Extremismos de direita, esquerda e disputas ideológicas estão dividindo o Brasil — inclusive dentro das instituições e das famílias.
Por Delmo Menezes*
Vivemos um momento delicado na história do Brasil. O que antes era apenas uma questão de posicionamento político virou motivo de rupturas profundas na sociedade. As ideologias, que deveriam servir como guias para o debate democrático e a construção de políticas públicas, se tornaram instrumentos de separação, intolerância e radicalização.
O que vemos hoje é um país fraturado entre rótulos: direita, esquerda, extrema-direita, extrema-esquerda. O centro moderado, espaço tradicional do diálogo e da ponderação, vai desaparecendo, engolido pela polarização tóxica que contamina não apenas as redes sociais, mas também as instituições democráticas e até o convívio familiar.
Instituições em xeque
A crise ideológica não se limita ao debate público ou aos embates entre eleitores. O Judiciário, o Legislativo e o Executivo também não escapam da contaminação. Magistrados passam a ser acusados de “ativismo judicial”, congressistas travam pautas de interesse coletivo por embates partidários e ideológicos, enquanto o Executivo toma decisões muitas vezes motivadas mais por cálculo político do que pelo interesse público.
Quando as instituições que deveriam garantir o equilíbrio entre os Poderes se deixam influenciar por paixões políticas, a democracia se enfraquece. A confiança da população na Justiça, na política e na administração pública se deteriora rapidamente, e o resultado é uma crise permanente de legitimidade e governabilidade.
Famílias divididas
O ambiente polarizado também se infiltrou nos lares brasileiros. É cada vez mais comum relatos de pais que não falam com filhos, irmãos que deixam de se encontrar e amizades de longa data que são desfeitas por causa de posicionamentos políticos. A ideologia se torna uma espécie de identidade absoluta, capaz de anular o afeto, o respeito e a empatia.
O que antes era motivo de diálogo saudável e até de aprendizado mútuo agora é tratado como traição ideológica. Em muitos casos, o amor cede lugar ao ódio, e o respeito à diferença se perde em meio a acusações e cancelamentos.
O perigo dos extremos
Não há salvação nos extremos. A história nos mostra que radicalismos — sejam de direita ou de esquerda — tendem a levar ao autoritarismo, à censura e à intolerância. Quando o debate é substituído por dogmas e a divergência vira ofensa, a democracia corre sério risco.
É fundamental resgatar a ideia de que ninguém detém toda a verdade. A construção de uma sociedade justa, democrática e desenvolvida exige escuta, diálogo, moderação e, sobretudo, respeito. Isso vale para os políticos, para as instituições e para cada cidadão.
Reconstruir pontes, não muros
O Brasil precisa reencontrar o caminho da convivência pacífica entre ideias diferentes. Isso não significa abrir mão de valores ou convicções, mas sim entender que viver em sociedade exige cooperação. Só há avanço quando há disposição para ouvir e para construir juntos, mesmo com visões distintas.
As ideologias continuarão existindo, e isso é saudável em uma democracia. O que não pode persistir é a crença de que o outro — apenas por pensar diferente — é um inimigo a ser combatido.
Se quisermos um futuro melhor para o país, é hora de deixar de lado os muros ideológicos e começar a construir pontes de entendimento.
*Delmo Menezes: Gestor público, jornalista, secretário executivo, teólogo e especialista em relações institucionais. Atua com olhar crítico e sensível sobre os cenários político e social, com ampla experiência e participação na política local e nacional, sempre buscando contribuir com responsabilidade, diálogo e visão estratégica.





