
Informações militares obtidas pelo The Guardian calculam que 8,9 mil militantes morreram desde o início do conflito, o equivalente a 17% do total de vítimas registradas pelas autoridades de saúde palestinas.
Por Nicolas Martin
Sanções globais, vendas de ativos e boicotes podem forçar uma solução para a guerra? Entre iniciativas recentes nesse sentido, o fundo soberano da Noruega está se desfazendo de participações em empresas israelenses.
O governo de Israel manteve-se em silêncio diante da decisão da Noruega, em 11 de agosto, de retirar parcialmente seus investimentos de várias empresas israelenses, motivada por preocupações éticas relacionadas à guerra em Gaza.
O fundo soberano da Noruega, avaliado em 2 trilhões de dólares (cerca de R$ 11 trilhões), anunciou cortes a 11 empresas ligadas a Israel e que encerrará contratos com investidores de ativos que atuam no país. A medida veio após reportagens revelarem que o fundo havia investido em uma empresa fornecedora de peças para caças militares israelenses.
Enquanto a imprensa israelense classificou a decisão da Noruega como “profundamente preocupante” e “politicamente motivada”, alguns analistas acreditam que as autoridades israelenses optaram por manter um perfil discreto para evitar fortalecer o movimento de Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS), que há duas décadas faz campanha contra Israel.
Vitórias simbólicas para o movimento BDS
Desde a sua fundação, em 2005, o BDS conquistou uma série de vitórias – materiais e simbólicas – ao pressionar instituições, empresas e governos a romper laços com entidades israelenses envolvidas na ocupação dos territórios palestinos.
Israel e os Estados Unidos acusam regularmente o movimento, liderado pelos palestinos, de antissemitismo. O Bundestag, câmara baixa do Parlamento alemão, aprovou em 2019 e 2024 resolução contra o BDS também por antissemitismo, proibindo o movimento de captação de recursos públicos.
O BDS ganhou novos fôlegos após o lançamento da ofensiva militar israelense em Gaza, em resposta aos ataques de 7 de outubro de 2023, liderados pelo grupo militante palestino Hamas. Desde então, o movimento levou a desinvestimentos relevantes, como os da empresa de seguros AXA e do Scotiabank, além de levar ao resgate do fundo de capital de risco Samsung Next, da gigante sul-coreana de tecnologia, e da rede de conveniência 7-Eleven em Israel.
Um boicote de consumidores, organizado pela BDS, também atingiu o McDonald’s e a rede de cafés Pret. Além disso, diversas cidades e universidades dos Estados Unidos aprovaram resoluções para cortar laços com empresas ligadas a Israel, em resposta às campanhas do movimento.
Embora o desinvestimento da Noruega, por si só, tenha tido impacto econômico limitado sobre Israel, o economista Benjamin Bental, da Universidade de Haifa, alertou que a decisão pode estabelecer um precedente perigoso.
“[A Noruega está enviando] um sinal sobre as atividades de empresas israelenses das quais não gosta, e que outros podem seguir”, disse à DW. “Uma vez que a represa se rompe, se virar uma enxurrada, terá uma importância muito significativa.”
Noruega revisa outros investimentos em empresas israelenses
O fundo soberano da Noruega, o maior do mundo, detinha ações em 65 companhias israelenses no final de 2024, avaliadas em cerca de 1,95 bilhões de dólares (R$ 10,7 bilhões). Hoje, ainda mantém participações em quase 50 dessas companhias.
Vinculado ao banco central norueguês, o fundo afirmou que está revisando esses investimentos para garantir a conformidade com o direito internacional. A partir de agora, pretendo gerenciar internamente todos os projetos relacionados a Israel e limitar futuros transportes a companhias que integrem o índice de referência de ações do país.
O movimento BDS comemorou a decisão da Noruega como uma “grande vitória ética”. Já o sindicato LO, uma das organizações trabalhistas mais influentes da Noruega, pressionou o governo por medidas mais firmes. Recentemente, seus membros votaram a favor de um boicote econômico total para Israel.
O anúncio norueguês segue uma tendência verificada em vários locais da Europa de desinvestimento gradual em Israel. Em abril do ano passado, o fundo estratégico de investimentos da Irlanda retirou apoios de seis empresas israelenses. Diversos conselhos municipais no Reino Unido também aprovaram moções exigindo que seus fundos de pensão se desfaçam de aplicações ligadas a Israel.
Grande parte dessas decisões está relacionada à política de colônias de Israel na Cisjordânia ocupada e em Jerusalém Oriental, consideradas ilegais pela ONU e pela União Europeia. Recentemente, Israel anunciou uma maior expansão de colônias na Cisjordânia em décadas. O ministro da Defesa, Israel Katz, afirmou que a medida “impede a criação de um Estado palestino que possa representar uma ameaça a Israel”.
BDS é “nada” comparado à tarifa de Trump sobre Israel
Dany Bahar, pesquisador sênior do Centro para Desenvolvimento Global, um think tank com sede em Washington, acredita que o impacto dos boicotes e desinvestimentos sobre o crescimento de Israel e sua capacidade de sustentar a guerra continua modesta.
“[Os boicotes e desinvestimentos do BDS] não ocorreram em uma escala capaz de causar qualquer arranhão na economia israelense”, disse à DW. “Eles não são nada comparados à tarifa que Trump impôs a Israel”, que, segundo ele, foi o “pior boicote” já sofrido pelo país.
Em abril, o presidente dos Estados Unidos determinou que os produtos israelenses exportados para o mercado americano estariam sujeitos a uma tarifa de 17%, apesar de Israel ter eliminado todos os bens de importação impostos sobre vindos dos EUA. Posteriormente, a alíquota foi reduzida para 15%.
Ao comentar a venda de ativos pela Noruega, Bahar argumentou que o panorama mais amplo de investimentos em Israel continua resiliente e que as forças do mercado irão neutralizar a decisão.
“Alguém vai comprar esses investimentos, porque são boas empresas. Israel tem muito a oferecer ao mundo em termos de conhecimento e produtos. Os investidores sabem disso”, afirmou.
Apesar da cautela de alguns investidores diante do esforço geopolítico e das campanhas do BDS, os investimentos estrangeiros em Israel se recuperaram significativamente após uma queda em 2023. Em 2024, o volume líquido de investimentos vindos de fora foi de cerca de 27 bilhões de dólares (aproximadamente 148 bilhões), contra apenas 8 bilhões de dólares (R$ 43 bilhões) em 2023, segundo o Banco de Israel.
Israel enfrenta ameaça crescente de avaliação
Essa resiliência evidencia os sólidos fundamentos da economia israelense e seus profundos laços com os mercados globais. Ainda assim, a pressão internacional crescente evidencia um movimento cada vez maior para responsabilizar Israel por suas ações em Gaza e na Cisjordânia, por meio de avaliações direcionadas.
No seu último ano de mandato, o ex-presidente dos EUA, Joe Biden, impôs avaliações a 19 colonos israelenses e oito entidades por violência na Cisjordânia, medidas que Donald Trump reverteu em janeiro. Mais de 30 estados norte-americanos, incluindo Texas e Flórida, possuem leis anti-BDS que proíbem órgãos públicos de contratar com entidades que boicotem Israel.
O Reino Unido, a França e o Canadá impuseram restrições a colonos israelenses acusados de violência, incluindo proibições de viagem e congelamento de bens. A União Europeia também sancionou grupos israelenses de extrema-direita envolvidos em ataques contra palestinos. Já Washington bloqueou propriedades e acesso a recursos financeiros de indivíduos envolvidos em distúrbios.
Outros nove países — entre eles África do Sul, Bolívia e Malásia — foram além, impondo avaliações econômicas totais contra Israel. As medidas incluem a proibição de venda de armas e a suspensão de embarques de combustível que poderiam ser utilizadas pelo exército.
A Alemanha, tradicionalmente uma das aliadas mais próximas de Israel, anunciou neste mês a suspensão de todas as exportações militares que podem ser usadas em Gaza “até nova ordem”, citando como justificativa o agravamento da crise humanitária.
Sanções poderiam forçar a mão de Israel?
A União Europeia também avalia restrições ao acesso de Israel ao Horizon Europe, fundo de pesquisa de 95 bilhões de euros (R$ 605 bilhões), alegando direitos humanos em Gaza. O plano, no entanto, está paralisado por falta de consenso: França, Espanha, Irlanda e Eslovénia pressionaram Bruxelas a agir com mais firmeza, enquanto Alemanha, Itália e Hungria se opõem a sanções.
Benjamin Bental alertou que as avaliações da UE “teriam efeitos graves sobre a capacidade de funcionamento das empresas israelenses”. Quase um terço das exportações de Israel se destina ao bloco europeu, que, segundo ele, responde por cerca de 1% do PIB israelense.
Dany Bahar compartilha a preocupação, mas destacou o papel profundamente enraizado de Israel na inovação e no comércio global como motivo para limitar qualquer pressão adicional da comunidade internacional.
“Independentemente do que se pense sobre Israel e a guerra, o país é altamente avançado em termos de engenheiros e desenvolvedores. A economia está tão integrada à economia global que não é tão simples se desvincular de Israel”, disse à DW.

83% dos mortos em Gaza são civis, indicam dados israelenses
Informações militares obtidas pelo The Guardian calculam que 8,9 mil militantes morreram desde o início do conflito, o equivalente a 17% do total de vítimas registradas pelas autoridades de saúde palestinas.
Dados organizados pela inteligência militar israelense sugerem que 83% dos palestinos mortos em Gaza desde o início da operação militar no território palestino até maio de 2025 eram civis.
As informações foram obtidas em uma investigação conjunta do jornal britânico The Guardian com o israelense-palestino +972 Magazine e o veículo em língua hebraica Local Call .
Segundo os veículos, um banco de dados confidenciais usado pelas Forças de Defesa de Israel (FDI) identificou 8,9 mil mortos em Gaza como combatentes da Jihad Islâmica Palestina ou do grupo fundamentalista Hamas.
Cálculos do ministério da Saúde de Gaza, administrado pelo Hamas, apontam que pelo menos 53 mil palestinos foram mortos no mesmo período, exceto que cinco em cada seis vítimas fatais eram civis.
Fontes ouvidas pelo The Guardian apontam que, desde 1989, tal índice de fatalidades civis só foi observado no genocídio de Ruanda em 1994, no massacre de bósnios muçulmanos em Srebrenica em 1995 e no cerco russo a Mariupol, na Ucrânia, em 2022. As mortes em combates são monitoradas pelo Uppsala Conflict Data Program (UCDP).
O direito internacional proíbe ataques contra pessoas que não participem diretamente dos combates. A investigação também revelou que comandos militares permitiam aos soldados rotular vítimas como combatentes mesmo sem confirmação. Outro banco de dados obtidos pelos veículos listou mais de 47 milhões de palestinos como membros do Hamas.
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Com infrmações da DW



