Ministros do STF, André Mendonça e Alexandre de Moraes. Reprodução.

Relatório da PF aponta pedidos do banqueiro por ajuda para conter ações da Polícia Federal e da PGR; ministro André Mendonça quer levar o caso ao plenário do STF

Por Redação

O caso envolvendo o Banco Master ganhou um novo e importante capítulo nesta terça-feira (1º/9), após o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), liberar o sigilo de documentos que integram a investigação sobre a relação entre o banqueiro Daniel Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes.

O material tornado público reúne um relatório de 218 páginas elaborado pela Polícia Federal (PF) a partir da análise do celular de Vorcaro, além de mensagens, registros de encontros e documentos relacionados a contratos do Banco Master com o escritório de advocacia ligado à esposa de Moraes, Viviane Barci de Moraes.

As mensagens divulgadas nesta terça-feira estão entre os elementos que mais repercutiram na imprensa e no meio político. Segundo a PF, elas indicam uma relação próxima entre Vorcaro e Moraes e levantam suspeitas sobre uma possível tentativa do banqueiro de utilizar essa proximidade para obter informações e buscar ajuda diante do avanço das investigações contra o Banco Master. As mensagens, por si só, não representam uma conclusão de responsabilidade criminal de Moraes; os fatos ainda estão sob apuração.

O que dizem as mensagens

De acordo com o relatório da PF, Vorcaro mantinha contato com um número salvo em seu celular como “Alexandre de Moraes BRASILIA”. A investigação identificou que o número havia sido compartilhado com o banqueiro em dezembro de 2023.

Um dos pontos mais sensíveis envolve mensagens enviadas por Vorcaro em outubro e novembro de 2025, período imediatamente anterior à sua prisão.

Em 30 de outubro de 2025, o banqueiro teria pedido a Moraes que reforçasse junto ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, uma orientação para impedir que integrantes das instituições adotassem medidas que, na avaliação de Vorcaro, poderiam comprometer o Banco Master.

Segundo o relatório, Vorcaro afirmava estar recebendo informações de que o Banco Central estaria sob pressão da PF e do Ministério Público e pedia que Moraes atuasse junto a Andrei Rodrigues e Paulo Gonet.

Pedido para “bloquear” medidas

Em 4 de novembro de 2025, Vorcaro voltou a questionar Moraes sobre possíveis medidas judiciais que poderiam ser adotadas contra ele e o banco.

O banqueiro perguntou se as medidas seriam de gravidade média ou alta, citando possibilidades como busca e apreensão ou quebra de sigilo. Em seguida, perguntou se haveria alguma medida que pudesse ser “bloqueada”.

Horas depois, em outra mensagem, pediu ao interlocutor que tentasse impedir o que chamou de “maldade”, alegando que uma medida mais grave poderia provocar a quebra irreversível do banco.

As mensagens, segundo os investigadores, sugerem que Vorcaro tinha conhecimento prévio de que novas ações poderiam ser adotadas contra o Master.

“Dá para segurar?”

A pressão aumentou nos dias que antecederam a prisão do banqueiro.

Em 15 de novembro, Vorcaro perguntou se seria possível reverter o avanço das investigações e se Moraes conseguiria tratar do assunto com Paulo Gonet ou Andrei Rodrigues.

No dia seguinte, 16 de novembro, menos de 24 horas antes de ser preso, Vorcaro voltou a questionar se Andrei Rodrigues poderia “segurar” as medidas.

Na mesma ocasião, o banqueiro pediu um encontro pessoal com Moraes. As mensagens registram pedidos para que os dois se encontrassem rapidamente, inclusive na casa de um deles.

“Acha que segunda já tenho que estar fora?”

Um dos trechos que mais chamou atenção na documentação divulgada é uma mensagem enviada por Vorcaro em 15 de novembro de 2025, dois dias antes de sua prisão.

O banqueiro perguntou a Moraes se deveria deixar o Brasil, diante da possibilidade de uma operação contra ele.

Na noite de 17 de novembro, Vorcaro foi preso pela Polícia Federal quando tentava embarcar em um jato particular com destino a Malta e, posteriormente, Dubai. Para os investigadores, ele estaria tentando deixar o país enquanto buscava concretizar uma operação de venda do Banco Master.

Como as mensagens foram trocadas

Um detalhe importante da investigação é a forma como os diálogos foram registrados.

Segundo a PF, Vorcaro escrevia as mensagens no bloco de notas do celular, fazia uma captura de tela e a enviava pelo WhatsApp utilizando o recurso de visualização única. O interlocutor identificado pela investigação como Moraes teria utilizado método semelhante para responder.

Por isso, a PF não recuperou uma conversa convencional do WhatsApp, mas as anotações e capturas encontradas no aparelho de Vorcaro.

Relação teria começado em 2023

O relatório também aponta que a aproximação entre Vorcaro e Moraes teria sido intermediada pelo ex-ministro Fábio Faria.

Mensagens indicam encontros entre Vorcaro e Moraes em São Paulo, inclusive na residência do ministro. Em dezembro de 2023, Faria teria tratado com Vorcaro da organização de um jantar envolvendo os dois casais.

Poucos dias depois de um desses encontros, foi assinado um contrato entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes Advogados, ligado à esposa do ministro. Segundo documento divulgado, o contrato previa pagamento líquido de R$ 108 milhões em 36 meses ao escritório.

A existência do contrato já havia provocado questionamentos públicos sobre possível conflito de interesses. A nova documentação acrescenta registros de encontros e mensagens à apuração.

Pedido de “proteção” para Andrei e Gonet

Outro ponto que levou Mendonça a solicitar informações à PGR envolve uma mensagem em que Vorcaro menciona a necessidade de “proteção” de Andrei e Paulo.

Segundo a apuração preliminar da PF, os nomes seriam referências a Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal, e Paulo Gonet, procurador-geral da República.

Mendonça solicitou esclarecimentos adicionais à PGR sobre a mensagem e as circunstâncias em que ela foi enviada. A PF concluiu preliminarmente que o destinatário seria Alexandre de Moraes.

Mendonça quer levar o caso ao Plenário do STF

Diante dos novos elementos, André Mendonça decidiu retirar o sigilo da documentação e afirmou que uma eventual investigação envolvendo Moraes deverá ser analisada de maneira pública e transparente pelo plenário do STF.

O ministro solicitou ao presidente da Corte, Edson Fachin, o agendamento de uma sessão presencial para discutir o material. Para Mendonça, o plenário é o “caminho inevitável” e a instância soberana para avaliar tecnicamente os novos elementos apresentados pela Polícia Federal.

O ministro também indicou que a análise deverá ocorrer independentemente da posição que vier a ser apresentada pela Procuradoria-Geral da República.

Moraes é alvo de questionamentos

A divulgação das mensagens coloca Alexandre de Moraes no centro de uma nova frente de apuração dentro do caso Master. O principal questionamento é se houve, de fato, algum tipo de atuação do ministro em favor de Vorcaro ou se as mensagens refletem apenas pedidos feitos unilateralmente pelo banqueiro.

A documentação divulgada mostra claramente pedidos de Vorcaro, mas a extensão e o conteúdo das eventuais respostas de Moraes são uma questão central da investigação. A própria forma de comunicação — por capturas de tela e visualização única — dificulta a reconstrução integral do diálogo.

Por isso, neste momento, é importante separar o que está documentado nas mensagens, o que a PF interpreta a partir delas e o que ainda precisa ser comprovado.

O material divulgado nesta terça-feira deverá ser analisado pelo STF, pela PGR e pela Polícia Federal. O plenário da Corte terá de avaliar se os elementos justificam a abertura de um procedimento específico envolvendo Alexandre de Moraes e quais seriam os próximos passos.

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Da Redação do Agenda Capital

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