O cantor e compositor Arlindo Cruz foi um dos principais nomes do samba Foto: Marcos Hermes

Com mais de 700 músicas compostas, segundo levantamento do biógrafo Marcos Salles, o sambista foi indicado cinco vezes ao Grammy Latino

Por Redação

O Brasil perdeu, nesta sexta-feira (8), um dos maiores nomes de sua história musical. Arlindo Cruz, cantor, compositor e referência do samba, morreu aos 66 anos, no Rio de Janeiro. A informação foi confirmada pelo assessor de seu filho, o também sambista Arlindinho, e divulgada nas redes sociais do artista.

O músico estava internado e vinha enfrentando sérios problemas de saúde desde que sofreu um Acidente Vascular Cerebral (AVC), em março de 2017. Desde então, convivia com sequelas que o deixaram sem fala e movimentos, alternando períodos de internação e recuperação.

Nos últimos anos, Arlindo enfrentou uma série de complicações. Em julho de 2023, foi internado no Centro de Tratamento Intensivo da Casa de Saúde São José, no bairro Humaitá, para tratar uma pneumonia, e chegou a enfrentar uma caxumba bacteriana. Em 2024, voltou ao hospital para tratar infecções respiratórias e urinárias, passando também por procedimentos odontológicos de alta complexidade.

Em abril de 2025, o sambista foi novamente internado com pneumonia. Após quase 50 dias hospitalizado, recebeu alta em 18 de junho, mas precisou retornar dias depois, devido ao agravamento de seu estado de saúde. Sua esposa, Babi Cruz, revelou que ele lutava contra uma bactéria resistente e já havia enfrentado mais de 30 pneumonias. Desta vez, o artista não resistiu.

Um AVC que mudou sua vida

O AVC de 2017 ocorreu enquanto o cantor tomava banho em casa. Arlindo passou 15 meses internado, grande parte na UTI, e foi submetido a 14 cirurgias, sendo cinco na cabeça. Também sofreu uma embolia pulmonar. Ao retornar para casa, iniciou um longo processo de reabilitação, com fisioterapia e fonoaudiologia, acompanhado de perto por familiares e fãs.

Apesar das dificuldades, Arlindo viveu momentos de emoção. No Carnaval de 2023, foi homenageado como enredo da Império Serrano e desfilou no último carro da escola, cercado pela família e amigos como Regina Casé, Marcelo D2 e Péricles.

Polêmicas pessoais

Pouco depois desse desfile, Babi Cruz anunciou um novo relacionamento com André Caetano, ex-coordenador de sua campanha à Alerj. A notícia gerou repercussão nas redes sociais, já que ela continuava casada com Arlindo. Babi se defendeu, dizendo que nada mudaria seu compromisso em cuidar do marido.

Uma trajetória marcada pelo talento

Nascido em 1958, no bairro de Madureira, Arlindo Domingos da Cruz Filho cresceu cercado pela música. Aos 17 anos, participou de rodas de samba com mestres como Candeia. Nos anos 1970, foi um dos criadores das rodas no Cacique de Ramos, ponto de encontro de sambistas como Jorge Aragão, Sombrinha, Neoci e Almir Guineto.

Na década de 1980, integrou o lendário grupo Fundo de Quintal, com quem ajudou a moldar o som do samba moderno. Ao lado de Sombrinha, compôs clássicos como O Show Tem que Continuar e Alto Lá. Com Zeca Pagodinho, assinou sucessos como Bagaço da Laranja e Camarão que Dorme a Onda Leva.

Suas composições foram gravadas por ícones como Beth Carvalho, Alcione, Elza Soares, Diogo Nogueira e Maria Rita — esta última incluiu várias músicas suas no álbum Samba Meu. Arlindo também foi autor de sambas-enredo para escolas como Império Serrano, Vila Isabel e Grande Rio.

Arlindo e Beth Carvalho se encontraram na gravação do projeto ‘MTV Ao Vivo’, em 2009  Foto: Kelly Fuzaro/MTV

Com mais de 700 músicas compostas, segundo levantamento do biógrafo Marcos Salles, o sambista foi indicado cinco vezes ao Grammy Latino. Seu último álbum, Dois Arlindos (2017), gravado com Arlindinho, foi lançado pouco antes do AVC.

Na TV, tornou-se presença carismática no programa Esquenta, de Regina Casé, entre 2011 e 2017.

Última homenagem em vida

Em junho de 2025, sua biografia O Sambista Perfeito – Arlindo Cruz (Editora Malê) foi lançada durante a Bienal do Livro do Rio de Janeiro. Babi Cruz, emocionada, afirmou na época que tinha medo de não ver a obra pronta com ele por perto.

A morte de Arlindo Cruz deixa uma lacuna irreparável no samba brasileiro. Mais do que um compositor prolífico e intérprete carismático, ele foi símbolo de resistência, alegria e amor à música. Seu legado permanecerá vivo nas rodas de samba, nos desfiles e nas vozes de todos que cantarem suas canções.

10 músicas que eternizam Arlindo Cruz

  1. O Show Tem que Continuar – Hino de resiliência, composto com Sombrinha e Luiz Carlos da Vila.
  2. Alto Lá – Parceria com Sombrinha e Zeca Pagodinho, clássico das rodas de samba.
  3. Bagaço da Laranja – Samba irreverente e popular, feito com Zeca Pagodinho.
  4. Camarão que Dorme a Onda Leva – Parceria com Zeca Pagodinho e Beto Sem Braço, sucesso nas rádios e nos pagodes.
  5. Casal Sem Vergonha – Com Acyr Marques, um samba divertido e marcante.
  6. Meu Lugar – Declaração de amor ao bairro de Madureira, sua terra natal.
  7. O Que É o Amor? – Canção que ganhou voz e força na interpretação de Maria Rita.
  8. Tá Perdoado – Outro sucesso imortalizado por Maria Rita, de letra marcante.
  9. Saudade Louca – Parceria de sucesso que traduz a essência romântica do samba.
  10. Dor de Amor – Mais uma colaboração com Zeca Pagodinho que entrou para a história do pagode.

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Da Redação do Agenda Capital

Delmo Menezes
Gestor público, jornalista, secretário executivo, teólogo e especialista em relações institucionais com experiência em diversos órgãos da administração direta e indireta. Analista político e observador atento da política local e nacional. Editor-Chefe do portal de notícias Agenda Capital.

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