O presidente Michel Temer discursa na cerimônia de assinatura da declaração Presidencial Conjunta Brasil-Paraguai sobre Integração Física, na sede da usina hidrelétrica Itaipu Binacional, em Foz do Iguaçu (PR).

Michel Temer não é um expoente de expressão popular, mas parece ter mais espírito público do que pequenos políticos com mania de grandeza

Por Guilherme Fiuza*

Falávamos aqui sobre a possibilidade de o ex-presidente Michel Temer se tornar um agente da pacificação do país – ou pelo menos de um certo entendimento, porque pacificação a essa altura já é pedir demais. Essa hipótese se materializou num encontro entre Temer e o presidente Jair Bolsonaro no pós-Sete de Setembro. Olhe para todos os que torceram o nariz para este encontro – em qualquer lado da política nacional – e entenda quem ama a crise.

Quem ama a crise está dizendo por aí que o encontro não adiantou nada. Atenção: nem todos os que amam a crise sabem disso. Em muitos desses, isso já é quase um cacoete. Investem na instabilidade, investem no mal-entendido – eventualmente sem sentir. É um modo de vida, que pode ser lucrativo ou não, tanto faz. Do lado governista, os que torceram o nariz para o encontro (e a nota presidencial que o sucedeu) dizem que Bolsonaro amarelou. Do lado oposicionista, a conversa é que Temer foi só dar espaço para o fascismo.

Correção: os dois grupos supracitados não podem ser chamados de governista e oposicionista. Esses pirracentos não têm contribuição alguma a dar para o governo, nem para a oposição (não confundir oposição com sabotagem). Alguns até podem ser movidos pela boa fé, mas vale alertar que, dependendo do nível de imaturidade e ignorância, a boa fé fica muito parecida com a má fé.

Existe em certos adeptos do bolsonarismo tentações autoritárias. Mas não é correto dizer que o governo ou o presidente sejam pautados por essas tentações. Não há nas políticas públicas (que são o que interessa) nenhuma diretriz de supressão de liberdade, nenhuma institucionalização antidemocrática. O discurso agressivo de Bolsonaro contra aqueles que ele considera inimigos insufla os autoritários que o seguem. Mas também não é honesto dizer que há uma predominância autoritária na massa de apoiadores do presidente.

Tampouco é correto afirmar que a gigantesca manifestação do Sete de Setembro tenha levado às ruas apenas simpatizantes do presidente. Estes com certeza eram muitos, mas obviamente muitos estavam se manifestando especialmente contra os desmandos do Supremo Tribunal Federal. Da corte máxima pode-se dizer, sem sombra de dúvida, que tem agido com propensões autoritárias. Basta citar o episódio – um entre muitos – da detenção de um cidadão norte-americano no aeroporto de Brasília.

Jason Miller, o americano detido pela Polícia Federal por mais de três horas, foi liberado sem que até hoje ninguém tenha conseguido saber que suspeitas concretas existiam contra ele. Isso é muito grave. Isso é coisa de republiqueta ditatorial.

O mandante dessa operação foi o ministro Alexandre de Moraes, que tem personificado as tentações autocráticas do atual corpo de ministros da corte. Moraes comanda inquéritos através dos quais eventualmente nem precisa do Ministério Público, da Polícia Federal ou mesmo dos seus colegas de STF para tomar decisões extremas, como impedir que determinada pessoa se manifeste em rede social ou até transformar o presidente da República em investigado por suposta “fake news” – conceito que atualmente serve para qualquer coisa que alguém diga e que o usuário da expressão não queira ouvir.

Michel Temer foi o responsável pela indicação de Alexandre de Moraes ao STF. Se estivéssemos aqui no pelotão dos amantes da crise, diríamos que a conduta arrogante de Moraes no Supremo desautorizaria Temer como um agente de pacificação. Quem não vive investindo em conflito sabe que não é assim que a banda toca.

O ex-presidente foi alvo de uma perseguição sórdida durante a maior parte do seu curto mandato, no qual prestou bons serviços ao país com o avanço de reformas cruciais e a redução do risco país. Teve coragem e grandeza para resistir e não queimar pontes. Liderou a transição pacífica para o governo Bolsonaro. Sabe que o povo foi às ruas em boa medida contra a prepotência do STF. Se há alguém que não pode ser chamado de prepotente na cena política atual é Michel Temer.

Não é um expoente de expressão popular. Mas parece ter mais espírito público do que pequenos políticos com mania de grandeza, como um Rodrigo Maia, ou grandes políticos que se apequenaram, como Fernando Henrique Cardoso. No meio dessa confusão sem fim, talvez seja a hora e a vez dos homens discretos.

(*Este texto representa as opiniões e ideias do autorvia Metrópoles)

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