Por Delmo Menezes*
Permanecer ou não em um cargo público? Essa é uma pergunta que, em um ambiente democrático, deveria ter resposta simples. Em tese, quem ocupa função de confiança está a serviço de um projeto político, e não de si mesmo. Mas a prática mostra outra realidade: o apego a cargos de primeiro e segundo escalão se tornou uma marca da política brasileira, revelando não apenas fragilidades pessoais, mas também institucionais.
O termo “desapego” é constantemente lembrado em manuais de bem-estar emocional, mas poderia, sem exagero, ser incluído também nos manuais de boa governança. Apegados ao poder, gestores se recusam a sair mesmo quando o partido que os indicou já não integra mais a base governista. Criam narrativas de “compromisso com o país” ou de “continuidade técnica”, mas na maioria dos casos o real objetivo é manter status, influência e os benefícios que a cadeira oferece.
O dilema do Centrão e a lógica do poder
Um exemplo emblemático está no atual cenário nacional, com o chamado desembarque do Centrão do governo Lula. Embora partidos desse bloco tenham sinalizado afastamento da base, lideranças políticas ainda insistem em permanecer em ministérios e secretarias estratégicas. O discurso público é de responsabilidade com o Brasil, mas nos bastidores a realidade é outra: a manutenção de cargos garante visibilidade, recursos e poder de barganha para futuras negociações eleitorais.
Esse comportamento revela um vício antigo da política brasileira: a ideia de que cargos públicos são patrimônios individuais ou de grupos, e não instrumentos temporários de execução de políticas públicas. Quando a política se transforma em um balcão de negócios, a população — elo mais frágil dessa cadeia — é quem paga a conta.
A lógica institucional e o gesto de grandeza
Em ambientes institucionais sérios, a regra é simples: quando um gestor pede exoneração ou é substituído, toda a equipe de confiança coloca os cargos à disposição. Esse gesto não é apenas simbólico, mas demonstra respeito à instituição, permitindo que o novo indicado forme sua própria equipe e implemente sua visão de trabalho.
No entanto, essa postura tem se tornado rara. Muitos se recusam a sair, insistindo em ocupar espaços que já não lhes cabem. Alguns gestores, mesmo sem capacidade técnica ou respaldo político, criam barreiras artificiais para manter o status, chegando a prejudicar a máquina pública. Nesse movimento, o interesse coletivo é abandonado em nome da preservação do “ego”.
O apego e suas consequências
O apego excessivo a cargos públicos não é apenas uma fraqueza pessoal; é um sintoma de instituições frágeis, que permitem que interesses privados se sobreponham ao bem comum. Ele traz consequências graves: paralisa decisões, gera instabilidade política e compromete a execução de políticas públicas.
O apego também revela uma contradição: quanto mais um gestor se agarra ao cargo, menos autoridade moral ele preserva. Torna-se alvo de críticas, motivo de chacota e, em muitos casos, símbolo daquilo que deveria ser combatido.
O desafio do desapego
O verdadeiro desafio para gestores e lideranças políticas é compreender que cargos são passageiros. O que permanece é a contribuição deixada, a marca de gestão, a seriedade e o compromisso com a população.
Aquele que se agarra ao poder revela estar dominado pelo ego. Já aquele que pratica o desapego descobre uma forma mais nobre de permanecer: não no cargo, mas na memória da instituição e no respeito da sociedade.
Em um momento em que partidos discutem apoios, alianças e reposicionamentos para 2026, o país precisa de exemplos de grandeza e desprendimento. Permanecer em um cargo quando não se tem mais legitimidade política ou respaldo institucional não é sinal de compromisso, mas de apego desmedido. E o apego, na política, nunca é gratuito — quem paga, invariavelmente, é o cidadão.
*Delmo Menezes – Gestor público, jornalista, secretário executivo, teólogo e especialista em relações institucionais. Observador atento da política local e nacional, com experiência e participação política.





