Na visão da psicóloga Lilian, pacientes com histórico de ansiedade ou depressão frequentemente têm novos sintomas interpretados como consequência do quadro psiquiátrico. Foto gerada por IA.

Fadiga persistente, fraqueza, alterações de memória, tontura e dificuldades para falar ou enxergar nem sempre são apenas consequências de uma rotina pesada. Especialistas alertam que sintomas aparentemente comuns também podem ser sinais iniciais de doenças neurológicas, inclusive algumas raras

Por Redação

Sentir-se cansado depois de um dia intenso, enfrentar períodos de estresse ou ter dificuldade de concentração ocasionalmente faz parte da vida moderna. Trabalho, preocupações financeiras, problemas familiares, excesso de compromissos e noites mal dormidas podem cobrar um preço alto do organismo. O problema começa quando o cansaço deixa de ser passageiro, passa a interferir na rotina e vem acompanhado de outros sinais que não desaparecem.

Nessas situações, é importante não concluir automaticamente que se trata de estresse, ansiedade, burnout ou depressão. Isso não significa, evidentemente, que esses transtornos devam ser descartados. A depressão pode, de fato, provocar falta de energia, cansaço excessivo, lentificação do pensamento, dificuldade de concentração e queixas de memória. O diagnóstico, porém, é clínico e depende da avaliação médica do conjunto de sintomas.

O alerta ganha importância quando aparecem manifestações neurológicas, como fraqueza muscular progressiva, alterações visuais, dificuldade para falar ou engolir, tropeços frequentes, perda de força, tonturas persistentes ou mudanças cognitivas. Em doenças neurológicas raras, os primeiros sinais podem ser discretos e facilmente confundidos com problemas muito mais comuns.

Segundo o neurocirurgião Vinícius Trindade, do Centro de Referência de Tumores do Sistema Nervoso Central do A.C.Camargo Cancer Center, algumas doenças podem começar com sintomas leves, frequentemente associados a burnout, ansiedade ou depressão. Para o especialista, a dificuldade está justamente no fato de que determinadas condições são pouco frequentes e podem apresentar exames inicialmente sem alterações evidentes.

O médico geneticista Rodrigo Fock, líder de Inovação em Genética e Genômica do Instituto Jô Clemente, chama atenção para o fenômeno conhecido como “psicologização”: quando manifestações de origem orgânica acabam sendo atribuídas a fatores emocionais.

O raro que se parece com o comum

Um exemplo é a miastenia gravis, doença autoimune caracterizada por fraqueza muscular que tende a melhorar com o repouso e piorar após esforço ou ao longo do dia. A enfermidade pode atingir músculos dos olhos, face, fala, deglutição e, em casos mais generalizados, diferentes grupos musculares.

Na prática, uma pessoa que começa o dia relativamente bem e, com o passar das horas, apresenta queda importante de força pode imaginar que está simplesmente exausta ou sob forte pressão emocional. A diferença está na persistência e no padrão dos sintomas.

Outro exemplo é a esclerose lateral amiotrófica (ELA). De acordo com o Ministério da Saúde, sinais iniciais podem incluir fraqueza em uma mão, braço ou perna, deixar objetos cair, tropeçar frequentemente, além de alterações na fala e na deglutição. O diagnóstico é essencialmente clínico e requer avaliação especializada.

Também existem doenças neurológicas que podem começar com alterações visuais e acabar sendo inicialmente interpretadas como problemas exclusivamente oftalmológicos. Em determinados casos, a investigação precisa ultrapassar a avaliação de um único órgão e considerar o funcionamento do sistema nervoso como um todo.

O Ministério da Saúde destaca que doenças raras formam um grupo extremamente diverso, com mais de 5 mil condições estimadas, e que seus sinais podem se confundir com doenças comuns, dificultando o diagnóstico. A baixa frequência dessas enfermidades também faz com que muitos profissionais tenham pouco contato com determinados quadros ao longo da carreira.

Quando o cansaço merece atenção

Nem todo cansaço é sinal de doença grave. A fadiga pode estar relacionada a noites mal dormidas, alimentação inadequada, sedentarismo, excesso de trabalho, estresse, infecções, anemia, alterações hormonais, problemas metabólicos, distúrbios do sono e diversas outras condições.

O ponto de atenção é a persistência, principalmente quando a sensação não melhora adequadamente com descanso ou começa a limitar atividades que antes eram realizadas normalmente.

Além disso, alguns sinais associados ao cansaço merecem investigação médica, entre eles:

  • perda de força sem causa aparente;
  • tropeços frequentes ou dificuldade para caminhar;
  • queda de objetos das mãos;
  • visão dupla ou alterações visuais persistentes;
  • dificuldade progressiva para falar ou engolir;
  • alterações importantes de memória ou concentração;
  • tonturas recorrentes;
  • tremores, contrações ou perda de massa muscular;
  • sintomas que pioram progressivamente ou apresentam um padrão incomum.

O Ministério da Saúde orienta procurar avaliação médica diante de fraqueza muscular sem causa aparente, tropeços frequentes ou problemas persistentes de fala e deglutição, ressaltando a importância do diagnóstico precoce.

Depressão também precisa ser levada a sério

Dizer que “nem sempre é depressão” não significa minimizar a doença ou sugerir que sintomas emocionais sejam menos importantes. Ao contrário: depressão é uma condição de saúde que precisa ser reconhecida e tratada.

O cuidado está em evitar dois extremos. O primeiro é atribuir qualquer cansaço ou tristeza à depressão sem uma avaliação adequada. O segundo é acreditar que um sintoma físico necessariamente representa uma doença neurológica rara.

A mesma manifestação pode ter várias causas. Por isso, o caminho mais seguro é observar a evolução do quadro, identificar mudanças no funcionamento do organismo e procurar avaliação profissional quando os sintomas forem persistentes, intensos ou progressivos.

A importância de ouvir o paciente

Para Vinícius Trindade, mesmo com a evolução de exames de imagem, testes genéticos e outras ferramentas da medicina, a história clínica continua sendo fundamental para levantar a suspeita de uma doença neurológica.

É justamente durante a consulta que detalhes aparentemente pequenos podem ganhar significado: quando a fraqueza começou, se piora ao longo do dia, se existe dificuldade para subir escadas, se objetos começaram a cair das mãos, se houve mudança na fala, se a visão oscila ou se o cansaço permanece mesmo depois de uma noite de sono.

A avaliação clínica ajuda o médico a decidir quais exames realmente fazem sentido. No caso da ELA, por exemplo, não existe um único exame capaz de estabelecer o diagnóstico; a investigação combina história clínica, exame físico e, conforme o caso, exames complementares para confirmar a suspeita e excluir outras doenças.

O corpo também fala

Na correria do cotidiano, é comum transformar qualquer indisposição em “cansaço”, “idade”, “estresse” ou “excesso de trabalho”. Muitas vezes, essa explicação está correta. Mas quando o corpo insiste em apresentar sinais diferentes do habitual, vale a pena parar e investigar.

O principal alerta não é ter medo de uma doença rara. É não normalizar sintomas persistentes ou progressivos.

Cansaço depois de uma semana difícil pode ser apenas cansaço. Mas quando ele se torna constante, vem acompanhado de perda de força, alterações cognitivas, problemas de fala, visão ou movimento, merece uma avaliação cuidadosa.

A mensagem dos especialistas é, portanto, de equilíbrio: nem todo sintoma é depressão, assim como nem todo cansaço esconde uma doença neurológica. O diagnóstico correto nasce da observação, da escuta e da investigação adequada — e não de conclusões precipitadas.

Referências

1. Ministério da Saúde. Portaria nº 199, de 30 de janeiro de 2014. Institui a Política Nacional de Atenção Integral às Pessoas com Doenças Raras.

2. Eurordis – Rare Diseases Europe. The diagnostic journey of people living with a rare disease. Rare Barometer Survey, 2024.

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Da Redação do Agenda Capital

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