Wanderson de Oliveira, teme descontrole da pandemia no início de 2021, acredita que imunização coletiva deve demorar e considera prematuro o desmonte de hospitais de campanha

Por Beatriz Jucá

Seis meses depois de deixar o Ministério da Saúde, o ex-secretário de Vigilância Epidemiológica Wanderson de Oliveira ainda costuma receber ligações de secretários estaduais para trocar informações sobre políticas de enfrentamento ao coronavírus. O enfermeiro responsável por formular as primeiras estratégias de combate à pandemia do Brasil resistiu, por três meses, às turbulências políticas e ideológicas que tomaram a pasta em meio à crise sanitária, mas deixou o cargo depois de duas trocas de ministro. Servidor com duas décadas de experiência na saúde pública, saiu colocando-se à disposição para contribuir com Eduardo Pazuello, que poucos dias antes havia se tornado ministro interino. Mas desde sua saída não tem qualquer contato direto com a pasta. Oliveira hoje presta consultoria formalmente aos Governos de São Paulo e de Pernambuco e, nos bastidores, diz que está sempre “trocando ideias” com gestores de outros Estados. “Escolas, para mim, têm que voltar. Escola não é vetor de transmissão. Já está demonstrado em alguns municípios do Brasil e também do exterior que escola aberta é muito mais segura do que bares e restaurantes”, diz ele.

De olho no contágio que se acelera no país e já pressiona sistemas de saúde estaduais, ele está preocupado com o cenário que se desenha para o início de 2021. Teme um descontrole da doença em janeiro e fevereiro ― quando acredita que o país verá os efeitos das aglomerações das eleições e das festas de fim de ano. A esta preocupação, soma-se a ausência ainda de uma vacina neste período. O Governo espera começar a vacinar a população a partir de março, mas Oliveira acredita que somente no final do primeiro semestre estará de fato em curso uma campanha de vacinação robusta. “Nós não teremos todas as vacinas ao mesmo tempo. Então não é possível ficar planejando uma grande campanha já a partir do primeiro semestre”, diz. “A vida normal a gente vai demorar um pouco mais pra retomar”, acrescenta. Na entrevista que concedeu ao EL PAÍS por telefone, ele fala sobre as perspectivas para a vacinação, os riscos de planos estaduais desarticulados diante da guerra política em torno da imunização e o futuro das quarentenas em meio ao agravamento da pandemia.

Pergunta. O Brasil começou nesta semana a anunciar as diretrizes básicas da estratégia de campanha de vacinação da covid-19. O Governo trabalha com cerca de três vacinas e excluiu as que precisem ser armazenados em temperaturas que não são comportadas pela rede de frios do SUS. O Brasil ficou para trás na corrida mundial?

Resposta. Realmente tem uma dificuldade logística importante na questão da temperatura das vacinas. No entanto, considerando o volume de vacinas e também a necessidade de proteger principalmente os profissionais de saúde, essas vacinas poderiam ser úteis para estes grupos. No primeiro momento, você precisa focar na garantia de funcionamento dos serviços. É assim que funciona na maior parte das estratégias. Então você vacina quem vai se expor mais ao vírus porque você vai precisar garantir que aquelas equipes estejam aptas a trabalhar. Neste caso, profissionais de saúde e segurança seriam o primeiro foco. São esses grupos que vão viabilizar a vacinação dos demais grupos e também a resposta. Depois disso, seria importante trabalhar também com populações com comorbidades e também professores, pra você conseguir retornar com mais velocidade o ensino.

P. Considerando a disputa política no Brasil, teremos vacina em 2021 pra vacinar todos os prioritários previstos? Quando acha que a gente pode ter de fato uma campanha em curso no país e a partir daí qual é a perspectiva pra começar a pensar em voltar a uma vida normal?

R. Bom, vida normal a gente vai demorar um pouco mais. Primeiro porque nós não teremos todas as vacinas ao mesmo tempo. Então não é possível ficar planejando uma grande campanha ao mesmo tempo já a partir do primeiro trimestre. Acredito que nós teremos a vacina no primeiro trimestre enquanto produto. Você vai ter ali de 15 a 30 milhões de doses para fazer alguns grupos prioritários inicialmente. E depois você vai ampliando porque vão chegando novos lotes, se tudo correr bem, sem nenhum contratempo. Creio que o caminho é a gente entender como vai ser a logística. Essas vacinas, de modo geral, são duas doses com um intervalo de 14 dias entre a primeira e a segunda. Então isso é bastante complicado. Se você tem 20 milhões, na prática você vai vacinar 10 milhões. Só que é importante pensar que, quando eu faço um planejamento, eu posso tirar 10% delas para problemas de perda por problemas gerais que acontecem. Então é no final do primeiro semestre, ali meados do segundo trimestre, eu creio, para que a gente comece a campanha mesmo de vacinação, pensando em todo o processo mais complexo. Mas a vacina em si deve começar um pouco antes.

O ex-secretário Wanderson de Oliveira em seu apartamento em Águas Claras/DF. Foto: Reprodução

P. São Paulo anunciou que pode começar a vacinar já em janeiro, antes do Brasil. É preciso ter o aval da Anvisa para isso, mas quais os impactos de os Estados começarem suas campanhas de forma desarticulada à estratégia nacional?

R. Para fazer a aplicação e uso da vacina, é necessária a autorização da Anvisa. Isso vale pra qualquer produto biológico. Os impactos da desarticulação da estratégia nacional é que realmente fica muito complicado você ter [a vacina] principalmente em Estados com menos estrutura que São Paulo, por exemplo. Os princípios do SUS são a hierarquização, a regionalização, a universalização e principalmente a equidade. Você tem que tratar de forma diferente os desiguais. Tem Estados que não tem a estrutura de São Paulo e vão precisar de apoio. O papel de fazer esta arbitragem é do Ministério da Saúde.

P. O Brasil vê um aumento de casos de coronavírus em diversas regiões. A que o senhor atribui essa aceleração e em que lugar estamos da pandemia? Estamos entrando em uma espécie de segunda onda como a Europa?

R. Nós ainda estamos acompanhando este aumento, que decorre de vários aspectos, incluindo eleições municipais, aglomerações por causa dos feriados, maior flexibilização de restaurantes, bares, do comércio como um todo. E também pelas características sociais locais em algumas regiões do Brasil. Então acredito que este aumento primeiro é justificável pelo elevado número de pessoas que ainda não tiveram contato com o vírus. Realmente há um número de suscetíveis ainda bastante expressivo. Os Estados têm observado um aumento importante de acidentes de trânsito, então também há uma circulação maior na dinâmica social. Além da covid-19, à medida que você vai retornando para as atividades, a tendência é que as unidades de saúde que já tinham problemas antes da pandemia voltem a apresentar dificuldades. Então acho que tudo está relacionado, inclusive tem aumentado significativamente o número de casos de síndrome respiratória aguda grave, apesar da letalidade não ter acompanhado.

P. Alguns locais já sofrem pressões nos seus sistemas de saúde novamente, inclusive alguns que já haviam desmontado hospitais de campanha. Foi prematuro abrir mão dessas estruturas?

R. Em alguns lugares foi prematuro sim. Mas não foi culpa dos gestores. Em muitos lugares, eu acompanhei isso, houve uma pressão dos órgãos de controle, não aceitando a justificativa do gestor de saúde de que o leito tinha que ficar vazio porque a pandemia poderia aumentar. É muito complexo para o gestor de saúde justificar o leito vazio com a visão que os órgãos de controle têm com relação a este processo atual. Acho que falta aí um maior esclarecimento junto aos órgãos de controle. A pandemia não acabou. Em alguns lugares, desmontou, mas a necessidade está sendo suprida. É importante lembrar que a taxa de ocupação de leitos que se tem hoje está sendo comparada com a cobertura de três meses atrás, quando havia mais leitos disponíveis. Mas eu destacaria a região centro-sul do país como uma que desmontou de forma prematura, que ainda poderia viver um aumento. Até porque ainda estamos num momento de transição para o verão.

P. Estamos em dezembro, um mês de muitas confraternizações com as festas de fim de ano. Com as políticas de controle que temos hoje, o que esperar da pandemia no início de 2021?

R. Creio que a gente vá, no primeiro semestre, ali em meados de janeiro e fevereiro ver o aumento, principalmente por causa das aglomerações. É um período em que a gente já começa a acompanhar também o início da sazonalidade (das síndromes gripais) no Brasil, principalmente na região Norte. É preocupante porque ainda não teremos vacina neste período. A gente vai estar começando uma campanha, com um volume ainda inferior à necessidade de vacinação. Há um ponto de atenção que deve ser debatido. A campanha de influenza ocorre todos os anos entre abril e maio. A vacina [da covid-19] não foi testada na concomitância de aplicação. Por esse motivo, alguns especialistas dizem que deve ocorrer um intervalo que cerca de 30 dias entre a aplicação de covid-19 e de Influenza ou ao contrário.

P. Alguns locais começam a retomar medidas mais restritivas. Diante da perspectiva de aumento ainda maior de casos, podemos ter de retomar a quarentena como no início do ano?

R. A gente pode, sim, enfrentar em alguns lugares nas próximas semanas uma necessidade de restrição maior. Ou não. Pode haver uma estabilização em patamares elevados, mas que o sistema comporte. Se tivéssemos conseguido fazer um distanciamento social como a Europa fez em maio, não tenho dúvidas de que estaríamos melhores. O fato de eventualmente um bairro ou uma cidade específica necessitar de uma maior restrição não deve ser visto como retrocesso. É apenas um instrumento de controle para que o sistema dê conta de suportar o aumento de demanda. Não é uma luta, não é uma disputa entre um setor e outro. Escolas, para mim, têm que voltar. Escola não é vetor de transmissão. Já está demonstrado em alguns municípios do Brasil e também do exterior que escola aberta é muito mais segura do que bares e restaurantes.

P. O Brasil tem um verdadeiro exército de agentes de saúde, presentes na atenção básica de praticamente todos os municípios, que poderiam ter atuado de forma efetiva para controlar o contágio. Por que desperdiçamos este arsenal no combate à pandemia?

R. Ainda estamos desperdiçando. Existe uma técnica que muitos países adotaram para controle chamado rastreamento de contato. Para cada pessoa que procura a unidade básica de saúde, você tem que procurar, seja no trabalho ou na casa daquela pessoa, quais são as pessoas que tiveram contato com o doente. Para você fazer isso, vai precisar de gente para ir atrás. Se nós tivéssemos estes profissionais capacitados e desenvolvidos, não tenho dúvidas que estaríamos em uma posição muito mais confortável.

P. E por que o país não adotou esta estratégia?

R. Lá no começo, como já disse o ex-ministro Mandetta, por falta de equipamentos de proteção individual, desconhecimento da doença, e de testes. Estávamos em um momento que não dava para expor um técnico se não estávamos preparados para isso. Atualmente, com um nível de conhecimento que a gente tem da doença, já é possível fazer.

P. Os três ministros da saúde apresentaram seus programas de testagem para controle de casos, mas nunca chegaram a alcançar suas metas e agora vemos milhares de testes nos estoques do Governo, prestes a vencer…

R. Há prejuízo direto para a população. Se vencer, o prejuízo é contábil. O fato de o teste não estar presente nos municípios e Estados… O prejuízo é pela dificuldade que a gente tem de caracterização da prevalência e incidência de casos numa comunidade. É a partir desses testes que você faz o cálculo do R0 (taxa de transmissão do vírus), da velocidade e da direção da transmissão. Se está pegando mais um bairro ou outro. Isso não é possível fazer apenas com diagnóstico clínico, precisa de diagnóstico laboratorial. Nós tivemos uma série de investimentos em laboratórios, mas o Brasil, comparativamente aos 100 maiores países, é o que menos testou. Apesar da gente ter feito muitos testes em números absolutos, incluímos os testes sorológicos. E para fazer o controle, precisamos do teste molecular, que mostra quem está infectado naquele momento. O sorológico apenas vai dizer que naquela comunidade já houve muitos casos, mas não aponta a direção da epidemia.

P. Isso atrapalha a vigilância epidemiológica no país?

R. Dificulta muito.

P. A estratégia a partir de agora deve focar em quebrar cadeias de transmissão ou garantir atendimento a infectados com a expansão dos sistemas de saúde, como no início?

R. As duas atividades precisam ser feitas concomitantemente. Se uma pessoa chega com sintomas de síndrome gripal, já é um caso que eu deveria estar buscando todo mundo ligado a ele independentemente do resultado laboratorial. Precisamos usar o teste laboratorial de forma mais massiva, de maneira que consiga caracterizar essa rede de contatos, se ela é positiva ou não. Para cada caso, teria que ter em torno de cinco a dez testes RT-PCR. Então vai precisar de todos estes sete milhões de testes do estoque do Governo e muito mais.

P. As taxas de letalidade caíram no país e pode ter aí uma influência no aumento nos tipos de testes. Nos últimos dias, o Ministério da Saúde usou essas taxas para defender que o tratamento precoce com a cloroquina é eficiente, na contramão de muitos estudos já apresentados. Vê uma ginástica nos dados para defender um protocolo que praticamente só não foi abandonado ainda pelo Brasil?

R. Sobre cloroquina, não vou nem comentar porque isso já está tão óbvio que não tem efeito. Eu questiono não é nem o Governo, mas o Conselho Federal de Medicina não fazer um manifesto e tirar essa coisa de protocolo porque não faz mais sentido com o que já se sabe. Agora, contra fatos não há argumentos, né? Se você observar a curva de casos do Brasil, ela praticamente está cursando independentemente das ações governamentais. Em outros países da Europa, como Itália, Holanda, Alemanha, você pega a curva de casos, você vê que durante o período do verão, houve resposta por causa das medidas tomadas anteriormente como o distanciamento social. Agora mesmo com os novos lockdowns. Se você pegar a França, por exemplo, ficou em lockdown durante algumas semanas e, agora que está voltando, o número número de casos está caindo. Eu só tenho a parabenizar os gestores brasileiros que fizeram alguma restrição porque eles estão no caminho certo. A França chegou, durante duas semanas consecutivas, a ter em torno de dois casos por 100.000 habitantes. O Brasil nunca conseguiu reduzir abaixo de 80 casos por 100.000 habitantes. E olha que a gente não está fazendo tanto teste assim. Então esta incidência é muito maior do que a gente consegue perceber.

P. O Brasil tem um SUS robusto, um exército de agentes de saúde e um plano de imunização que é referência mundial, mas apresenta estes resultados. Abrimos mão de tudo isso no combate à pandemia?

R. Poderíamos ter feito melhor, né?

*Com informações do El País 

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