O papa Francisco traz uma rosa para a Virgem Maria durante a audiência geral na praça São Pedro em 2015, no Vaticano. Reprodução.

O Papa Francisco ficou marcado por ‘encontrar as periferias’ e pregar uma Igreja missionária para deter o seu esvaziamento

Por Delmo Menezes

Morreu nesta segunda-feira (21/4), em Roma, aos 88 anos, o papa Francisco, o pontífice que marcou o século XXI ao buscar uma Igreja mais próxima dos esquecidos e marginalizados, sem jamais alterar os dogmas centrais do catolicismo. O argentino Jorge Mario Bergoglio, primeiro papa jesuíta e também o primeiro latino-americano a liderar a Igreja Católica, deixa um legado de compaixão, acolhimento e missão nas fronteiras geográficas e humanas do planeta.

Francisco morreu menos de um mês após ter recebido alta hospitalar, onde esteve internado para tratar uma pneumonia dupla. Mesmo debilitado, apareceu publicamente pela última vez no domingo de Páscoa, na Praça São Pedro, onde saudou os fiéis com o sorriso que o acompanhou durante seu pontificado.

A imagem de Francisco será sempre associada à sua primeira viagem como papa, em julho de 2013, quando desembarcou na ilha de Lampedusa, entre a Europa e a África. Ali, cercado por refugiados africanos, lançou um forte apelo contra a “globalização da indiferença” e pregou uma Igreja em saída — uma Igreja missionária, presente onde a dor é mais gritante. Ele lançou flores ao Mediterrâneo, em memória aos que morreram tentando fugir da guerra e da miséria, e clamou à humanidade: “Caim, onde está o teu irmão?”.

Seu pontificado foi marcado por uma nova postura pastoral, que privilegiava a escuta, a misericórdia e a inclusão. Francisco não mexeu nos pilares doutrinários da Igreja, mas mudou profundamente a maneira como ela se apresenta ao mundo. “O papa que veio do fim do mundo”, como se apresentou ao ser eleito em 2013, mostrou que o centro da fé poderia ser realocado — não geograficamente, mas existencialmente.

Dois papas.Bento XVI cumprimenta Francisco no Vaticano Foto: Osservatore Romano/AP

Francisco foi um papa dos símbolos: celebrou missas em barcos de refugiados, visitou presídios, lavou os pés de imigrantes, e escreveu encíclicas como Laudato Si’, sobre o cuidado com a Casa Comum, e Fratelli Tutti, sobre a fraternidade e a amizade social. Enfrentou a resistência de setores conservadores dentro da própria Igreja, especialmente quando falou sobre acolhimento de pessoas LGBTQIA+ ou propôs repensar estruturas clericais em regiões como a Amazônia. Ainda assim, manteve-se firme em seu propósito: “salvar almas”, como dizia, e fazer a Igreja reencontrar o vigor do Evangelho nas fronteiras do mundo.

Filho de imigrantes italianos, Francisco cresceu ouvindo histórias de perdas no oceano e de sobrevivência. “Eu também poderia estar entre os descartados de hoje”, escreveu em sua autobiografia Esperança. Tornou-se sacerdote em 1969, depois de ter sido impedido de ir em missão ao Japão por problemas pulmonares. Permaneceu na Argentina, onde foi provincial dos jesuítas, arcebispo de Buenos Aires e, por fim, eleito papa após a renúncia histórica de Bento XVI.

Francisco também não se furtou a gestos políticos e humanitários. Relembrou a repressão na ditadura argentina, prestou homenagens a vítimas do nazismo e defendeu os pobres como prioridade evangélica. Acreditava que a fé precisava ser vivida com ternura, não com litígios. E por isso, enfrentou críticas. Para alguns, era “progressista demais”; para outros, “não ousava o suficiente”.

Na última década, reformou a Cúria Romana, atualizou estruturas de governança e tentou aproximar o catolicismo das novas gerações. Mas não rompeu com o passado. Seu estilo era mais pastoral que revolucionário. “Francisco não quis mudar a doutrina, mas mudar corações”, resumiu o cardeal argentino Victor Manuel Fernández, seu amigo e colaborador.

O papa que tuitava e tinha perfil no Instagram nunca perdeu o foco na missão essencial da Igreja: ser sinal do amor de Deus por todos. Seu jeito direto, simples e humano conquistou milhões pelo mundo, ainda que nem todos tenham compreendido a profundidade de sua proposta.

Ao morrer, Francisco deixa uma Igreja mais consciente de seu papel no mundo moderno, ainda que tensionada por disputas internas. Mais que reformas institucionais, ele ofereceu um testemunho de compaixão e presença entre os que mais sofrem — nas bordas da sociedade, nos campos de refugiados, nas ruas, nas florestas ameaçadas e nos corações esquecidos.

Seu corpo será velado no Vaticano, e espera-se uma comoção global semelhante à de João Paulo II, em 2005. O sucessor será escolhido em conclave nos próximos dias, mas o exemplo de Bergoglio — de um papa pastor, humilde e incansável — marcará por muito tempo os rumos da Igreja Católica.

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Da Redação do Agenda Capital

Delmo Menezes
Gestor público, jornalista, secretário executivo, teólogo e especialista em relações institucionais com experiência em diversos órgãos da administração direta e indireta. Analista político e observador atento da política local e nacional. Editor-Chefe do portal de notícias Agenda Capital.

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