Ex-senador ainda não decidiu se disputará as eleições deste ano, mas é sondado para diferentes cargos; em entrevista, critica a polarização, lamenta o que considera o esvaziamento do debate político e faz balanço de seus mandatos
Por Delmo Menezes
A poucos dias do encerramento do prazo para as convenções partidárias, o ex-senador José Antonio Reguffe (Solidariedade-DF) voltou a ocupar espaço nas articulações políticas do Distrito Federal. Sem definir ainda se será candidato nas eleições deste ano, Reguffe tem sido sondado por diferentes grupos para disputar cargos como deputado federal, senador, vice-governador e até o Governo do Distrito Federal.
Entre as legendas que demonstram interesse em contar com o ex-senador estão PSDB e PSD. Reguffe também mantém uma relação política próxima com a deputada distrital Paula Belmonte (PSDB), a quem já declarou apoio em razão da lealdade demonstrada em disputas eleitorais anteriores.
Filiado ao Solidariedade desde fevereiro de 2025, Reguffe passou a integrar a articulação da federação formada pelo partido com o PRD. A união das duas legendas foi oficializada em 2025 e tem como uma de suas bandeiras a construção de um espaço político identificado com o chamado centro democrático.
Apesar das movimentações nos bastidores, Reguffe mantém o discurso de que ainda avalia se retornará às urnas. Em entrevista concedida nesta semana à coluna Eixo Capital, do Correio Braziliense, ele afirmou que ainda não sabe se será candidato.
“Cumpri todos os meus compromissos”
Na entrevista, Reguffe fez uma avaliação positiva de sua passagem pelo Legislativo e destacou que considera ter cumprido integralmente os compromissos assumidos com os eleitores durante as campanhas.
“Nos meus mandatos, honrei e cumpri ponto por ponto, sem exceção e do jeito que estava escrito ali, tudo o que me comprometi nos meus folders de campanha”, afirmou.
O ex-senador construiu sua imagem política principalmente em torno da defesa da redução de gastos públicos, do combate a privilégios e da independência em relação às estruturas partidárias tradicionais.
Durante os mandatos, ficou conhecido por abrir mão de benefícios e reduzir despesas de gabinete. Segundo os números apresentados por ele, somente durante sua passagem pelo Senado a economia aos cofres públicos teria superado R$ 16,7 milhões.
Reguffe também destaca que reduziu o número de assessores de 55 para nove, não utilizou verba indenizatória, abriu mão do carro oficial e deixou o Senado sem o plano de saúde vitalício e sem a aposentadoria parlamentar.
Essas medidas já haviam sido apresentadas pelo então senador como parte de sua defesa de um Legislativo mais enxuto. Em 2019, por exemplo, Reguffe calculava que a adoção das mesmas medidas pelos 81 senadores poderia representar economia superior a R$ 1,3 bilhão.
Atuação além da economia de recursos
Na entrevista, Reguffe faz questão de ressaltar que sua atuação parlamentar não se limitou à redução de despesas.
Ele cita a destinação de recursos para a saúde pública do Distrito Federal como uma das principais marcas de seus mandatos. Entre os equipamentos e investimentos mencionados estão o PetScan do Hospital de Base, tomógrafos, ventiladores mecânicos, oxímetros, equipamentos de videoendoscopia e 14 ambulâncias totalmente equipadas para o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu).
O ex-senador também relembra sua atuação em temas relacionados ao Supremo Tribunal Federal. Ele afirma ter assinado a CPI da “Lavatoga” e destaca a autoria da PEC 52/2015, proposta que previa o fim da vitaliciedade dos ministros do STF e mudanças nos critérios de escolha para o cargo.
A proposta de Reguffe previa mandatos para ministros do Supremo e estabelecia requisitos ligados à carreira da magistratura, como forma de reduzir o peso das indicações políticas.
Crítica à política das redes sociais
Um dos principais pontos da entrevista é a avaliação crítica que Reguffe faz do atual ambiente político brasileiro.
Para o ex-senador, o debate público perdeu profundidade e passou a ser excessivamente condicionado pelas redes sociais. Na avaliação dele, parlamentares estariam mais preocupados com vídeos curtos para as redes do que com a elaboração de projetos capazes de apresentar soluções de longo prazo para o país.
Reguffe também critica o que considera uma transformação da disputa política em uma competição de ataques entre adversários.
Na visão do ex-senador, a combatividade passou a ser confundida com falta de educação e civilidade. Ele também afirma que o ambiente de polarização dificulta o respeito a opiniões diferentes e impede a construção de um projeto nacional de longo prazo.
A crítica à polarização não é nova no discurso político de Reguffe. Em 2025, durante a formalização da federação Solidariedade-PRD, ele defendeu a criação de um espaço de “centro democrático” como alternativa aos polos políticos.
Defesa de uma reforma política
Outro eixo importante da entrevista é a defesa de uma reforma política ampla.
Reguffe afirma ter apresentado oito propostas de emenda à Constituição relacionadas ao tema, além de outros projetos, e diz ter feito diversos discursos cobrando mudanças estruturais.
Entre as ideias defendidas ao longo de sua trajetória estão o voto facultativo, a redução das estruturas partidárias tradicionais e mudanças na relação entre os Poderes.
Para o ex-senador, a recuperação da confiança da população nas instituições depende de uma definição mais clara dos limites e das responsabilidades do Executivo, Legislativo e Judiciário.
Ele critica o uso excessivo de medidas provisórias pelo Executivo, a utilização de cargos e benefícios como instrumentos de negociação política no Legislativo e a crescente influência do Judiciário sobre decisões que, em sua avaliação, deveriam estar concentradas nos demais Poderes.
Decepção e possibilidade de retorno
Apesar de continuar sendo procurado por grupos políticos, Reguffe admite que deixou a política decepcionado.
Na entrevista, ele revela que também enfrentou uma questão de saúde que contribuiu para seu afastamento da vida pública. Ao mesmo tempo, afirma que ainda sente vocação para a política e vontade de voltar a defender as ideias que considera importantes.
“Me decepcionei muito com a política”, resumiu.
O ex-senador, porém, não descarta uma volta. Segundo ele, existe vontade de retornar, mas ainda há dúvidas sobre a possibilidade de produzir mudanças dentro do atual sistema político.
Questionado diretamente sobre uma eventual candidatura nas eleições deste ano, foi categórico ao não antecipar uma decisão:
“Estou analisando. Sinceramente, ainda não sei.”
Um nome cobiçado nos bastidores
A indefinição de Reguffe não diminuiu o interesse em torno de seu nome. Pelo contrário. Nos bastidores da política do Distrito Federal, o ex-senador é visto como um nome que pode alterar a composição de diferentes chapas.
Seu histórico eleitoral, a imagem construída em torno da austeridade e a defesa de uma posição independente dos dois grandes polos da política nacional mantêm seu nome em circulação.
Desde que voltou a participar mais ativamente das articulações políticas, Reguffe também passou a defender a construção de um “centro democrático não fisiológico”, conceito que, segundo ele, poderia ocupar um espaço que considera atualmente vazio na política brasileira.
A aproximação com Paula Belmonte é outro elemento relevante no tabuleiro do DF. A deputada distrital, pré-candidata ao Governo do Distrito Federal pelo PSDB, já declarou que seu projeto político mantém relação com o grupo que havia trabalhado com Reguffe em eleições anteriores.
O legado que Reguffe reivindica
Ao fazer um balanço de sua trajetória, Reguffe sustenta que deixou uma marca diferente da política tradicional: a defesa de um mandato mais econômico, independente e baseado em compromissos assumidos diretamente com o eleitor.
Sua passagem pela Câmara Legislativa do DF, pela Câmara dos Deputados e pelo Senado consolidou uma carreira marcada por críticas aos privilégios parlamentares e pela defesa de reformas institucionais.
Agora, diante de um novo ciclo eleitoral, o ex-senador se encontra novamente no centro das negociações políticas. A diferença é que, desta vez, o prazo para uma decisão está próximo do fim.
Enquanto partidos avaliam como aproveitar seu capital político e Reguffe é sondado para diferentes posições, ele mantém a cautela. Ainda não sabe se voltará a disputar uma eleição, mas deixou claro na entrevista que a política continua fazendo parte de sua trajetória.
E, caso decida retornar, o discurso apresentado até agora indica que pretende voltar com as mesmas bandeiras que marcaram seus mandatos: redução de privilégios, responsabilidade com o dinheiro público, independência política, reforma das instituições e rejeição à polarização como principal instrumento de disputa eleitoral.
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Da Redação do Agenda Capital





