Após o fim do namoro, a guerra silenciosa que redesenha as eleições no Distrito Federal
Por Delmo Menezes
Durante meses, Brasília viveu aquilo que define como um verdadeiro “modo espera”. A classe política observava os acontecimentos, calculava movimentos e evitava posicionamentos definitivos enquanto aguardava uma resposta para a principal pergunta que dominava os bastidores: a aliança entre o ex-governador Ibaneis Rocha (MDB) e a governadora Celina Leão (PP) sobreviveria até 2026?
Hoje, os fatos mostram que não.
O que parecia apenas um desgaste natural entre dois dos maiores protagonistas da política brasiliense transformou-se em uma ruptura pública que pode alterar completamente o cenário eleitoral do Distrito Federal. E o episódio envolvendo o caso Master/BRB parece ter sido apenas o estopim de uma crise que já vinha sendo alimentada silenciosamente há meses.
A política é feita de alianças, mas também de projetos de poder. E quando dois projetos passam a disputar o mesmo espaço, dificilmente conseguem permanecer sob o mesmo teto.
Ibaneis Rocha construiu ao longo dos últimos anos uma das maiores lideranças políticas da história recente do Distrito Federal. Deixou o governo com bons índices de aprovação, consolidou uma ampla base parlamentar e tornou-se um nome praticamente consensual para disputar uma vaga ao Senado em 2026, até vim os problemas envolvendo o BRB.
Por outro lado, Celina Leão assumiu a missão de dar continuidade ao projeto político iniciado em 2019. Naturalmente, ao ocupar a cadeira principal do Palácio do Buriti, deixou de ser apenas herdeira política para se tornar protagonista de sua própria trajetória.
É justamente aí que nasce o conflito.
Nenhum líder político abre mão facilmente de influência. Nenhum governante aceita ser apenas uma extensão do passado. E quando duas lideranças fortes tentam ocupar simultaneamente o centro do palco, o choque torna-se inevitável.
Os acontecimentos das últimas semanas demonstram isso de forma clara.
A carta enviada por deputados distritais à direção nacional do MDB pedindo intervenção no diretório regional não é um movimento isolado. Ela representa a materialização de uma disputa interna que deixou de ser silenciosa.
Por trás do documento está uma batalha pelo controle político do partido e, principalmente, pelo comando das decisões eleitorais de 2026.
De um lado, o grupo ligado a Ibaneis Rocha busca assumir integralmente o controle do MDB para definir candidaturas e alianças. Do outro, setores da legenda defendem a manutenção da atual estrutura partidária, alinhada à governadora Celina Leão.
A eventual candidatura do deputado federal Rafael Prudente ao Governo do Distrito Federal surge justamente dentro desse contexto de reorganização das forças políticas.
Mas o que está em jogo vai muito além do MDB-DF.
A ruptura começa a produzir efeitos em toda a base governista.
Deputados distritais, secretários, administradores regionais e lideranças comunitárias já iniciaram um movimento silencioso de reposicionamento. Muitos ainda evitam declarações públicas, mas nos corredores da Câmara Legislativa, do Buriti, das secretarias e das administrações regionais a pergunta é uma só: de que lado ficar?
E não se trata apenas de fidelidade política.
Em Brasília, o poder administrativo sempre foi uma das principais moedas de sustentação eleitoral. Quem controla espaços no governo controla estruturas, amplia influência e fortalece sua presença nas regiões administrativas.
Por isso, os rumores sobre possíveis mudanças em administrações regionais, secretarias, empresas estatais e cargos estratégicos provocam tanta movimentação nos bastidores.
Deputado que perde espaço político perde capacidade de articulação. Perde interlocução com lideranças locais. Perde capacidade de entrega. E, muitas vezes, perde votos.
É justamente por isso que alguns deputados distritais já começam a ensaiar discursos mais independentes ou até mesmo oposicionistas. Alguns por convicção. Outros por sobrevivência política.
O problema é quando os interesses eleitorais passam a ocupar mais espaço do que os interesses da população.
A disputa por poder faz parte da democracia. É legítima. O que não pode acontecer é que os projetos pessoais se sobreponham às necessidades reais de quem vive no Distrito Federal.
A população espera melhorias na saúde, na educação, na segurança pública, na mobilidade e na geração de empregos. Não espera assistir a uma guerra de vaidades entre lideranças que, até pouco tempo atrás, caminhavam juntas.
A política exige diálogo. Exige maturidade. Exige capacidade de construir pontes mesmo entre adversários.
Quando prevalece a lógica do “quem manda sou eu“, o risco é que todos percam — inclusive a população.
O fato é que o “modo espera” da política brasiliense está chegando ao fim.
As máscaras começam a cair.
Os posicionamentos começam a aparecer.
Os grupos começam a se organizar.
E os parlamentares começam a mostrar de que lado pretendem estar quando a campanha realmente começar.
A tempestade que muitos acreditavam ser passageira parece ter se transformado em uma mudança definitiva no clima político do Distrito Federal para as eleições deste ano.
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*Delmo Menezes – Gestor público, jornalista, secretário executivo, teólogo, especialista em relações institucionais com experiência e participação política. Editor-chefe do portal de notícias Agenda Capital.




