Possível anexação da Groenlândia pelos EUA pode abalar a OTAN e abrir precedente global, da Ucrânia a Taiwan e à Venezuela
Por Delmo Menezes*
A possibilidade de uma eventual anexação da Groenlândia pelos Estados Unidos, aventada pelo presidente norte-americano Donald Trump, acendeu um alerta máximo entre aliados ocidentais e especialistas em geopolítica. Mais do que uma disputa territorial isolada, o movimento pode representar um abalo sem precedentes na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e abrir um perigoso precedente internacional — com reflexos diretos na Ucrânia, em Taiwan e também na Venezuela, onde Washington busca ampliar o controle sobre uma das maiores reservas de petróleo do planeta.
Trump tem reiterado que os Estados Unidos “precisam da Groenlândia para sua segurança interna”, colocando o território autônomo — que integra o Reino da Dinamarca, membro fundador da OTAN — no centro de sua estratégia geopolítica. Rica em minério de ferro, ouro, petróleo e, sobretudo, metais de terras raras essenciais para a transição energética e para a indústria bélica, a ilha também possui localização estratégica no Oceano Ártico, região cada vez mais disputada por potências globais.

Um teste inédito e potencialmente fatal para a OTAN
Segundo o especialista em geopolítica Rem Korteweg, do Instituto Clingendael, nunca houve na história da OTAN um cenário em que um país-membro cogitasse tomar território de outro aliado, o que poderia, em tese, acionar o Artigo 5º do tratado — que estabelece que um ataque contra um membro é considerado um ataque contra todos.
“Isso poderia significar o fim da OTAN”, avalia Korteweg. Embora haja precedentes de conflitos entre países da aliança, como a invasão turca de Chipre em 1974, o Artigo 5º jamais foi acionado. No caso da Groenlândia, o impasse seria ainda mais grave, pois o território está formalmente protegido pelo tratado por fazer parte do Reino da Dinamarca.
A primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, foi categórica ao afirmar que um ataque dos EUA à Groenlândia “significaria o fim da aliança”. Já o primeiro-ministro da ilha, Jens Frederik Nielsen, reagiu com dureza às declarações de Trump: “Chega de pressão. Chega de insinuações. Chega de fantasias sobre anexação”.
Presença militar, minerais críticos e domínio estratégico
Os Estados Unidos já mantêm presença militar na Groenlândia desde a Segunda Guerra Mundial, na base de Pituffik, com aval da Dinamarca. Para o cientista político Claes de Vreese, professor da Universidade de Amsterdã, uma ampliação dessa presença seria facilmente negociável. “Se os EUA pedissem reforço militar, a Dinamarca diria sim imediatamente”, afirma.
O temor americano, segundo o pesquisador Mikkel Runge Olesen, do Instituto Dinamarquês de Estudos Internacionais, é que a Rússia utilize a Groenlândia como corredor estratégico para ataques ao território norte-americano. Ainda assim, especialistas alertam que a retórica agressiva de Trump, sem coordenação diplomática, mina a confiança entre aliados históricos.
Venezuela entra no tabuleiro: petróleo como eixo central
Analistas destacam que a Groenlândia não é um caso isolado. Ela se soma a uma estratégia mais ampla dos Estados Unidos para garantir controle sobre recursos estratégicos. Nesse contexto, a Venezuela ocupa papel central. Detentora das maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, o país sul-americano é visto por Washington como peça-chave para segurança energética e influência regional.
Nos últimos anos, os EUA intensificaram sanções, pressões diplomáticas e movimentos indiretos visando reconfigurar o controle do petróleo venezuelano, enfraquecendo o ditador Maduro, que no sábado (3/1), foi deposto pelas forças militares dos EUA, abrindo espaço para empresas e interesses norte-americanos. Para especialistas, essa postura reforça a percepção de que Washington estaria disposto a relativizar soberania nacional quando recursos estratégicos entram em jogo.
A soma desses movimentos — Groenlândia, Venezuela e pressão sobre países da América Latina — reforça a leitura de que Trump adota uma visão transacional e expansionista da política externa, priorizando controle territorial, energético e mineral.
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Um precedente perigoso para Rússia e China
Caso os Estados Unidos avancem sobre a Groenlândia, analistas alertam para um efeito dominó global. A Rússia poderia utilizar o episódio como justificativa para consolidar ou ampliar suas reivindicações sobre territórios da Ucrânia, sob o argumento de segurança estratégica. Da mesma forma, a China poderia endurecer sua ofensiva diplomática e militar sobre Taiwan, alegando que grandes potências têm legitimidade para incorporar territórios considerados vitais aos seus interesses nacionais.
Para Korteweg, o episódio expõe uma fragilidade estrutural da União Europeia e da própria OTAN. “Que a UE não consiga agir de forma concreta diante de uma ameaça real mostra uma vulnerabilidade que também fica visível para China e Rússia.”
Reações internacionais e um cenário de incertezas
Líderes europeus têm manifestado apoio político à Dinamarca. O ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Johann Wadephul, afirmou que a Groenlândia pertence à Dinamarca e que a OTAN discutirá sua proteção, se necessário. O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, reforçou que apenas Copenhague pode decidir o futuro da ilha. França e Espanha também declararam solidariedade.
No entanto, especialistas avaliam que tais manifestações têm impacto limitado diante de uma eventual ação unilateral dos Estados Unidos. “A Dinamarca não teria a menor chance contra uma invasão americana”, afirma De Vreese.
Com a Groenlândia fora da União Europeia desde 1985, mas com defesa e política externa sob responsabilidade dinamarquesa, o impasse torna-se ainda mais delicado. Para analistas, a crise não se resume ao futuro da ilha, mas coloca em xeque os pilares da ordem internacional construída após a Segunda Guerra Mundial.
Se levada adiante, a estratégia de Trump pode não apenas enfraquecer a OTAN, mas acelerar a transição para um mundo multipolar mais instável, onde a força, os recursos naturais e a pressão econômica se sobrepõem às regras, tratados e alianças internacionais.
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*Delmo Menezes – Gestor público, jornalista, secretário executivo, teólogo e especialista em relações institucionais com experiência em diversos órgãos da administração direta e indireta. Analista político e observador atento da política local e nacional. Editor-Chefe do portal de notícias Agenda Capital.





