Escola Acadêmicos de Niterói foi rebaixada e Flávio Bolsonaro aproveitou para dizer que “quem ataca a família não merece aplauso”; aliados de Lula argumentam que governo não teve ingerência sobre desfile e veem tiro no pé da oposição
Por Redação
BRASÍLIA – Os ataques dos evangélicos ao governo após o desfile da Acadêmicos de Niterói em homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) provocaram preocupação no Palácio do Planalto, que tenta contornar a crise. A escola de samba ficou em último lugar e foi rebaixada do Grupo Especial do carnaval do Rio. Além de ser criticado, Lula ainda foi chamado por adversários de “pé-frio” nas redes sociais.
Pesquisas que chegaram ao Planalto indicam que evangélicos reagiram de forma negativa à apresentação da escola, no domingo, 15, tentando vincular o PT e o governo com a sátira aos conservadores.
O mal-estar detectado nesses levantamentos e entrevistas dadas por políticos evangélicos desencadearam no governo uma operação para impedir que as críticas respinguem na indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF).
Ministro da Advocacia-Geral da União (AGU), Messias é evangélico e passou o carnaval em um retiro espiritual, em Brasília. Ainda assim, senadores da oposição contrários ao nome dele no STF buscam associá-lo ao desgaste, mesmo depois de a AGU ter dado orientações jurídicas para que ministros não participassem do desfile.
Messias e Sidônio alertaram presidente sobre risco
Ao lado do titular da Secretaria de Comunicação Social (Secom), Sidônio Palmeira, Messias foi um dos auxiliares do presidente que pediram a ele para conversar com a diretoria da escola, a fim de retirar a ala “Neoconservadores em Conserva” do desfile. Lula, porém, não quis intervir, sob o argumento de que se tratava de uma manifestação cultural artística.
Procurado, Messias não comentou o assunto. Em nota, o ministro disse reafirmar sua fé cristã “bem como o respeito ao povo evangélico, seu pleno respeito à liberdade religiosa, aos valores cristãos e, em especial, à defesa da família – base da sociedade e merecedora da proteção especial do Estado, conforme preconiza a Constituição Federal de 1988″.
O principal ponto de insatisfação dos evangélicos com o desfile que homenageou o presidente com o enredo “Do Alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, foi justamente a ala “Neoconservadores em conserva”.
O livro que detalha o enredo explica que a fantasia traz elementos representando aqueles que levantam a bandeira do neoconservadorismo, como o agronegócio, os mais ricos, os defensores da ditadura militar e os grupos religiosos evangélicos.
A ala foi classificada como preconceituosa por opositores de Lula em um cenário no qual o presidente tenta fazer acenos ao segmento, de olho nas eleições de outubro. A última pesquisa Genial/Quaest, divulgada neste mês, mostrou que 61% dos evangélicos desaprovam a gestão Lula.
Em post publicado nas redes sociais, nesta quarta-feira, 18, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, comemorou a queda da Acadêmicos de Niterói.
“Rebaixada! Quem ataca a família não merece aplauso”, escreveu ele. Em seguida, relacionou o episódio a Lula e à campanha eleitoral. “Dos projetos de Deus não se zomba! Lula é sempre uma ideia ruim, seja para governar o País, seja para um samba enredo. Nunca nos esqueçamos: família é algo sagrado. Depois dessa escola, o próximo rebaixamento vai ser do Lula e do PT”, provocou.
Desde a apresentação da Acadêmicos de Niterói, lideranças religiosas vieram a público criticar o governo, a quem acusam de ter dado aval ao desfile da escola. Ao mesmo tempo, aliados de Lula passaram a atuar para desvincular o Planalto da agremiação e classificaram a estratégia dos adversários como “tiro no pé”.
O presidente do PT, Edinho Silva, disse que tentar desgastar politicamente o governo por causa das escolhas de alegorias da Acadêmicos de Niterói “chega às raias do ridículo”.
“Lula sempre teve uma relação de muito respeito com a comunidade evangélica e os líderes das igrejas sempre tiveram no presidente um aliado na construção de políticas públicas para o fortalecimento das famílias brasileiras”, destacou Edinho.
Coordenador do grupo jurídico Prerrogativas, Marco Aurélio de Carvalho foi na mesma linha e observou que Lula tem compromissos “absolutamente inabaláveis” com os evangélicos.
“Nós não tivemos gestão sobre isso. O presidente Lula simplesmente não se meteu. Esse é o fato. E essa discussão é absolutamente artificial, inoportuna, inconveniente. Estão tentando manipular o enredo. Estão tentando fabricar fake news. É a nova mamadeira de piroca”, argumentou Marco Aurélio, que estava em um dos carros alegóricos.
O Planalto adotou algumas precauções para evitar que o desfile pudesse ser associado ao governo. A primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja, havia confirmado presença no último carro da Acadêmicos de Niterói, mas desistiu de desfilar depois que a AGU e Sidônio Palmeira a alertaram para os riscos.
Não bastou. Flávio Bolsonaro, o partido Novo e outros parlamentares da oposição acusam o governo de “propaganda eleitoral antecipada” e prometem entrar com novas representações no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) contra Lula e o PT.
No Congresso, a oposição também sinaliza com impacto na candidatura de Messias ao STF. Ex-ministra de Jair Bolsonaro, a senadora Damares Alves (Republicanos-DF) admite que o advogado-geral da União, “como eu e todo evangélico, deve estar sofrendo muito com esse episódio”.
Para ela, o Planalto tinha acesso ao roteiro da escola de samba. “Dizer que não sabiam chega a soar como mais uma zombaria a nós”, observou. “Então, o presidente Lula pagará um preço muito alto por isso. E aí é possível, sim, que isso respingue na indicação do ministro Messias”, completou a senadora.
Na avaliação de Damares, Messias “vai ser um efeito colateral desse desastre que foi essa homenagem ao Lula homologada, patrocinada e pactuada com a Presidência da República”.
Também evangélico, o senador Mecias de Jesus (Republicanos-RR) avalia que houve alinhamento do governo federal com o enredo da Acadêmicos de Niterói. “Quando se coloca a família ‘em conserva’ em um contexto claramente associado ao conservadorismo, não estamos diante de arte neutra”, afirmou. “Trata-se de uma provocação direcionada a milhões de brasileiros que defendem a fé, a família e a liberdade.”
Para o deputado Otoni de Paula (MDB-RJ), no entanto, não há risco de a controvérsia provocada pelo desfile afetar a indicação de Messias. “Eu não acredito que isso afete. Até porque eu acredito muito na maturidade dos senadores evangélicos em separarem o que foi esse desastre do PT ou do governo no Sambódromo com esta indicação de um irmão nosso”, ponderou. “O que é muito importante para nós equilibrarmos o pleno do Supremo, que é majoritariamente progressista.”
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Da Redação com informações do Estadão





