
“Nós existimos”: indígenas cobram voz nas negociações da COP-30 após impedimento em Belém
Por Delmo Menezes
O terceiro dia da COP-30, em Belém, foi marcado por tensões entre lideranças indígenas e a organização do evento. Após o reforço no esquema de segurança decorrente do protesto ocorrido na terça-feira (11), indígenas Munduruku ficaram impedidos de entrar na Zona Verde — espaço aberto ao público da Conferência das Nações Unidas sobre o Clima. O Ministério Público Federal (MPF) abriu uma investigação para apurar o caso.
De acordo com relatos das lideranças, os portões da Zona Verde permaneceram fechados por cerca de 30 minutos, sob forte sol, impedindo a passagem de dezenas de indígenas, entre eles idosos e crianças. Os seguranças exigiram que o grupo deixasse seus arcos e flechas na entrada, o que, segundo os representantes dos povos originários, foi interpretado como desrespeito às suas manifestações culturais.
O procurador regional dos Direitos do Cidadão no Pará, Sadi Machado, afirmou que o uso de instrumentos tradicionais como arcos e flechas faz parte da expressão cultural dos povos indígenas e não representa ameaça à segurança. “Eles conseguiram entrar de forma pacífica, pois não apresentam risco ao local. Vamos cobrar da organização da COP-30 uma reparação pelo ocorrido”, declarou o procurador.

Lideranças denunciam falta de representatividade
Durante coletiva de imprensa nesta quarta-feira (12), o Conselho Indígena Tapajós e Arapiuns, do Baixo Tapajós, destacou que a tentativa de ocupação da Zona Azul — área restrita da ONU — teve como objetivo chamar atenção para a baixa participação indígena nas mesas de negociação oficiais da COP.
A liderança Auricélia Arapiun afirmou que o ato foi pacífico e simbólico: “Era uma tentativa de chamar atenção ali naquele espaço”. Já o cacique Gilson Tupinambá reforçou que o movimento não busca separação, mas reconhecimento: “As comunidades indígenas não querem o separatismo. Querem ser ouvidas onde as decisões são tomadas”.
Segundo o Ministério dos Povos Indígenas (MPI), esta deve ser a conferência do clima com a maior presença indígena da história. O governo federal estima que cerca de 5 mil indígenas estejam em Belém, sendo 700 credenciados para a Zona Azul, onde ocorrem as discussões oficiais da ONU.
“Precisamos dizer quem somos”, diz liderança
A indígena Margareth Maytapu, uma das lideranças do Baixo Tapajós, explicou que o ato realizado na terça-feira foi uma forma de afirmar a presença e as demandas dos povos originários na conferência.
“Nós existimos, nós estamos aqui porque precisamos dizer quem somos. São pessoas que estão decidindo a nossa vida, e, para isso, precisam entender a nossa realidade”, afirmou.
Entre as principais reivindicações apresentadas pelas lideranças estão a demarcação de terras, o reconhecimento da autonomia dos povos indígenas e a participação efetiva nas decisões sobre políticas ambientais globais.
Mudanças no acesso após tentativa de invasão
O reforço na segurança ocorreu após o tumulto registrado na noite de terça-feira (11), quando cerca de 50 manifestantes — entre indígenas, estudantes e integrantes de movimentos sociais — tentaram entrar na Zona Azul durante a “Marcha Global Saúde e Clima”. A ação levou ao fechamento temporário dos portões principais na manhã seguinte e a uma reorganização dos acessos ao pavilhão principal.
Por volta das 7h, apenas duas entradas estavam operando, o que causou aglomerações e longas filas. A entrada foi normalizada ao longo da manhã, segundo a organização da conferência.
COP-30 com recorde de presença indígena
Realizada pela primeira vez na Amazônia, a COP-30 tem sido considerada um marco histórico pela forte presença indígena e pela articulação inédita conduzida pelo Ministério dos Povos Indígenas. No entanto, as lideranças afirmam que a representatividade ainda é insuficiente nas discussões centrais que definirão compromissos globais de mitigação das mudanças climáticas.
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Da Redação do Agenda Capital




