Luis Fernando Verissimo no lançamento do livro 'Verissimas' em outubro de 2016. Foto: Silvana Garzaro/Estadão

Com mais de 70 livros publicados e milhões de exemplares vendidos, Verissimo criou um universo de personagens que se tornaram parte do imaginário popular.

Por Redação

O Brasil perdeu, neste sábado, 30 de agosto, uma das mentes mais brilhantes e precisas de sua literatura. Luis Fernando Verissimo, cronista, cartunista e ficcionista, morreu em Porto Alegre (RS) aos 88 anos, por complicações de uma pneumonia. Conhecido pela sua habilidade ímpar de dizer muito com poucas palavras, Verissimo deixa um legado inestimável de humor e crítica social, que permeou gerações através de seus personagens icônicos e crônicas geniais.

A notícia de sua morte foi confirmada pelo Hospital Moinhos de Vento, onde o escritor estava internado. Desde meados de agosto, a família havia informado sobre a internação, que inicialmente se deu por uma “pneumonia leve” que acabou se agravando.

A vida e a luta nos últimos anos

Os últimos anos de Verissimo foram marcados por desafios de saúde. Em novembro de 2020, ele passou por uma cirurgia na mandíbula e, em janeiro de 2021, sofreu um Acidente Vascular Cerebral (AVC). O AVC afetou a parte cognitiva do seu cérebro, dificultando a organização de pensamentos, embora sua compreensão do mundo ao redor permanecesse intacta.

O escritor Luis Fernando Verissimo em ambiente de trabalho. Foto de 1995. Foto: Marcos Mendes/Estadão

Curiosamente, uma das consequências inusitadas do AVC foi a facilidade que o escritor desenvolveu para se comunicar em inglês, língua que dominou na infância, quando viveu nos Estados Unidos. Sua recuperação, embora lenta e gradual, o manteve longe das colunas regulares, incluindo a que mantinha no Estadão desde 1988, onde sua última colaboração, “A Caixinha”, foi publicada pouco antes do AVC.

O legado de uma obra inesquecível

Filho do renomado escritor Erico Verissimo, Luis Fernando Verissimo só começou a escrever aos 30 anos. Antes, havia passado por diversas experiências, de escolas de arte inacabadas a uma breve carreira como revisor e colunista de jazz. Sua entrada no jornalismo e na literatura, no entanto, foi o início de uma trajetória brilhante que o consagraria como o cronista mais popular do Brasil.

Capa do livro ‘O Analista de Bagé’ em sua versão de quadrinhos Foto: L&PM

Com mais de 70 livros publicados e milhões de exemplares vendidos, Verissimo criou um universo de personagens que se tornaram parte do imaginário popular. Quem não se lembra do psicanalista “gaudério” O Analista de Bagé ou da inocente e crítica A Velhinha de Taubaté? O detetive Ed Mort, uma sátira aos romances policiais, e as divertidas Cobras também povoam a memória de seus leitores.

Seu primeiro grande sucesso de vendas foi o livro de crônicas O Analista de Bagé, de 1981, que esgotou em apenas dois dias. A popularidade do personagem, que nasceu para um programa de TV, reside na genial contradição entre a seriedade da psicanálise e a “grossura” caricatural do gaúcho. Já a Velhinha de Taubaté, que “acredita no governo”, surgiu como uma crítica sutil e bem-humorada ao governo militar.

A genialidade de Verissimo residia em sua habilidade de captar o cotidiano e transformá-lo em uma obra de arte, seja em seus textos ou em seus cartuns. Segundo o professor Elias Thomé Saliba, especialista em humor, Verissimo “dizia o que o leitor queria falar, mas não conseguia”, estabelecendo um “pacto humorístico” com seu público.

A ‘Velhinha de Taubaté’, personagem clássica de Luis Fernando Verissmo Foto: Estadão

A sutil timidez e o humor na escrita

Apesar da visibilidade, a timidez era uma característica marcante de Verissimo. Ele se via como alguém que “faz humor” e não como um “humorista”, encontrando na escrita o meio ideal para expressar sua visão de mundo. Essa filosofia se mostrou particularmente útil durante a ditadura, quando sua escrita, muitas vezes acompanhada de cartuns, conseguia driblar a censura.

O autor também lidou com a “fama” digital, onde muitos textos de autoria desconhecida eram atribuídos a ele, os “falsos Verissimos”. Com seu humor característico, ele encarava a situação com leveza, admitindo-se um “analfabeto em informática” que só usava e-mail e Google.

Luis Fernando Verissimo se definia como um “gaúcho desnaturado”, por não tomar chimarrão ou andar a cavalo, mas seu amor pelo Sport Club Internacional era inabalável. Ele dizia ter sentido a “felicidade plena” no dia 4 de abril de 2008, quando sua neta, Lucinda, nasceu no mesmo dia do aniversário do seu time do coração.

A crônica brasileira perde um de seus maiores mestres, mas sua obra, que flertava com a sutileza e a precisão das palavras, continua viva, convidando-nos a rir, refletir e encontrar a beleza e o humor na vida privada e pública do Brasil. O documentário Verissimo, de 2024, disponível no streaming Mubi, é uma ótima maneira de se aprofundar na figura desse autor que, sem dúvida, marcou a história da literatura brasileira.

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Da Redação do Agenda Capital

Delmo Menezes
Gestor público, jornalista, secretário executivo, teólogo e especialista em relações institucionais com experiência em diversos órgãos da administração direta e indireta. Analista político e observador atento da política local e nacional. Editor-Chefe do portal de notícias Agenda Capital.

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