Evangélicos seguem distantes do PT, apesar das investidas de Lula
Por Delmo Menezes
Às vésperas de mais uma disputa eleitoral, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a direcionar esforços para se aproximar de um dos segmentos mais decisivos e, ao mesmo tempo, mais resistentes ao petismo: o eleitorado evangélico. Trata-se de uma fatia expressiva e heterogênea da sociedade brasileira, que hoje representa cerca de um quarto da população com mais de 10 anos de idade e que, historicamente, tem demonstrado maior alinhamento com pautas conservadoras e com a direita política.
Nas últimas eleições presidenciais, os evangélicos votaram majoritariamente no então presidente Jair Bolsonaro, hoje preso por decisão judicial relacionada à tentativa de golpe contra o Estado Democrático de Direito. O resultado daquele pleito deixou claro que, mesmo derrotado no cômputo geral, Bolsonaro venceu com folga nesse segmento, evidenciando a dificuldade estrutural do PT em dialogar com esse público.
Ciente desse desafio, Lula tem apostado em uma estratégia de convencimento baseada, sobretudo, nos programas sociais do governo. Em discurso recente durante um evento do PT em Salvador (BA), no sábado (7), o presidente afirmou que “90% dos evangélicos ganham benefícios do governo” e defendeu que a militância vá às periferias dialogar com esse público, apresentando os programas sociais como vitrine da gestão petista.
A lógica, no entanto, encontra limites claros. Além de a afirmação sobre o percentual de evangélicos beneficiados por programas sociais não encontrar respaldo público em dados oficiais, há um equívoco recorrente na leitura política do Planalto: a crença de que políticas de transferência de renda, por si só, garantem apoio eleitoral. Benefícios sociais já são vistos por grande parte da população como políticas de Estado — e não como favores de governos específicos — e, mais do que isso, não substituem afinidade ideológica, valores morais ou identidade cultural.
É justamente nesse ponto que reside a maior rejeição de parcela expressiva dos evangélicos ao presidente e ao PT. Não se trata apenas de uma discordância pontual, mas da percepção de incompatibilidade de valores, especialmente em temas ligados à família, costumes, liberdade religiosa e papel do Estado. Quando se fala em conquistar “corações e mentes”, Lula parece mirar apenas o campo racional — e de forma limitada — sem alcançar o aspecto emocional e identitário que mobiliza esse eleitorado.
Outro obstáculo relevante é a ausência, dentro do governo, de lideranças com forte identificação junto ao meio evangélico. Não há, na estrutura ministerial ou no núcleo político do Planalto, uma autoridade que dialogue organicamente com esse segmento. A exceção frequentemente citada é o advogado-geral da União, Jorge Messias, evangélico e nome de confiança de Lula, indicado pelo presidente para uma vaga no Supremo Tribunal Federal. Ainda assim, Messias não reúne, até o momento, o apoio necessário no Senado para viabilizar sua indicação, o que enfraquece seu papel como ponte política entre o governo e esse público.
Embora não faltem pesquisas, diagnósticos e cartilhas produzidas pelo próprio PT e por organizações de esquerda para orientar o chamado “trabalho de base” junto aos evangélicos, o risco de uma abordagem forçada, excessivamente eleitoreira ou desconectada da realidade religiosa é alto. Em vez de aproximar, pode aprofundar a desconfiança e reforçar a rejeição.
No fim das contas, o desafio de Lula não está apenas em comunicar melhor seus programas sociais, mas em compreender que, para grande parte dos evangélicos, a política passa antes por valores, identidade e pertencimento — dimensões que não se conquistam apenas com números, benefícios ou marketing institucional.
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Da Redação do Agenda Capital





