Sem conseguir derrubar o governo de Volodymyr Zelensky, Moscou mergulhou em uma guerra de desgaste
Por Redação
Após mais de quatro anos de guerra, o presidente da Rússia, Vladimir Putin enfrenta o momento mais delicado de seus 25 anos no poder. A invasão da Ucrânia, iniciada em 2022 com a expectativa de uma vitória rápida, transformou-se em um conflito prolongado, caro e desgastante, revelando fragilidades militares, econômicas e políticas do Kremlin.
Nos últimos dias, a dimensão dessa vulnerabilidade ficou ainda mais evidente. A defesa antiaérea russa informou ter abatido mais de 500 drones ucranianos em 14 regiões do país — um número que, longe de demonstrar força, expôs a incapacidade da Rússia de proteger seu próprio território.
Mesmo com um dos maiores arsenais nucleares do planeta e sofisticados sistemas de defesa aérea, como os Pantsir e S-400, Moscou voltou a sofrer ataques em áreas consideradas estratégicas. Refinarias, centros tecnológicos, terminais de combustível e até áreas próximas ao aeroporto internacional de Sheremetyevo foram atingidos ou tiveram operações afetadas.
Ucrânia leva a guerra ao coração da Rússia
Os ataques ucranianos mudaram completamente a dinâmica do conflito. Durante séculos, a enorme extensão territorial russa funcionou como vantagem estratégica, permitindo ao país dispersar instalações militares e industriais longe das fronteiras.
Agora, drones de longo alcance transformaram essa geografia em um problema. Refinarias, depósitos de combustível, bases aéreas, oleodutos e fábricas passaram a ser alvos vulneráveis em praticamente qualquer região do território russo.
A ofensiva ucraniana demonstrou que nem mesmo Moscou está fora do alcance da guerra.
Os drones utilizados por Kiev carregam até 120 quilos de explosivos e alguns conseguem percorrer cerca de 1.500 quilômetros antes de atingir os alvos. Somente em 2025, dezenas de ataques atingiram refinarias e instalações petrolíferas russas.
Em março, os terminais de Primorsk e Ust-Luga, responsáveis por cerca de 40% das exportações marítimas de petróleo da Rússia no Mar Báltico, ficaram semanas fora de operação, causando prejuízo estimado em US$ 1 bilhão.
Guerra virou armadilha para o Kremlin
A estratégia inicial do Kremlin previa tomar a Ucrânia rapidamente, em poucos dias. O plano fracassou.
Sem conseguir derrubar o governo de Volodymyr Zelensky, Moscou mergulhou em uma guerra de desgaste, baseada em avanços lentos e altíssimo custo humano.
Estimativas apontam que as forças russas já sofreram cerca de 1,2 milhão de baixas entre mortos, feridos e desaparecidos desde fevereiro de 2022. O número de mortos pode variar entre 275 mil e 325 mil soldados — uma escala de perdas inédita para uma grande potência desde a Segunda Guerra Mundial.
Apesar do enorme sacrifício humano, os ganhos territoriais russos foram mínimos. Nos últimos 12 meses, Moscou conquistou aproximadamente 0,7% adicional do território ucraniano. Já nas últimas semanas, houve até perda líquida de áreas controladas.
Analistas internacionais avaliam que a Rússia está “comprando” pequenos pedaços de território ao custo de milhares de vidas de jovens russos.
Economia russa sente o peso do conflito
A guerra também começou a atingir duramente a economia da Rússia.
A capacidade média de refino de petróleo caiu para o menor nível desde 2009, consequência direta dos constantes ataques ucranianos à infraestrutura energética.
Além disso, indicadores econômicos mostram desaceleração crescente. Segundo avaliações recentes de inteligência europeia, a inflação real russa já se aproxima de 15%, enquanto o Produto Interno Bruto apresentou retração nos primeiros meses do ano.
O próprio Vladimir Putin admitiu queda na atividade econômica no início de 2026.
Ao mesmo tempo, o país enfrenta uma grave crise demográfica. Com centenas de milhares de homens enviados ao front, a Rússia registrou em 2024 o menor número de nascimentos desde 1999. O primeiro trimestre do ano passado teve a menor taxa trimestral de natalidade em dois séculos.
Popularidade de Putin entra em queda
Outro sinal de desgaste é a queda gradual da popularidade de Putin.
Pesquisas realizadas por institutos russos, incluindo órgãos ligados ao Estado, indicam redução da confiança no presidente. O instituto Levada Center apontou queda consistente nos índices de aprovação nos últimos meses.
Já a estatal VTsIOM registrou os menores níveis de confiança desde o início da invasão da Ucrânia.
Especialistas ressaltam, porém, que pesquisas em regimes autoritários costumam medir mais o medo da população em criticar o governo do que propriamente apoio espontâneo.
Diante do cenário adverso, o Kremlin intensificou medidas de repressão. Plataformas como Telegram e WhatsApp sofreram restrições em diversas regiões russas, enquanto organizações de direitos humanos denunciam milhares de prisões por motivação política.
Putin ainda é forte, mas já não parece invencível
Apesar das dificuldades, a Rússia continua sendo uma potência militar com enorme capacidade de destruição. O Kremlin ainda mantém forte controle interno e grande poder bélico.
No entanto, a guerra revelou um elemento novo: a perda da sensação de invulnerabilidade de Putin.
Pela primeira vez em décadas, o presidente russo se vê obrigado a lidar simultaneamente com ataques dentro do território nacional, desgaste econômico, pressão social e queda de popularidade.
Recentemente, o líder russo admitiu até mesmo a possibilidade de uma reunião direta com Volodymyr Zelensky, algo considerado impensável nos primeiros anos da guerra.
Analistas avaliam que o Kremlin percebeu que possuir grande capacidade de destruição não significa necessariamente ter controle absoluto sobre o conflito.
Hoje, a Rússia segue armada até os dentes. Mas, ao contrário do passado, vive obrigada a olhar para o céu — temendo o próximo drone ucraniano.
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Da Redação do Agenda Capital (texto original do jornalista Rodrigo da Silva)







