Por Dr. Cid Carvalhaes*
O processo eleitoral foi tranquilo e seguro, afirmou o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Nunes Marques. A democracia, entretanto, pressupõe a vitória de um lado e a derrota de outro. Não há empates. E, nesse cenário, os ânimos se exaltam.
O que não se pode admitir é que as divergências políticas se transformem em atitudes discriminatórias, agressivas, prepotentes e preconceituosas. Assédios, escárnios e outras ações inadequadas revelam comportamentos que merecem reflexão. É estarrecedor imaginar que pessoas supostamente inteligentes possam agir dessa maneira.
Há quem defenda boicotes a pessoas por suas escolhas eleitorais. Nas relações de prestação de serviços, mulheres discriminam suas manicures; médicos se recusam a atender pacientes; pequenos comerciantes e produtores rejeitam consumidores. São apenas alguns exemplos de atitudes justificadas pela intenção de afastar ou prejudicar pessoas que votaram em adversários políticos.
Afastemos, por ora, as hipóteses de crimes previstos na legislação, cuja apuração cabe às autoridades competentes, como o Ministério Público e a Polícia. Meu enfoque está nas incoerências desse comportamento, no discurso vazio de autossuficiência que o sustenta.
Tudo, absolutamente tudo, o que utilizamos em nossa sobrevivência tem origem em múltiplas fontes e depende do trabalho de inúmeras pessoas.
Uma simples roupa de algodão exige o preparo da terra, o plantio realizado por muitas inteligências, braços e mãos. Exige trabalho árduo, semeadura de sementes preparadas, atenção à lavoura, colheita, armazenamento e transporte. Depois, o algodão chega aos locais de fiação, transforma-se em tecido, é comercializado, manufaturado nas confecções e, finalmente, chega ao consumidor. Vem o uso, a lavagem e o uso novamente.
Suprimi, de propósito, várias etapas dessa cadeia produtiva. O mesmo raciocínio se aplica a praticamente tudo o que utilizamos no dia a dia.
No resultado eleitoral, há uma realidade que não pode ser ignorada: as inteligências, as capacidades de criação e produção e as atividades de trabalho que nos oferecem bens e serviços também vêm de petistas, de pessoas que votaram no presidente Lula. São parte expressiva da sociedade, pessoas capazes, inteligentes e fundamentais para o funcionamento do País.
Aos que pregam discriminações tão graves como as citadas, sugiro coerência. Que assumam suas sobrevivências com autossuficiência. Que dispensem as contribuições, o trabalho e a eficiência daqueles que votaram no campo político adversário.
Ou, então, que permaneçam na insensatez, na pequenez de raciocínio e na incapacidade de convivência social, assumindo as consequências de suas atitudes, inclusive quando estas ultrapassarem os limites da lei.
Reconstruam seus guetos, se assim desejarem. Vivam isolados, cercados pela suposta autossuficiência que defendem. É uma escolha distante do que se espera de uma sociedade democrática.
O governo eleito pertence ao País, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios. Nunca houve unanimidade eleitoral. O que existe é a escolha da maioria. E os governos têm o dever de governar para todos, sem exceções.
O Brasil é grandioso. Sua diversidade exige entendimentos, coerência e debates sadios, capazes de contribuir para a melhoria das condições de vida da nossa gente.
Dissensões fragmentam. Convergências solidificam soluções.
Vamos fazê-lo.
*Dr. Cid Célio Jayme Carvalhaes – Médico neurocirurgião, advogado e escritor. Foi Presidente da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia, Presidente do Conselho Deliberativo da SBN, Presidente do Sindicato dos Médicos de São Paulo e Presidente da Federação Nacional dos Médicos. Especialista no Direito Médico e da Saúde e Coordenador do Curso de Pós-Graduação em Direito da Escola Paulista de Direito. É Colunista do Agenda Capital.








