
Levantamentos divulgados às vésperas do primeiro turno ficaram muito distantes das urnas em disputas para presidente, governos estaduais e Senado. Para os institutos, são apenas “retratos do momento”. Para o eleitor, a pergunta é outra: quem fiscaliza?
Por Delmo Menezes
Mais uma eleição termina e, mais uma vez, os institutos de pesquisas precisam explicar por que tantos de seus números ficaram tão distantes do resultado das urnas.
Não se trata de questionar a legitimidade das pesquisas como instrumento de análise eleitoral. O problema é outro: até que ponto o eleitor pode confiar em levantamentos que, em diversos casos, apresentaram cenários significativamente diferentes daqueles revelados pelas urnas?
No primeiro turno das eleições, realizado domingo (4), a discrepância apareceu em disputas para a Presidência da República, governos estaduais e Senado. Em vários estados, candidatos que apareciam na frente ou tecnicamente empatados terminaram derrotados, enquanto outros que estavam atrás nas pesquisas avançaram ou venceram a eleição.
Na corrida presidencial, o contraste também chamou atenção.
Nas semanas que antecederam a votação, levantamentos de institutos como Datafolha, Quaest, Atlas, CNT, Real Time Big Data, entre outros, apontavam o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na liderança das intenções de voto.
As urnas, entretanto, apresentaram um quadro diferente, com Flávio Bolsonaro (PL) terminando o primeiro turno em posição muito mais competitiva do que aquela indicada por boa parte das pesquisas, abrindo uma vantagem expressiva sobre Lula.
Depois do resultado, veio a explicação conhecida: pesquisa é “retrato do momento”.
É verdade.
Mas essa explicação, sozinha, já não parece suficiente para convencer boa parte do eleitorado.
O problema não é errar. É errar demais
Nenhuma pesquisa eleitoral é capaz de prever exatamente o resultado de uma eleição. Isso precisa ser reconhecido.
O eleitor pode mudar de opinião, decidir o voto na última hora, ocorrer voto útil, abstenção diferente da estimada e uma série de outros fatores capazes de alterar o resultado.
Mas existe uma diferença entre errar dentro das margens estatísticas e apresentar, repetidamente, um cenário que se mostra muito distante das urnas.
É aí que está o problema.
Quando um instituto aponta determinado candidato em primeiro lugar, outro mostra empate técnico e um terceiro apresenta uma diferença significativa, o eleitor fica diante de três “verdades” estatísticas.
No final, porém, existe apenas uma verdade: a urna.
E a urna não faz pesquisa.
Ela conta votos.
Pesquisa também influencia o voto
Há outro aspecto que não pode ser ignorado.
Pesquisa eleitoral não é apenas um instrumento de informação. Ela também influencia o comportamento do eleitor.
O eleitor menos politizado, aquele que acompanha a campanha de forma superficial, pode ser levado a acreditar que determinado candidato já está praticamente eleito ou que outro não tem qualquer chance.
É o chamado voto útil.
“Não vou desperdiçar meu voto.”
“Vou votar em quem está na frente.”
“Meu candidato não tem chance.”
Essas decisões podem ser influenciadas pelos números divulgados pelos institutos.
Por isso, a responsabilidade de quem publica uma pesquisa eleitoral é enorme.
Quando um levantamento aponta uma liderança consolidada e a urna apresenta praticamente o cenário inverso, não basta simplesmente dizer que aquele era o “retrato do momento”.
É preciso explicar por que o retrato ficou tão diferente da fotografia final.
E quem explica o erro?
Depois da eleição, alguns institutos passaram a atribuir parte da diferença ao chamado “voto útil de direita”, especialmente na corrida presidencial.
Pode ter acontecido? Evidentemente.
Mas essa explicação também precisa ser analisada com cuidado.
Se uma movimentação eleitoral tão forte ocorreu nos últimos dias, por que ela não foi captada pelas pesquisas realizadas justamente na reta final?
Se houve migração maciça de votos, quando ela ocorreu?
Qual foi o impacto?
E quais metodologias foram incapazes de identificar essa mudança?
Essas perguntas não são ataques à ciência estatística.
São perguntas legítimas de uma sociedade que precisa compreender como informações capazes de influenciar milhões de eleitores são produzidas.
Até quando o eleitor será tratado como estatística?
Há uma questão ainda mais incômoda.
O eleitor brasileiro é entrevistado, responde às pesquisas, aparece nos gráficos, vira percentual e depois é apresentado como número.
Mas, quando o resultado das urnas contradiz de maneira significativa o cenário projetado, a responsabilidade parece desaparecer no ar.
A justificativa é quase sempre a mesma: “pesquisa não é previsão”.
Tudo bem.
Mas ninguém está exigindo que pesquisa seja previsão.
O que se espera é qualidade, transparência, metodologia clara e responsabilidade na divulgação dos resultados.
Se o instituto errou, que explique.
Se houve mudança de última hora, que demonstre.
Se houve erro de amostragem, que mostre.
Se houve dificuldade para captar determinado eleitorado, que seja transparente.
O que não pode virar rotina é uma pesquisa apresentar um cenário e, depois da abertura das urnas, simplesmente desaparecer atrás da expressão “retrato do momento”.
Está na hora de discutir regras mais rigorosas
O resultado do primeiro turno deveria abrir uma discussão séria no Congresso Nacional e no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Não para impedir pesquisas.
Muito menos para censurar institutos.
Mas para aumentar a transparência e a responsabilidade sobre levantamentos eleitorais.
É necessário discutir critérios mais rigorosos para divulgação de metodologia, composição das amostras, ponderações utilizadas, taxa de rejeição dos entrevistados, margem de erro e mecanismos de auditoria.
Também seria saudável criar mecanismos para que o eleitor consiga comparar, de forma simples, o desempenho histórico de cada instituto em eleições anteriores.
A urna precisa continuar sendo soberana
O eleitor brasileiro não precisa de institutos dizendo em quem deve votar.
Precisa de informação confiável para decidir livremente.
Pesquisa eleitoral pode e deve existir. Mas não pode se transformar em uma espécie de oráculo político capaz de criar vencedores antes mesmo de os votos serem depositados.
A democracia não termina na divulgação de uma pesquisa.
Ela começa e termina na vontade soberana do eleitor expressa na urna.
Depois de mais uma eleição marcada por discrepâncias entre pesquisas e resultados, está na hora de abandonar a discussão simplista sobre quem “acertou” ou “errou” e enfrentar uma questão maior: quem fiscaliza os institutos que ajudam a construir o ambiente eleitoral brasileiro?
Se as pesquisas são apenas “retratos do momento”, como dizem seus responsáveis, então que o eleitor tenha acesso também ao negativo da fotografia: a metodologia, os critérios, os erros históricos e o grau de confiabilidade de cada instituto.
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*Delmo Menezes – Gestor público, jornalista, secretário executivo, teólogo e especialista em relações institucionais com experiência em diversos órgãos da administração direta e indireta. Analista político e observador atento da política local e nacional. Editor-Chefe do portal de notícias Agenda Capital.



