O preço da teimosia em tempos de polarização. Foto: IA

Mudar de opinião também é sinal de sabedoria

Por Delmo Menezes*

Há uma antiga história que ilustra bem um comportamento cada vez mais comum na sociedade contemporânea. Conta-se que um cidadão desembarcou em um estado distante e, logo ao chegar, perguntou: “Tem governo nesse estado?”. Ao ouvir a resposta afirmativa, retrucou imediatamente: “Pois diga que eu sou contra”.

A anedota é engraçada, mas revela uma postura que, muitas vezes, deixa de ser crítica e passa a ser simplesmente contrária a tudo e a todos. Em uma democracia, questionar, fiscalizar e discordar são atitudes legítimas e necessárias. O problema surge quando a oposição se torna um fim em si mesma, independentemente dos fatos, das evidências ou do interesse coletivo.

Vivemos em uma época marcada pela polarização. Nas redes sociais, nos ambientes de trabalho, nas famílias e principalmente na política, é cada vez mais comum encontrar pessoas que assumem posições não porque acreditam nelas, mas porque sentem a necessidade de se opor ao outro lado. Nesses casos, o debate deixa de ser uma busca pela verdade ou pela melhor solução e passa a ser apenas uma disputa de vaidades.

O escritor Millôr Fernandes ironizava essa realidade ao afirmar que tinha uma resposta capaz de encerrar qualquer discussão: “Vocês têm toda a razão”. A frase, carregada de humor, nos lembra que nem sempre vale a pena prolongar debates com quem não está disposto a ouvir. Afinal, uma conversa só produz resultados quando existe abertura para o diálogo.

Ser do contra por princípio pode parecer uma demonstração de independência intelectual, mas frequentemente revela justamente o contrário. Quem rejeita qualquer argumento apenas porque ele vem de um adversário político, ideológico ou pessoal acaba se tornando prisioneiro das próprias convicções. A verdadeira independência está na capacidade de analisar cada situação com honestidade, reconhecendo acertos e erros, independentemente de quem os pratique.

Na política, esse comportamento pode causar danos significativos. Quantos projetos importantes para a população acabam engavetados porque determinados grupos preferem impedir uma vitória do adversário a colaborar com uma boa iniciativa? Quando interesses pessoais ou partidários falam mais alto que o bem comum, a sociedade inteira paga a conta.

Por outro lado, existem exemplos que merecem ser destacados. Há parlamentares e lideranças que, mesmo ocupando posições de oposição, votam favoravelmente a projetos que beneficiam a população. Essa postura demonstra maturidade política e compromisso com o interesse público. Discordar quando necessário e apoiar quando correto é um sinal de grandeza, não de fraqueza.

O mesmo vale para a vida pessoal. Todos temos direito às nossas opiniões, valores e convicções. No entanto, defender uma ideia não significa transformá-la em uma verdade absoluta. Pessoas sábias entendem que mudar de opinião diante de novos fatos não é sinal de incoerência, mas de evolução.

O maior perigo de ser sempre do contra é perder a capacidade de aprender. Quando alguém decide que jamais admitirá estar errado, fecha as portas para o conhecimento, para o crescimento pessoal e para a construção de consensos. A teimosia pode até render aplausos momentâneos de quem pensa da mesma forma, mas dificilmente produz resultados positivos a longo prazo.

Como disse Winston Churchill: “Não há mal nenhum em mudar de opinião, contanto que seja para melhor”. Essa frase resume uma virtude cada vez mais rara nos dias atuais: a humildade intelectual. Reconhecer um erro, rever uma posição e aceitar argumentos consistentes não diminui ninguém. Pelo contrário, demonstra coragem e maturidade.

Em um mundo marcado por conflitos e divisões, talvez o maior desafio não seja aprender a discordar, mas aprender a ouvir. O equilíbrio entre firmeza de princípios e abertura ao diálogo continua sendo o caminho mais seguro para a convivência democrática e para o progresso da sociedade. Afinal, ser crítico é saudável; ser permanentemente do contra, mesmo diante das evidências, pode se tornar apenas uma forma sofisticada de permanecer no erro.

A flexibilidade como motor da evolução pessoal

Essa resistência à realidade não se limita à política, ecoando fortemente na vida cotidiana. Defender convicções é um direito legítimo, mas transformar opiniões em verdades absolutas cria barreiras intransponíveis para o crescimento individual.

Postura do ContraPostura Evolutiva
Rejeita dados novos para proteger o ego.Analisa novos fatos com honestidade.
Vê a mudança de opinião como fraqueza.Enxerga a mudança de rota como evolução.
Busca aplausos de bolhas ideológicas.Busca o aprendizado e o consenso.

*Delmo Menezes – Gestor público, jornalista, secretário executivo, teólogo, especialista em relações institucionais com experiência e participação política. Editor-chefe do portal de notícias Agenda Capital.

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