Donald Trump em reunião com Lula, na Malásia, em foto divulgada pela Casa Branca Foto: Reprodução/@White House no X

Exigência fazia parte de uma lista de 21 demandas apresentadas ao Brasil durante negociações após o tarifaço; documento também abordava liberdade de expressão, redes sociais e sanções financeiras

Por Redação

O governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, exigiu que o Brasil assumisse o compromisso de realizar eleições presidenciais “livres e justas” em 2026 e não impedisse, de forma considerada arbitrária pelos americanos, a participação de “dissidentes políticos” no processo eleitoral.

A exigência fazia parte de um documento com 21 demandas apresentadas pelos Estados Unidos ao governo brasileiro em outubro de 2025, durante as negociações diplomáticas iniciadas após a imposição de tarifas sobre produtos brasileiros.

Embora o documento não citasse nominalmente Jair Bolsonaro, integrantes do governo brasileiro interpretaram a exigência como relacionada à possibilidade de participação política do ex-presidente. Bolsonaro já estava inelegível por decisão da Justiça Eleitoral e, posteriormente, foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal no processo relacionado à tentativa de golpe.

Documento provocou reação do governo brasileiro

A proposta foi analisada pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, e sua equipe durante uma missão brasileira em Washington. Segundo relatos de integrantes da diplomacia, Vieira considerou a parte política do documento “inaceitável” e determinou que ela não fosse colocada como base das negociações formais.

A maior parte das 21 demandas apresentadas pelos Estados Unidos tratava de questões comerciais e econômicas. Entretanto, quatro pontos abordavam diretamente assuntos político-institucionais brasileiros, incluindo eleições, liberdade de expressão, atuação de plataformas digitais e aplicação de sanções financeiras.

O governo americano também queria que o Brasil não aplicasse determinadas penalidades contra cidadãos, residentes ou empresas dos Estados Unidos em situações protegidas pela Primeira Emenda da Constituição americana.

Liberdade de expressão e redes sociais

Outro ponto da proposta tratava da relação do governo brasileiro com plataformas digitais americanas. Os Estados Unidos defendiam que empresas do setor tivessem direito à notificação e possibilidade de manifestação ou recurso em decisões relacionadas a publicações, multas e remoção de conteúdos.

O documento também incluía uma exigência relacionada às instituições financeiras brasileiras e à aplicação de sanções impostas pelos Estados Unidos.

Naquele período, estavam em vigor sanções americanas contra o ministro Alexandre de Moraes, sua mulher, Viviane Barci de Moraes, e uma instituição ligada à família.

Negociações continuaram

A proposta americana foi apresentada em meio à crise comercial entre os dois países. O governo brasileiro posteriormente apresentou uma contraproposta, enquanto as negociações continuaram em diferentes frentes.

O episódio acrescenta um componente político às discussões comerciais entre Brasil e Estados Unidos e revela que, durante as tratativas, Washington incluiu no pacote de negociação temas relacionados ao processo eleitoral brasileiro, liberdade de expressão, decisões judiciais e sanções financeiras.

As eleições presidenciais de 2026 aparecem, assim, como um dos temas que estiveram no centro das negociações diplomáticas entre os dois governos após o agravamento das relações comerciais.

Procurado, o Itamaraty não quis comentar oficialmente o teor da proposta. O Departamento de Estado e o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos não responderam aos pedidos da reportagem.

No mês passado, uma alta autoridade do Departamento de Estado afirmou, sob reserva, que o governo dos EUA respeitaria o resultado das urnas, desde que o Brasil promovesse uma disputa eleitoral “livre e justa” e que os EUA já trabalharam com governos “de ambos os lados do espectro no Brasil” e que esses relacionamentos foram “muito bem-sucedidos.”

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Da Redação do Agenda Capital

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