
Imigração sob pressão, custo de vida em alta e processo de legalização cada vez mais complexo afetam milhões de brasileiros nos Estados Unidos
Por Redação
O sonho americano, por décadas símbolo de prosperidade e esperança para milhões de imigrantes, tem sido cada vez mais desafiado por políticas restritivas nos Estados Unidos. Desde o segundo mandato do ex-presidente Donald Trump, a imigração tem sido tratada como ameaça — tanto econômica quanto cultural — o que gerou medo, insegurança e instabilidade até mesmo entre estrangeiros em situação regular, como muitos brasileiros, de acordo com matéria do Estadão.
Entre as medidas implementadas por Trump estão a suspensão de pedidos de green card, a obrigatoriedade de registro para estrangeiros que permanecem mais de 30 dias no país e restrições à entrada de cidadãos de 19 países. Embora o Brasil não esteja diretamente afetado por essas ações, mais de 2 milhões de brasileiros que vivem nos EUA acompanham as mudanças com apreensão.
As comunidades brasileiras mais expressivas estão em Nova York (500 mil), Boston (420 mil) e Miami (400 mil). Segundo especialistas, as novas diretrizes têm colocado em xeque a atratividade de viver nos Estados Unidos, apesar dos salários ainda compensarem — especialmente quando comparados à realidade brasileira.
Medo mesmo com status legal
Natuza Olen, 37 anos, vive legalmente em Los Angeles com green card. Chegou aos EUA em 2010 como au pair e, após anos de luta, obteve a residência permanente. Mesmo assim, relata se sentir insegura diante do discurso cada vez mais hostil do governo.
“É uma conotação negativa. A impressão é de que todos os imigrantes são péssimos e que estamos aqui para roubar o trabalho e piorar a economia”, lamenta.

Hoje trabalhando com marketing em uma universidade, Natuza lembra que sua estabilidade financeira só foi possível com a obtenção do green card. “Como babá, ganhava US$ 200 por semana. Agora ganho mais do que isso por dia, mas 25% do meu salário vai direto para impostos”, relata.
Apesar das dificuldades, ela considera que a qualidade de vida e as oportunidades de trabalho ainda justificam a permanência no país. “Mesmo nos dias mais difíceis, a vida ainda é confortável”, diz.
Criadores de conteúdo na linha de frente
A presença brasileira também se fortalece nas redes sociais. Lucas Castilho, 29, conhecido como Lucão, chegou aos EUA em 2019, dormiu uma noite na rua por não conseguir comprar uma passagem de ônibus e hoje vive da criação de conteúdo. Com mais de 65 mil inscritos no YouTube, ele aguarda a aprovação do green card, solicitado há quatro anos.
Lucão vive legalmente com o visto EB-3, voltado para trabalhadores não qualificados, e já atuou em restaurantes na Flórida ganhando US$ 14 por hora. “O salário mal dava para o aluguel, mas foi o caminho para conseguir ficar”, afirma.
Sobre as políticas de Trump, é direto: “Não sou pró-Trump, sou pró-mim. Se uma política me favorece, reconheço. Mas também sei que nem tudo foi correto. Olham para qualquer imigrante ilegal como criminoso, e isso não é justo.”
Burocracia e pressão emocional
Thuany Amaro, 26 anos, vive nos EUA desde os 15, quando o pai recebeu uma proposta de trabalho. Com visto O-1 (voltado a estrangeiros com habilidades extraordinárias), só conseguiu visitar o Brasil no ano passado, quase uma década após sua chegada. Ela ainda aguarda o green card.
“É um processo burocrático, difícil e longo. As pessoas acham que é fácil, mas não é”, afirma. O início foi emocionalmente desgastante e o isolamento a levou a iniciar terapia. Hoje, em Tampa (Flórida), ela alerta para a complexidade da vida de quem chega sem planejamento. “Sem inglês e sem documentação, a vida aqui é muito mais difícil.”
Thuany também chama atenção para o alto custo de vida. “Um aluguel de dois quartos não sai por menos de US$ 2 mil.”

Salários versus custo de vida
Nos EUA, o salário mínimo federal é de US$ 7,25 por hora desde 2009. Em cidades como Los Angeles, já supera os US$ 17, enquanto em setores da Califórnia chega a US$ 20. Ainda assim, o custo de vida consome boa parte da renda dos brasileiros.
Lucas Castilho paga US$ 2,5 mil de aluguel em Boston, cidade onde a moradia é mais de 400% mais cara do que em São Paulo. Em média, uma família de quatro pessoas gasta R$ 29,9 mil por mês, sem contar o aluguel. Em Los Angeles, o aluguel consome cerca de 60% da renda de Natuza Olen.
Especialistas alertam para efeitos econômicos
Para o professor Vinícius Vieira, da Fundação Getulio Vargas (FGV), as políticas de imigração mais rígidas devem causar impacto direto na economia americana. “Setores como construção civil, jardinagem, entregas por aplicativo, serviços domésticos e restaurantes dependem fortemente da mão de obra imigrante”, alerta.
Vieira também destaca que mesmo regiões agrícolas, tradicionalmente republicanas, podem sofrer com a escassez de trabalhadores temporários. Ele avalia que as pressões contra a imigração só devem diminuir com uma reação mais efetiva do setor empresarial e dos segmentos econômicos mais afetados.
Futuro incerto e cuidados necessários
Apesar das dificuldades, muitos brasileiros ainda enxergam os Estados Unidos como um lugar de oportunidades. Porém, a ideia de “juntar dinheiro e voltar para o Brasil” perdeu força. Hoje, quem busca emigrar precisa pensar em construir uma vida, dominar o idioma, legalizar sua situação e enfrentar os altos custos com planejamento.
O Ministério das Relações Exteriores informou que não possui dados consolidados sobre deportações de brasileiros, mas acompanha os voos de repatriação e realiza visitas a centros de detenção para garantir o tratamento adequado dos nacionais.
Para Natuza, o sentimento é de alerta constante. “Acho que não é mais só sobre imigração ilegal. A questão agora é sobre imigração como um todo. Estamos todos sendo colocados sob suspeita.”
Siga o Agenda Capital no Instagram>https://www.instagram.com/agendacapitaloficial
Da Redação do Agenda Capital




