Pesquisa aponta insastifação dos brasileiros em relação ao serviço público. Foto: Reprodução.

Segundo pesquisa da Atlas/República, metade dos entrevistados está insatisfeita com a qualidade da gestão pública. Reforma administrativa ganha força após pesquisa indicar descontentamento generalizado

Por Redação

Uma nova pesquisa realizada pela Atlas Intel em parceria com o Instituto República revela um dado preocupante para o país: quase metade dos brasileiros está insatisfeita com a qualidade dos serviços públicos, reforçando a urgência de um debate profundo sobre eficiência, gestão e modernização do Estado. Os dados foram obtidos com exclusividade pelo Estadão e reacendem a discussão sobre a necessidade de uma reforma administrativa.

O levantamento, que ouviu 2.287 pessoas com mais de 16 anos em todas as regiões do país — com margem de erro de dois pontos percentuais e nível de confiança de 95% — aponta que 27% dos entrevistados se disseram insatisfeitos, enquanto 19% afirmaram estar muito insatisfeitos. No total, quase metade da população avalia negativamente os serviços prestados pelo setor público. Por outro lado, apenas 28% se declararam satisfeitos ou muito satisfeitos.

Percepção de valor, mas também de ineficiência

Segundo o CEO da Atlas Intel, Andrei Roman, os dados mostram que a população reconhece a importância do serviço público, mas está cada vez mais crítica em relação ao seu desempenho.

“Existe uma percepção evidente de valor do serviço público. Não vemos uma demanda para acabar com o serviço público, o servidor não é vilão. Mas é muito clara a percepção de que existem oportunidades de melhoria de eficiência”, afirma Roman.

Ou seja, o problema não está na existência da máquina estatal, mas na sua capacidade de entregar resultados à altura das necessidades da sociedade.

Privilégios no Judiciário irritam até servidores

Um dos dados que mais chamou atenção na pesquisa é a forte percepção sobre privilégios dentro do Poder Judiciário. Entre eles, supersalários, férias de 60 dias e aposentadoria compulsória como forma de punição.

Roman destaca que tais benefícios são criticados até mesmo por outros servidores públicos, por serem “restritos a uma minoria” e vistos como de “injustiça evidente”. O consenso, segundo ele, é de que combater privilégios é indispensável para recuperar a credibilidade e a confiança no Estado.

Reforma administrativa ganha apoio popular

A pesquisa também avaliou o conhecimento e o apoio da população à proposta de reforma administrativa apresentada pelo deputado Pedro Paulo (PSD-RJ), que tramita no Congresso e está estruturada em quatro eixos: Estratégia, Governança e Gestão, Transformação Digital e Profissionalização.

Embora o texto ainda seja pouco conhecido pela maioria dos brasileiros, Pedro Paulo destaca que os resultados mostram forte aderência às mudanças sugeridas.

“A pesquisa mostra que a avaliação da administração pública é negativa e reforça a urgência da reforma. O nível de aprovação do texto que propomos é excelente, mesmo ainda com uma parcela de desconhecimento”, afirma o deputado.

“Quanto mais o debate público aprofundar, maior será a aprovação. Basta olhar o apoio extraordinário às medidas, algumas superando 80%”, completou.

Insatisfação generalizada e necessidade de modernização

Os números refletem um sentimento crescente no país: o Estado precisa se modernizar para ser mais eficiente, transparente e responsivo às demandas da população. A crítica não recai diretamente sobre o servidor público, mas sobre um sistema marcado por burocracia, desigualdades entre carreiras, baixa produtividade e estruturas que muitas vezes não acompanham as transformações sociais e tecnológicas.

A pesquisa reforça que a insatisfação não é fruto de antipatia ao setor público, mas da percepção de que a máquina estatal poderia entregar muito mais do que entrega hoje.

Com a reforma administrativa de volta ao centro das discussões, a tendência é que o debate sobre eficiência, meritocracia, combate a privilégios e transformação digital ganhe intensidade nos próximos meses.

Veja abaixo os principais resultados em 14 gráficos:

1) De acordo com a sondagem, 27% dos brasileiros estão insatisfeitos com a qualidade do serviço púbico do País, enquanto 19% estão muito insatisfeitos – ou seja, quase metade está insatisfeita. Por outro lado, 19% estão satisfeitos e 9% estão muito satisfeitos.

2) Na comparação com o esforço dos servidores com trabalhadores do setor privado, 30% entendem que eles se esforçam muito menos, enquanto 27,8% acreditam que se esforçam menos. No total, 57,8% têm essa percepção negativa.

3) Sobre o número atual de servidores no País, 27,4% avaliam que é maior do que o necessário, enquanto 23,6% acham que é muito maior. Já 16,4% responderam que acham muito menor, 15,4% acham adequado e 13,7% avaliam que o contingente é menor do que o necessário.

4) A proposta de reforma administrativa em tramitação na Câmara dos Deputados ainda é pouco conhecida pela população em geral. Apenas 18,5% conhecem muito bem os principais pontos, enquanto 37,5% conhecem alguns aspectos; 28,3% já ouviram falar, mas não sabem do que se trata, e 15,6% não conhecem nada.

5) Mesmo assim, 41,4% são a favor da reforma administrativa, enquanto 37,4% são contrários. Mas 26,4% dizem não saber – o que, na visão de Andrei Roman, é uma porcentual ainda bastante elevado: “Indica que é uma discussão prematura e que pode evoluir”, afirmou.

6) Já entre os que têm algum conhecimento da proposta, 56,1% são favoráveis, de forma total ou majoritária, e 43,6% são contrários.

7) Quando perguntados sobre quais deveriam ser os principais objetivos da reforma, 40% disseram combater privilégios no serviço público. Já 37,4% afirmaram aumentar a transparência e o combate à corrupção. A pergunta permitia até duas respostas.

8) A questão dos supersalários é um dos temas em que há mais consenso na reforma: 73,1% entendem que é preciso limitar os ganhos ao teto do funcionalismo, hoje de R$ 46 mil.

9) Outro ponto com forte concordância é a necessidade de se limitar as férias de 60 dias para membros do Ministério Público e do Poder Judiciário.

10) Outro benefícios concedido a membros do Poder Judiciário e do Ministério Público é visto como uma forma de privilégio: a aposentadoria compulsória como forma de punição é considerada “totalmente injusta por 63,1% e injusta por 4,6%.

11) A chamada “licença-prêmio”, afastamento remunerado a cada cinco anos de exercício, também é vista como uma forma de privilégio: 41,5% entendem o benefício como totalmente injusto, enquanto 16% veem como injusto. Já 16,2% acham totalmente justo e 11,7%, justo.

12) A pesquisa checou o que os entrevistados achavam da proposta da reforma para que prefeitos, vice-prefeitos e secretários tenham um teto salarial a depender do tamanho do município: 80,5% concordaram totalmente.

13) Houve também forte aderência, de 76,6% dos entrevistados, com a proposta de que todo ato público seja digital e rastreável.

14) Outro ponto da reforma que apresenta forte apoio é a obrigação de que servidores públicos sejam avaliados periodicamente de acordo com o seu desempenho: 70,8% concordaram totalmente enquanto 11,9% concordaram parcialmente.

E, diante dos dados revelados, uma conclusão parece inevitável: modernizar o serviço público não é mais uma escolha — é uma necessidade urgente para que o Brasil volte a oferecer serviços à altura das expectativas dos cidadãos.

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Da Redação do Agenda Capital

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