
Acordo Mercosul–UE entra em vigor e expõe forças e fragilidades da economia brasileira
Por Delmo Menezes
O acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia começa a valer de forma provisória nesta sexta-feira (1º), encerrando um ciclo de mais de duas décadas de negociações e inaugurando uma nova etapa para a inserção internacional do Brasil.
Mais do que um tratado comercial, o movimento representa uma inflexão estratégica em meio a um cenário global marcado por protecionismo crescente, tensões geopolíticas e reorganização das cadeias produtivas.
A decisão foi formalizada no Brasil por decreto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, permitindo a aplicação imediata da parte comercial do acordo — ainda que sua versão definitiva dependa de aprovação completa no Parlamento Europeu e enfrente questionamentos jurídicos dentro do bloco.
Abertura comercial: oportunidade ou exposição?
A largada do acordo já produz efeitos concretos: mais de 80% das exportações brasileiras para a Europa passam a entrar sem tarifa, enquanto milhares de produtos europeus também ganham acesso facilitado ao mercado sul-americano.
Na prática, o Brasil passa a operar em uma área econômica que reúne cerca de 720 milhões de consumidores e um PIB combinado de US$ 22 trilhões.
Mas há um ponto central pouco explorado no debate público: o acordo não cria competitividade — ele apenas a revela.
Setores já estruturados, com escala e produtividade, tendem a capturar ganhos imediatos. Já segmentos menos preparados enfrentarão uma concorrência mais intensa, sem o amortecedor tarifário que historicamente protegeu parte da indústria nacional.
Agro forte, indústria seletiva
Como esperado, o agronegócio aparece como principal vetor de ganhos iniciais. Produtos como carnes de aves e suína, café, açúcar, etanol e óleos vegetais ganham espaço relevante no mercado europeu.
O impacto será particularmente visível no Centro-Oeste e em regiões do Sul, onde a agroindústria já opera com padrão exportador consolidado.
No entanto, diferentemente de acordos anteriores, a indústria também entra no jogo — e com peso.
Dados da Confederação Nacional da Indústria indicam que 93% dos produtos com tarifa zerada já na entrada em vigor são bens industriais, o que inclui máquinas, equipamentos, químicos e metalurgia.
Isso abre uma janela estratégica importante: o Brasil passa a competir em segmentos de maior valor agregado, desde que consiga sustentar padrões de qualidade, inovação e custo.
O risco silencioso: desindustrialização seletiva
Se por um lado o acordo premia eficiência, por outro expõe fragilidades estruturais. A indústria brasileira, ainda marcada por baixa produtividade, carga tributária elevada e gargalos logísticos, pode sofrer em setores menos competitivos — especialmente aqueles voltados ao mercado interno e sem inserção global.
O risco não é uma desindustrialização generalizada, mas sim uma desindustrialização seletiva, atingindo nichos incapazes de competir com produtos europeus mais baratos e tecnologicamente avançados.
Esse efeito tende a aprofundar desigualdades regionais e setoriais, criando um novo mapa econômico dentro do país.
Europa dividida e o fator geopolítico
Do lado europeu, o acordo também está longe de ser consenso. Enquanto países como Alemanha e Espanha veem no tratado uma oportunidade para reduzir dependência da China e mitigar impactos de políticas comerciais dos Estados Unidos — especialmente sob influência de Donald Trump —, outras nações, como a França, resistem.
As críticas se concentram em dois pontos:
- concorrência agrícola com produtos sul-americanos
- preocupações ambientais, especialmente ligadas ao desmatamento
Além disso, o acordo foi contestado no tribunal superior da União Europeia, o que pode atrasar ou impor condicionantes à sua implementação definitiva.
Uma resposta ao novo mundo multipolar
O timing do acordo não é casual. A União Europeia acelera sua agenda comercial em resposta a um cenário de fragmentação global, marcado por:
- tarifas comerciais mais agressivas
- disputas por minerais estratégicos
- reconfiguração das cadeias produtivas
Nesse contexto, o acordo com o Mercosul surge como peça de um movimento maior: reafirmar o multilateralismo e garantir acesso a mercados e insumos estratégicos.
Brasil: entre a oportunidade e a obrigação
A entrada em vigor do acordo impõe ao Brasil uma escolha clara.
A primeira é aproveitar o momento para:
- ampliar exportações
- atrair investimentos
- modernizar sua base produtiva
A segunda — mais arriscada — é manter as distorções internas e assistir à perda de competitividade em setores expostos.
O acordo, por si só, não resolve os entraves históricos do país. Ao contrário: ele os torna mais visíveis e urgentes.
Início de um novo ciclo
O acordo Mercosul–União Europeia não é um ponto de chegada — é um ponto de partida.
Sua aplicação provisória já redesenha o comércio exterior brasileiro e inaugura uma fase em que eficiência, produtividade e inovação deixam de ser diferenciais e passam a ser شروط de sobrevivência econômica.
O Brasil terá ganhos — mas não automáticos, nem universais. No novo cenário, vencerão aqueles que estiverem preparados.
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Da Redação do Agenda Capital




