
Governo Lula vê risco político em CPI do Crime Organizado e teme avanço da narrativa da direita até 2026
Por Redação
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva acompanha com preocupação a instalação, nesta terça-feira, da CPI do Crime Organizado no Senado. Embora oficialmente criada para mapear a atuação e a expansão de facções como o PCC e o Comando Vermelho, além das milícias, a comissão tende a se transformar em um dos principais palcos de disputa política entre governo e oposição nos próximos meses. No Palácio do Planalto, o temor é claro: a pauta da segurança pública — historicamente mais favorável à direita — pode dominar o debate público e gerar desgaste significativo para o Executivo às vésperas das eleições de 2026.
A CPI nasce em meio ao impacto nacional da operação policial que deixou mais de 120 mortos no Rio de Janeiro na última semana. Como ocorre em momentos de forte comoção pública, o Congresso tenta assumir protagonismo diante do tema, e a oposição vê na comissão uma oportunidade de capitalizar sobre a preocupação da população com o avanço do crime organizado.
O senador Otto Alencar (PSD-BA), o mais antigo entre os indicados, conduzirá a abertura dos trabalhos. A relatoria deve ficar com Alessandro Vieira (MDB-SE), autor do requerimento que deu origem à CPI — escolha já tratada como consenso entre os líderes partidários. Ao todo, são 11 senadores titulares e 11 suplentes, com 120 dias para investigar operações financeiras das facções, modos de atuação, redes de influência e expansão territorial.
Preocupação no Planalto
Nos bastidores, aliados de Lula admitem que a CPI traz um potencial de desgaste maior do que a CPMI do INSS — criada para apurar irregularidades nos descontos de aposentados e pensionistas. Isso porque a segurança pública, além de ser um tema de forte apelo popular, fortalece bandeiras tradicionalmente defendidas pela direita, como endurecimento penal, operações ostensivas e discurso de confronto direto com o crime organizado.
A avaliação interna é que, se a oposição conseguir manter o debate restrito a esse campo, o governo tende a perder terreno na narrativa. Além disso, líderes governistas veem risco de que a CPI seja usada para constranger ministros, governadores aliados ou esvaziar iniciativas do Ministério da Justiça. O Planalto também teme que a comissão produza episódios de forte impacto midiático, com depoimentos e investigações que possam ser exploradas politicamente.
Rio de Janeiro sob escrutínio
Enquanto o Senado se prepara para a abertura da CPI, o governo do Rio de Janeiro enviou ao Supremo Tribunal Federal (STF) sua resposta sobre a megaoperação realizada na capital fluminense. No documento, a gestão de Cláudio Castro (PL) afirma que o “nível de força” empregado foi “compatível” com as ameaças enfrentadas pelas forças de segurança. O ministro Alexandre de Moraes, relator da ADPF das Favelas, esteve na cidade e se reuniu pessoalmente com o governador — gesto que reforça a sensibilidade e a atenção do STF ao tema.
No Planalto, há receio de que a discussão sobre a operação no Rio — já alvo de críticas de organizações de direitos humanos — se entrelace com a CPI, ampliando a pressão política e criando um ambiente ainda mais favorável ao discurso da oposição.
Caminho de tensão até 2026
Com a CPI instalada, governo e oposição devem travar uma disputa aberta pela narrativa da segurança pública nos próximos 120 dias — e provavelmente além. Para o Planalto, o desafio é evitar que o tema se torne o centro do debate nacional, deslocando agendas sociais e econômicas que o governo considera mais favoráveis ao seu campo político.
A CPI do Crime Organizado, portanto, não é apenas uma investigação institucional. Ela se coloca como uma arena estratégica na disputa pelo eleitorado brasileiro até 2026, com potencial de redefinir prioridades, tensionar relações políticas e influenciar rumos da campanha presidencial.
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Da Redação do Agenda Capital




