Clima de tensão política contamina relações comerciais e ameaça setores estratégicos da economia brasileira, como café, pescados e madeira
Por Redação
A imposição de uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros pelos Estados Unidos, anunciada no último dia 9 de julho pelo presidente Donald Trump, acendeu um alerta vermelho entre especialistas, representantes do setor produtivo e diplomatas. O temor é que, caso o governo brasileiro adote uma postura de confronto, o impasse evolua para um colapso comercial de grandes proporções.
A medida do governo norte-americano, motivada por razões oficialmente econômicas, é vista por analistas como reflexo de uma crescente deterioração nas relações políticas entre os presidentes Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A retórica agressiva do republicano, ao advertir que qualquer resposta “belicosa” do Brasil será alvo de novas retaliações, agravou ainda mais o cenário.
Para Paulo Roberto Pupo, superintendente da Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente (Abimci), uma escalada da crise levaria a um cenário “caótico”. “Estamos diante de um xeque-mate. A tarifa de 50% inviabiliza negócios e destrói cadeias inteiras de produção e exportação”, alerta.
Impacto direto no agronegócio e na indústria
Embora a pauta de exportações do Brasil para os Estados Unidos vá muito além do agronegócio tradicional — com destaque para petróleo bruto (US$ 2,3 bilhões), ferro e aço (US$ 1,5 bilhão) e aeronaves (US$ 876 milhões) — produtos agropecuários como café, suco de laranja e carne bovina também estão entre os mais afetados.
Leonardo Alencar, head de Agro da XP Investimentos, explica que os efeitos das tarifas são mais agudos em segmentos específicos. “No caso do café, por exemplo, os EUA podem buscar fornecedores alternativos, o que elevará o custo e reduzirá a qualidade do produto para os consumidores norte-americanos. Já o suco de laranja sofre impacto semelhante. A carne bovina, por sua vez, vive um momento de baixa sazonal, o que ameniza os efeitos no curto prazo”, analisa.
De acordo com o Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), o mercado de café já mostra sinais de retração, mesmo sem registros de prejuízos imediatos. “O mercado travou. Os Estados Unidos são nosso principal parceiro nesse setor e ambos são insubstituíveis um para o outro”, afirma Marcos Matos, diretor-geral da entidade. Ele destaca que, além da preocupação com preços, há risco de perda de contratos e confiança.
Setor de pescados paralisa exportações
Um dos setores mais atingidos é o de pescados. Eduardo Lobo, presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Pescados (Abipesca), revelou que “foram suspensos todos os pedidos de pescados do Brasil aos Estados Unidos”. A situação é crítica, segundo ele, porque diferentemente de outros produtos, os EUA não são dependentes do pescado brasileiro e já buscaram fornecedores alternativos na América Central.
O impacto social também é expressivo. Cerca de 70% dos pescados exportados têm como destino os EUA, sendo uma produção em grande parte artesanal e familiar, que gera empregos em regiões com baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). “Estamos diante de uma situação inédita e potencialmente devastadora”, alerta Lobo, que estima uma perda de até US$ 200 milhões em exportações e defende uma linha de crédito de até R$ 900 milhões para salvar o setor.
Preocupação com diplomacia e próximos passos
A preocupação com os desdobramentos da crise é compartilhada por especialistas em comércio internacional e representantes do setor privado. Para José Luiz Niemeyer, o caminho ideal seria uma retomada da diplomacia econômica entre os dois países. “É fundamental que o Itamaraty abra diálogo com seus pares norte-americanos e, principalmente, com o empresariado dos dois lados”, defende.
Marcos Matos, do Cecafé, reforça que a estratégia deve evitar o confronto ideológico e manter o foco em soluções técnicas. “Temos buscado mostrar os impactos econômicos e estatísticos. Os nossos interlocutores da National Coffee Association, dos EUA, têm elogiado essa abordagem construtiva.”
Representantes da Abipesca, da Abimci e do Cecafé também reconhecem os esforços do Ministério da Agricultura e da Apex Brasil (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos) na abertura de novos mercados, mas alertam que esse é um trabalho de longo prazo. “Os contratos atuais são frutos de relações de confiança construídas ao longo de décadas. Romper isso pode custar caro ao Brasil”, afirmam.
Apelo por moderação
O consenso entre os principais atores do setor produtivo é de que o governo brasileiro deve agir com cautela e responsabilidade. “Evitar a escalada da tensão é essencial. A resposta não pode ser ideológica ou emocional. É hora de construir pontes e não cavar abismos”, resume Matos.
Ao final, o apelo é para que o presidente Lula dê um sinal claro de que o Brasil quer o diálogo. “Uma sinalização da Presidência da República em prol do entendimento seria um gesto importante para evitar danos irreparáveis”, conclui o diretor do Cecafé.
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Da Redação do Agenda Capital







