Zelenskyy, ao centro, disse que ainda não foi decidido se ele será convidado para a cúpula Putin-Trump marcada para o Alasca na sexta-feira. Foto: Reprodução.

Resistência de Putin, pressões sobre Zelensky e impasse nuclear complicam tentativa dos Estados Unidos de mediar fim do conflito europeu

Por Delmo Menezes

Após o anúncio histórico do cessar-fogo entre Israel e o Hamas, mediado diretamente por Donald Trump, o presidente dos Estados Unidos agora volta seus esforços para um desafio de proporções muito maiores: encerrar a guerra entre Rússia e Ucrânia. A aposta é alta — e a ambição, ainda maior. Trump tenta se consolidar como o grande articulador diplomático do século XXI, projetando-se como um “presidente da paz” capaz de encerrar dois dos conflitos mais sangrentos da atualidade.

No entanto, o cenário europeu tem se mostrado muito mais complexo. O republicano enfrenta um Vladimir Putin inflexível, um Volodymyr Zelensky cada vez mais pressionado e uma relação entre Washington e Moscou mergulhada em desconfiança.

Tensões em alta entre EUA e Rússia

Na última semana, o governo norte-americano sinalizou a possibilidade de enviar mísseis Tomahawk à Ucrânia — decisão que acendeu o alerta no Kremlin. O porta-voz russo Dmitry Peskov classificou a medida como “uma espiral séria de escalada”, alertando que o armamento “poderia agravar o risco de confronto direto entre as potências”, já que os Tomahawks “podem ser equipados com ogivas nucleares”.

A tensão cresce menos de dois meses após a chamada “Cúpula do Alasca”, em Anchorage, onde Trump e Putin haviam prometido “abrir caminho” para a paz. Desde então, as negociações travaram completamente. Segundo o próprio Kremlin, o diálogo entre os dois países está em “pausa séria”.

Especialistas veem impasse duradouro

Para o especialista em direito internacional Pablo Sukiennik, o desafio de Trump no Leste Europeu é incomparável ao que ocorreu no Oriente Médio.

“Não há como comparar a guerra entre Israel e o Hamas com a guerra da Rússia com a Ucrânia. No conflito do Oriente Médio, países terceiros não se envolveram diretamente. Já na guerra russo-ucraniana, há uma União Europeia fortemente engajada, sustentando Kiev, e uma Rússia que não está disposta a ceder”, explicou Sukiennik.

Segundo ele, Trump começou as negociações acreditando que a Ucrânia seria o principal obstáculo, mas logo percebeu que o entrave central está em Moscou.

“Ele pressionou Kiev para fazer concessões, mas Putin não se deu por satisfeito. O líder russo é um negociador difícil, acostumado a lidar com sanções e pressões ocidentais desde os tempos soviéticos. Há, dentro da sociedade russa, um sentimento enraizado de resistência ao Ocidente, o que torna qualquer acordo ainda mais complicado”, acrescenta.

Sukiennik avalia que, embora Trump queira repetir o sucesso diplomático obtido em Gaza, as chances de um cessar-fogo rápido na Europa são remotas.

“A situação está muito tensionada para imaginar um acordo no curto prazo”, conclui.

Negociações em compasso de espera

Fontes do Kremlin confirmam que não houve avanços nas conversas com Washington desde agosto. Putin insiste que a Ucrânia reconheça a perda de territórios no Donbass e abandone definitivamente o plano de ingressar na OTAN. Zelensky, por sua vez, não abre mão da integridade territorial nem das garantias de segurança ocidentais.

Pouco depois da reunião de Anchorage, líderes europeus e o próprio presidente ucraniano viajaram a Washington para pressionar Trump a manter o alinhamento com a União Europeia e endurecer o tom contra Moscou. O resultado foi um impasse total, com os Estados Unidos tentando equilibrar o discurso pacifista com a necessidade de manter sua influência militar.

Impasse nuclear reacende desconfiança

Outro ponto sensível nas relações entre as duas potências é o futuro do Tratado de Redução de Armas Estratégicas (New START) — o último acordo de controle nuclear ainda em vigor entre Estados Unidos e Rússia.

O pacto, assinado em 2010, limita o número de ogivas nucleares estratégicas a 1.550 por país e garante inspeções mútuas, funcionando há mais de uma década como um dos principais mecanismos de contenção da corrida armamentista.

Em setembro, Putin chegou a propor uma prorrogação de um ano, mantendo os limites atuais até 2026. Trump classificou a ideia como “boa”, mas não apresentou qualquer iniciativa concreta. Moscou, por sua vez, defende que futuros acordos incluam outras potências nucleares, como China, França e Reino Unido — proposta vista por Washington como uma tentativa de diluir responsabilidades e dificultar inspeções diretas.

Frustração e ambição

A dificuldade em avançar na frente europeia contrasta com o recente triunfo diplomático de Trump no Oriente Médio. O cessar-fogo em Gaza, que resultou na libertação de reféns israelenses e prisioneiros palestinos, projetou o presidente como um negociador habilidoso e reacendeu especulações sobre uma possível candidatura ao Prêmio Nobel da Paz.

Contudo, o prêmio acabou sendo concedido à líder venezuelana María Corina Machado, em reconhecimento à sua luta pela redemocratização da Venezuela — uma derrota simbólica para o presidente norte-americano.

Mesmo frustrado com o desfecho, Trump mantém o discurso da conciliação. Em pronunciamento recente, afirmou que “a paz é o destino inevitável das grandes nações” e que “os Estados Unidos têm o dever moral de conduzir o mundo ao diálogo, não à destruição”.

Ainda assim, a realidade geopolítica mostra-se menos maleável do que os discursos. A guerra na Ucrânia entra em mais um inverno sangrento, e o sonho de paz global de Trump — embora politicamente rentável — continua distante de se tornar realidade.

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Da Redação do Agenda Capital

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