Lula, Bolsonaro, Trump e Mores, personagens de uma disputa que inclui o tarifado norte-americano em represália ao STF Foto: Wilton Junior/Estadão

Julgamento de Bolsonaro no STF acirra tensões diplomáticas com os EUA e ameaça novas sanções do governo Trump

Por Redação

Apesar de fragilizado judicialmente, Bolsonaro ainda mantém forte influência sobre a direita, funcionando como principal referência política para milhões de eleitores. Sua condenação pode acelerar a ascensão de novas lideranças conservadoras, como a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, o governador Tarcísio de Freitas (SP) e Romeu Zema (MG).

O Brasil entra em uma semana decisiva para o cenário político e diplomático. Na próxima terça-feira (2), a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) dará início ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), acusado pela Procuradoria-Geral da República (PGR) de ser o “principal articulador, maior beneficiário e autor” de uma tentativa de golpe de Estado após sua derrota nas eleições de 2022. O caso, além de ter grande impacto interno, já reverbera no cenário internacional, em especial nas relações entre Brasília e Washington.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, citou explicitamente a situação de Bolsonaro como uma das justificativas para a adoção de tarifas de 50% sobre produtos brasileiros, em vigor desde 6 de agosto. Em declarações recentes, Trump foi além e condicionou a reaproximação diplomática ao encerramento dos processos contra o ex-presidente brasileiro. Para interlocutores do governo Lula, esse movimento americano evidencia o caráter político das sanções e inaugura uma “fase crítica” na relação bilateral.

O julgamento e suas implicações políticas internas

A PGR sustenta que Bolsonaro atuou para manter-se no poder mesmo após a derrota eleitoral, incentivando atos golpistas e mobilizando setores das Forças Armadas e apoiadores. Caso seja condenado, o ex-presidente poderá ser alvo de sanções jurídicas pesadas, que incluem inelegibilidade prolongada, multas e até mesmo pena de prisão.

Internamente, a condenação teria reflexos imediatos no cenário político. Bolsonaro segue como liderança expressiva da direita, mesmo após a inelegibilidade decretada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Sua condenação no STF pode enfraquecer ainda mais seu campo político, abrindo espaço para novas lideranças conservadoras, como a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e governadores alinhados, a exemplo de Tarcísio de Freitas (SP) e Romeu Zema (MG).

Pressão externa e risco de novas sanções

A postura de Trump representa um desafio adicional para o governo Lula. Fontes do Itamaraty avaliam que, em caso de condenação de Bolsonaro, novas sanções econômicas dos EUA podem ser anunciadas, possivelmente direcionadas a setores estratégicos da economia brasileira e até mesmo contra ministros do STF.

Apesar disso, a avaliação dentro do Palácio do Planalto é de que a retaliação direta por meio de sobretaxas ou barreiras comerciais seria prejudicial para o setor produtivo nacional e, portanto, deve ser evitada neste primeiro momento. A resposta brasileira, caso necessária, deve seguir uma linha política e simbólica, não necessariamente tarifária.

Entre as medidas discutidas estão a possibilidade de ações envolvendo propriedade intelectual — como a quebra de patentes de medicamentos — e a tributação de aplicativos de streaming. Essas alternativas teriam menor impacto sobre o consumidor brasileiro e poderiam servir como recado político a Washington.

Reciprocidade e diplomacia em curso

O governo Lula já havia iniciado procedimentos formais para aplicação da chamada “lei da reciprocidade”, que permite ao Brasil adotar medidas simétricas contra países que impõem barreiras comerciais. Embora a tramitação seja longa e seus efeitos práticos só possam ser sentidos no fim de 2025 ou em 2026, a abertura do processo já serve como sinalização de que o Brasil não ficará passivo diante da pressão americana.

Diplomatas brasileiros acreditam que esse movimento pode abrir caminho para negociações, até aqui evitadas pela Casa Branca. A percepção consolidada, tanto no Brasil quanto no exterior, é a de que o tarifaço anunciado por Trump tem mais fundo político do que econômico, vinculado diretamente ao destino de Jair Bolsonaro.

O dilema de Lula: firmeza sem confronto

Para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o julgamento de Bolsonaro é um tema de soberania nacional e não pode ser pautado por pressões externas. Ao mesmo tempo, há a preocupação de evitar que a crise escale para um confronto aberto com os EUA, principal parceiro comercial e diplomático do Brasil no Ocidente.

O dilema do governo brasileiro é equilibrar firmeza diante da ingerência estrangeira e, ao mesmo tempo, preservar canais de diálogo para mitigar os impactos econômicos e políticos. A eventual condenação de Bolsonaro, portanto, não se limita a um capítulo da justiça brasileira: trata-se de um episódio que pode redefinir as relações diplomáticas do Brasil em um momento de tensões crescentes no cenário internacional.

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Da Redação do Agenda Capital

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