Recarregador por indução no carro pode diminuir a vida útil das baterias. Reprodução.

Carregamento sem fio aliado ao CarPlay e ao Android Auto aumenta o aquecimento do celular e pode reduzir a vida útil da bateria em até 25% ao ano.

Por Redação

Prático e cada vez mais presente nos veículos modernos, o carregador por indução oferece comodidade aos motoristas, mas também pode reduzir a vida útil da bateria do smartphone quando utilizado de forma frequente, principalmente em viagens longas e em conjunto com sistemas de espelhamento sem fio, como Android Auto e Apple CarPlay.

O recurso, disponível desde modelos compactos até veículos de categorias superiores, eliminou a necessidade de cabos para recarregar o celular durante os deslocamentos. No entanto, especialistas alertam que a tecnologia ainda apresenta limitações importantes relacionadas ao aquecimento excessivo dos aparelhos.

Segundo Antonio Azevedo, CEO e fundador da empresa brasileira de tecnologia automotiva LogiGo, o principal problema está na geração de calor durante a transferência de energia por indução.

Calor compromete a vida útil da bateria

Ao contrário da recarga convencional por cabo, a transferência de energia sem fio é menos eficiente. Parte da eletricidade é dissipada em forma de calor, elevando a temperatura tanto da base de carregamento quanto do smartphone.

As baterias de íon-lítio, utilizadas na maioria dos celulares atuais, são altamente sensíveis às altas temperaturas. De acordo com Azevedo, esse aquecimento acelera processos químicos internos que degradam permanentemente a capacidade da bateria.

“Temperaturas elevadas aceleram reações indesejadas na célula: o eletrólito se degrada e forma-se uma camada nos eletrodos, consumindo o lítio ativo de forma permanente. Operar a bateria acima de 35°C encurta significativamente sua vida útil”, explica o especialista.

Em situações mais severas, o superaquecimento pode provocar a liberação de gases no interior da bateria, causando o conhecido estufamento do aparelho e deformando sua estrutura.

Especialistas apontam que, em condições de uso intenso, a degradação da bateria pode chegar a até 25% em apenas um ano.

A “jornada tripla” do smartphone

O problema se intensifica quando o motorista utiliza simultaneamente o carregador por indução e o espelhamento sem fio do celular para o sistema multimídia do veículo.

Nesse cenário, o smartphone executa três tarefas de alta demanda ao mesmo tempo:

  • recebe energia por indução;
  • transmite dados continuamente via Wi-Fi;
  • mantém processamento intenso para GPS, aplicativos de navegação, música e chamadas.

Segundo Antonio Azevedo, essa combinação representa a situação mais crítica para o aparelho.

“É a combinação mais quente possível. O celular gera calor interno pelo processamento intenso e recebe calor externo pela recarga indutiva, dentro de um veículo que já costuma ser quente. Não é raro o aparelho reduzir a velocidade de carregamento ou até desligar para se proteger.”

Além da perda de desempenho momentânea, esse ciclo repetitivo acelera o desgaste dos componentes eletrônicos e reduz gradualmente a capacidade da bateria de armazenar energia.

Ar-condicionado ajuda, mas não resolve

Para minimizar o aquecimento, algumas montadoras passaram a instalar saídas de ar-condicionado direcionadas à base de carregamento por indução.

Modelos como o Fiat Fastback, Fiat Toro e o Volkswagen T-Cross já contam com esse recurso, que ajuda a manter temperaturas mais baixas durante a recarga.

Apesar da melhora, o especialista considera a solução apenas paliativa.

Segundo ele, utilizar o sistema de climatização para compensar uma limitação da tecnologia significa apenas reduzir os efeitos do problema, sem eliminá-lo.

Como alternativa mais eficiente, Azevedo cita sistemas com acoplamento magnético, semelhantes ao MagSafe, que alinham automaticamente as bobinas do carregador e diminuem a perda de energia responsável pelo aquecimento.

Como proteger o celular durante a recarga no carro

Para quem passa muitas horas dirigindo ou utiliza frequentemente aplicativos de navegação, a recarga por cabo continua sendo a opção mais segura.

Além de apresentar maior eficiência energética, o cabo concentra o calor apenas no conector e nos circuitos de carregamento, evitando o aquecimento de toda a estrutura do aparelho.

Os especialistas recomendam alguns cuidados para preservar a bateria:

  • utilizar o espelhamento via cabo sempre que possível;
  • manter a carga entre 20% e 80%, evitando permanecer constantemente em 100%;
  • retirar a capinha durante a recarga para facilitar a dissipação do calor;
  • evitar deixar o celular exposto diretamente ao sol sobre o painel;
  • interromper o carregamento caso o aparelho apresente aquecimento excessivo.

Tecnologia ainda tem espaço para evoluir

Apesar dos riscos, os especialistas ressaltam que o carregador por indução continua sendo uma solução prática para trajetos curtos ou situações de emergência.

O principal desafio está na tecnologia empregada em boa parte dos veículos comercializados no Brasil, que ainda utilizam sistemas de bobina única, mais suscetíveis ao superaquecimento.

Em mercados internacionais, já existem carregadores com três bobinas, alinhamento automático, resfriamento ativo e potências entre 25 W e 60 W, oferecendo maior eficiência e menor geração de calor. Em muitos modelos nacionais, entretanto, a potência permanece limitada a cerca de 15 W.

Para Antonio Azevedo, a evolução desses componentes será fundamental para tornar a recarga sem fio mais segura e eficiente.

“A tecnologia é um excelente argumento de vendas. O próximo passo das montadoras é adotar componentes mais modernos para eliminar esses gargalos de usabilidade”, conclui.

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Da Redação do Agenda Capital e Jornal do Carro

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