Primeiro Comando da Capital (PCC) tem seguido a mesma trilha tecnológica. O grupo usa câmeras termográficas e drones para monitorar postos fluviais da polícia na Amazônia, e até para transportar drogas e celulares para dentro de presídios. Em São Paulo, o Ministério Público revelou que a facção também usa o equipamento para vigiar alvos “jurados de morte”, incluindo promotores e diretores de presídios.

Armas estrangeiras e falhas de rastreamento

Um levantamento da Subsecretaria de Inteligência da PM do Rio mostrou que 90% dos fuzis apreendidos em 2023 eram de fabricação estrangeira. Para Carolina Ricardo, diretora do Instituto Sou da Paz, o dado reforça a urgência de fortalecer a inteligência investigativa e o rastreamento de armas.

“É fundamental ampliar a cooperação entre as polícias estaduais e a Polícia Federal, fortalecendo o centro de rastreamento de armamentos. O fluxo internacional dessas armas precisa ser mapeado com precisão”, afirmou.

Escalada sem precedentes

A operação desta terça-feira, que deixou 64 mortos, marca um ponto de inflexão na guerra urbana do Rio de Janeiro. O uso de drones-bomba, explosivos improvisados e fábricas clandestinas de armas mostra que o crime organizado já ultrapassou o limite da criminalidade tradicional e alcançou um nível de militarização e sofisticação tecnológica sem precedentes.

O episódio escancara o desafio que o Estado brasileiro enfrenta para retomar o controle de territórios dominados por facções e proteger milhões de cidadãos reféns de uma guerra que, cada vez mais, se parece com um conflito armado de alta intensidade.

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Da Redação do Agenda Capital

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