Os presidenciáveis Lula e Flávio Bolsonaro. Reprodução.

Investigações, denúncias e controvérsias colocam Lula e Flávio Bolsonaro sob pressão; capacidade de resposta pode definir o impacto das crises sobre o eleitorado

Por Delmo Menezes*

Em ano eleitoral, o noticiário político costuma ser marcado por uma sucessão de denúncias, investigações e controvérsias envolvendo os principais candidatos. Em um ambiente cada vez mais polarizado, episódios negativos podem ganhar grande repercussão nas redes sociais e dominar o debate público por alguns dias — ou permanecer por semanas, caso novas informações sejam acrescentadas às investigações.

Na atual disputa presidencial, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) enfrentam crises de naturezas diferentes, mas com uma característica em comum: familiares, aliados e relações com empresários passaram a ocupar espaço relevante no debate eleitoral.

No campo governista, o principal foco de desgaste está nas investigações envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. Do lado da oposição, Flávio Bolsonaro é pressionado por questionamentos relacionados ao financiamento do filme Dark Horse e por sua relação com Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.

Lulinha entra no centro das investigações

Fábio Luís Lula da Silva é investigado pela Polícia Federal em apurações que envolvem suspeitas de tráfico de influência e corrupção. Segundo informações divulgadas recentemente, uma das frentes investiga possíveis tratativas para negócios envolvendo produtos de cannabis medicinal com o Ministério da Saúde.

A PF também apura possíveis relações entre Lulinha, a lobista Roberta Luchsinger e empresários que buscavam realizar negócios com órgãos do governo federal. Uma das negociações envolveria medicamentos à base de canabidiol e outros produtos, mas os negócios não chegaram a ser concretizados.

Outro ponto investigado envolve possíveis contatos relacionados à Dataprev, estatal vinculada ao Ministério da Gestão e da Inovação. As apurações procuram esclarecer se houve tentativa de favorecimento de empresários interessados em contratos com a empresa pública.

Também estão sob investigação informações sobre pagamentos de despesas e viagens. A PF analisa se determinados benefícios financeiros tiveram relação com as negociações investigadas. As defesas dos envolvidos negam irregularidades.

A defesa de Lulinha sustenta que ele é vítima de uma investigação de caráter político e afirma não haver provas de prática criminosa. O próprio presidente Lula tem declarado que as investigações devem seguir seu curso e que não interfere na atuação da Polícia Federal ou do Judiciário.

Flávio Bolsonaro e o caso Dark Horse

No campo oposicionista, Flávio Bolsonaro enfrenta uma crise de natureza diferente. O senador confirmou ter procurado Daniel Vorcaro para buscar recursos para a produção do filme Dark Horse, obra sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Mensagens e áudios revelados em maio mostraram que Flávio negociou recursos com Vorcaro. Segundo as informações divulgadas à época, cerca de R$ 61 milhões foram destinados à produção do longa.

O episódio ganhou uma nova dimensão em julho, quando o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, autorizou a abertura de um inquérito da Polícia Federal para investigar os repasses destinados ao filme. A investigação busca esclarecer a origem, o destino e a eventual existência de irregularidades relacionadas aos recursos.

Flávio afirma que procurou Vorcaro apenas em busca de patrocínio privado para a produção e nega ter oferecido qualquer vantagem em troca dos recursos.

Quando uma crise deixa de ser notícia?

A grande questão para as campanhas é saber por quanto tempo uma notícia negativa consegue influenciar a percepção do eleitor.

Em uma eleição marcada pela velocidade das redes sociais, uma denúncia pode dominar o debate durante horas e desaparecer rapidamente diante de um novo acontecimento. Porém, quando a crise envolve investigação policial, decisão judicial, documentos, depoimentos ou novas revelações, o assunto pode voltar repetidamente ao noticiário.

É justamente essa possibilidade de novos capítulos que aumenta o potencial de desgaste.

No caso de Lulinha, por exemplo, cada nova informação produzida pela investigação pode recolocar o tema na agenda política. Da mesma forma, no caso Dark Horse, a abertura de um inquérito e a eventual divulgação de documentos ou novos depoimentos podem prolongar a exposição negativa envolvendo Flávio Bolsonaro.

A disputa pelo controle da narrativa

Em campanhas eleitorais, a resposta a uma crise costuma ser tão importante quanto a própria denúncia.

A estratégia dos dois lados tem seguido uma lógica semelhante: apresentar explicações, negar irregularidades e, ao mesmo tempo, explorar os problemas enfrentados pelo adversário.

Flávio Bolsonaro tem utilizado as investigações envolvendo Lulinha para questionar o governo Lula. Do outro lado, adversários do senador exploram o caso Dark Horse e sua relação com Vorcaro para colocar em dúvida a transparência da campanha oposicionista.

Esse movimento cria um ambiente em que o eleitor é exposto diariamente a acusações cruzadas.

O que pode determinar o impacto nas urnas?

O noticiário negativo, isoladamente, não necessariamente provoca perda imediata de votos. O impacto tende a depender de fatores como a gravidade das acusações, a existência de provas, a duração da exposição, a resposta do candidato e, principalmente, a forma como o eleitorado já enxerga aquele político.

Em eleições polarizadas, eleitores muito identificados com determinado campo político podem interpretar uma denúncia contra seu candidato como perseguição, enquanto os adversários podem considerá-la prova de irregularidade.

Por isso, uma crise dificilmente produz o mesmo efeito em todo o eleitorado.

O risco maior para qualquer candidatura surge quando o episódio consegue ultrapassar a bolha política e chegar ao eleitor indeciso ou menos interessado em política. É nesse segmento que uma sequência de notícias negativas pode alterar percepções e contribuir para mudanças nas intenções de voto.

Com a campanha avançando, Lula e Flávio Bolsonaro terão de administrar não apenas as propostas eleitorais, mas também uma agenda permanente de crises e esclarecimentos.

A experiência de outras eleições mostra que uma notícia negativa pode desaparecer rapidamente quando não surgem novos fatos. Mas, quando novas informações aparecem sucessivamente, a crise pode ganhar vida própria e permanecer durante semanas no centro do debate.

E, em uma eleição presidencial polarizada, controlar essa narrativa pode ser tão importante quanto apresentar propostas para o futuro do país.

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*Delmo Menezes – Gestor público, jornalista, secretário executivo, teólogo e especialista em relações institucionais com experiência em diversos órgãos da administração direta e indireta. Analista político e observador atento da política local e nacional. Editor-Chefe do portal de notícias Agenda Capital.

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