Alguém certa vez disse que ser oposição é a melhor coisa do mundo, porque você precisa apenas criticar e os incomodados que se defendam. Imagem gerada através de IA.

O “não” gratuito prejudica o progresso e é um perigo para democracia

Por Delmo Menezes*

A cena é quase cômica: um cidadão recém-chegado a um estado distante indaga, “Tem governo nesse Estado?”. Ao ouvir a confirmação, sua resposta é imediata e enfática: “Pois diga que eu sou contra”. Essa anedota, embora exagerada, ilustra perfeitamente um comportamento cada vez mais comum e preocupante: a oposição pela oposição, o ser “do contra” por princípio, e não por convicção.

O falso brilho de discordar sempre

É tentador pensar que a discordância constante seja um sinal de inteligência ou de pensamento crítico. Alguns filósofos e intelectuais, em certas épocas, flertaram com essa ideia, sugerindo que a rebeldia intrínseca era um caminho para a originalidade. No campo político, muitos partidários acreditam que a postura de oposição intransigente pode angariar adeptos e simpatizantes. Afinal, como alguém certa vez disse, “ser oposição é a melhor coisa do mundo, porque você precisa apenas criticar e os incomodados que se defendam”.

Mas será que essa abordagem é realmente benéfica? É fundamental ressaltar que não estamos defendendo a supressão do direito universal de manifestar oposição. Vivemos em uma nação livre e democrática, onde a liberdade de pensamento, expressa no Art. 5º da Constituição Federal, é um pilar inquestionável. O ponto crucial aqui não é a liberdade de discordar, mas sim a motivação por trás da discordância.

Do debate construtivo à briga nas redes sociais

As redes sociais são um palco privilegiado para observar esse fenômeno. Quantas vezes presenciamos discussões acaloradas onde o objetivo parece ser unicamente contradizer, sem espaço para a escuta ou a compreensão mútua? Não há nada de errado em manifestar um ponto de vista distinto; o erro reside em se recusar a aceitar que outras opiniões e argumentos possam ter validade.

Millôr Fernandes, com sua sagacidade habitual, nos oferece uma saída elegante para esses impasses: “Por mais violento que seja o argumento, por mais formulado, eu tenho sempre uma resposta que fecha a boca de qualquer um: ‘Vocês têm toda a razão’.” Essa frase, aparentemente simples, encerra a desnecessidade de prolongar discussões infrutíferas, ou seja, dê razão a quem quer ter razão.

O egoísmo da oposição obstinada

O problema se agrava quando essa postura de oposição a todo custo é impulsionada por interesses mesquinhos. No cenário político, não são raros os casos de projetos potencialmente benéficos para a nação que acabam engavetados. O motivo? Interesses individuais ou partidários que se sobrepõem ao bem coletivo. Quando a discordância é meramente uma ferramenta para sabotar, para obter notoriedade ou para defender propósitos egoístas, ela se torna um desserviço.

Felizmente, existem exemplos de políticos, mesmo na oposição, que demonstram grandeza ao votar em projetos que visam o benefício da população, independentemente da autoria. Essa atitude reflete um compromisso genuíno com o interesse maior da sociedade, e não com picuinhas políticas.

A sabedoria de mudar de rumo

Se você defende uma postura diferente e suas convicções são firmes, siga em frente. No entanto, é vital estar aberto à possibilidade de rever suas posições.

Como disse Winston Churchill, “não há mal nenhum em mudar de opinião, contanto que seja para melhor.” O importante é buscar sempre um ponto de equilíbrio.

A oposição genuína e bem fundamentada é essencial para a democracia e para o avanço da sociedade. Mas ser “do contra” por hábito, por birra ou por egoísmo é uma armadilha que nos impede de construir pontes e de progredir verdadeiramente.

*Delmo Menezes é gestor público, jornalista, secretário executivo, teólogo e especialista em relações institucionais. Com ampla experiência e participação na vida política, é um observador atento dos cenários local e nacional. Atualmente, atua como editor-chefe do portal de notícias Agenda Capital.

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