Medicamentos que revolucionaram o tratamento da obesidade podem reduzir significativamente o peso, mas preços de até R$ 3 mil por mês deixam milhões de brasileiros sem acesso e alimentam o mercado ilegal
Por Redação
A medicina encontrou uma das ferramentas mais eficazes dos últimos anos para combater a obesidade. As chamadas canetas emagrecedoras, baseadas em medicamentos como semaglutida e tirzepatida, mudaram a perspectiva de tratamento de uma doença que atinge milhões de brasileiros.
O problema é que o avanço científico não chegou para todos.
Para quem tem dinheiro, as canetas podem representar uma nova possibilidade de tratamento. Para grande parte da população, porém, os preços elevados transformam a tecnologia em um privilégio. O resultado é uma contradição cada vez mais evidente: quanto mais avançado fica o tratamento da obesidade, maior pode ser a distância entre quem consegue pagar e quem realmente precisa de atendimento.
Dados mais recentes do Vigitel, do Ministério da Saúde, indicam que 25,7% dos adultos brasileiros vivem com obesidade. A doença está associada a um risco maior de problemas como diabetes, doenças cardiovasculares e alguns tipos de câncer.
Ao mesmo tempo, levantamento da NielsenIQ Brasil divulgado em abril mostrou que as canetas emagrecedoras estão presentes em apenas cerca de 5% dos lares brasileiros. Entre aqueles que utilizam os medicamentos, 84% relatam impacto alto ou moderado no orçamento familiar.
Uma revolução que custa caro
Os medicamentos mais antigos utilizados contra a obesidade costumavam proporcionar uma redução de aproximadamente 5% a 10% do peso corporal. As novas terapias, que atuam sobre mecanismos hormonais relacionados ao GLP-1, ampliaram significativamente esse resultado.
A semaglutida, presente em medicamentos como Wegovy e Ozempic, pode proporcionar redução de peso de até cerca de 17% em determinados estudos. Já a tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, atua sobre os receptores dos hormônios GLP-1 e GIP e pode alcançar resultados ainda maiores, próximos de 22%.
São números que explicam o entusiasmo da comunidade médica e a explosão da procura pelos medicamentos.
Mas também ajudam a explicar por que o preço se tornou uma questão de saúde pública.
“Isso é motivo de debate nas sociedades científicas em todo o mundo. Esse problema gera uma disparidade de atenção à saúde. É preciso haver a inclusão dessas medicações dentro de um custo aceitável para o público que pode se beneficiar desses tratamentos”, afirma o endocrinologista Paulo Miranda, coordenador do Departamento Internacional da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM).
SUS ainda não oferece as canetas
Apesar da crescente procura, nenhuma das principais canetas utilizadas especificamente para o tratamento da obesidade está incorporada ao SUS como tratamento de rotina.
O Ministério da Saúde afirma que trabalha para mudar esse cenário e solicitou prioridade à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) no registro de medicamentos à base de semaglutida e liraglutida para o tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2.
A expectativa é que a chegada de novos fabricantes aumente a concorrência e ajude a reduzir os preços.
Fim da patente começa a mudar o mercado
A queda da patente da semaglutida abriu uma nova etapa no mercado brasileiro. Com o fim da exclusividade, empresas nacionais passaram a produzir medicamentos com o mesmo princípio ativo.
Em junho, chegou às farmácias a primeira caneta brasileira de semaglutida, a Ozivy, produzida pelo laboratório EMS. Posteriormente, a Anvisa aprovou o registro de outros medicamentos à base do princípio ativo.
A maior concorrência já começa a pressionar os preços. Em alguns tratamentos, especialistas estimam uma redução que pode chegar a R$ 1 mil por mês em comparação com os valores praticados antes da entrada de novos concorrentes.
Ainda assim, o tratamento continua pesado para o orçamento da maioria das famílias.
“Nem todo paciente tem esses valores para incluir nos gastos mensais”, afirma a endocrinologista Rachel Teixeira.
Até R$ 3 mil por mês
Se a semaglutida começa a ficar mais acessível, a realidade ainda é diferente para quem utiliza a tirzepatida.
O Mounjaro pode custar entre R$ 1,5 mil e R$ 3 mil por mês, dependendo da apresentação, dose e estabelecimento. E o medicamento ainda deve permanecer por anos sem concorrentes capazes de provocar uma queda significativa nos preços.
Para muitas famílias, isso significa comprometer uma parcela expressiva da renda apenas para manter o tratamento.
E há um detalhe que torna a conta ainda mais difícil: a obesidade é uma doença crônica e o tratamento pode precisar ser mantido por longo período.
“Se não cabe no orçamento, é melhor nem começar, porque, de fato, se você suspender, a tendência é o peso retornar ao inicial”, explica Rachel Teixeira.
Segundo a médica, muitos pacientes só percebem a dimensão do compromisso financeiro depois que iniciam o tratamento.
“Esse custo com o tratamento não é pontual. As pessoas têm que entender que muito provavelmente vão ter que usar pela vida toda”, afirma.
Quem mais precisa pode ser quem menos consegue pagar
A desigualdade ganha contornos ainda mais preocupantes porque a obesidade tende a ser mais grave entre populações socialmente vulneráveis.
É justamente nesse grupo que o acesso aos medicamentos de maior custo se torna mais difícil.
Bruno Gualano, presidente do Centro de Medicina do Estilo de Vida da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), chama atenção para essa contradição.
“As pessoas mais vulneráveis são justamente aquelas que têm menos acesso a essas tecnologias”, afirma.
Para o especialista, o problema não está apenas no preço dos medicamentos. As próprias condições para prevenir e tratar a obesidade são desiguais.
Uma alimentação saudável pode custar mais. Academias são caras. Nem todos os bairros têm parques, áreas de lazer ou equipamentos públicos adequados para a prática de atividade física.
“Há um recorte sociocultural muito claro quando se pensa em atividade física de lazer e alimentação saudável. O acesso às práticas de saúde é muito desigual e custa”, afirma Gualano.
A pressão pelo corpo perfeito
A popularização das canetas também trouxe uma discussão sobre o uso dos medicamentos por pessoas que não apresentam indicação médica para o tratamento da obesidade.
Segundo especialistas, parte da demanda é alimentada pelo chamado “emagrecimento social”, expressão usada para definir a pressão estética pela redução de peso.
“Muitos estão usando para chegar ao que a gente chama de emagrecimento social, que é a pressão para reduzir o peso”, observa Rachel Teixeira.
O fenômeno preocupa porque pode desviar medicamentos importantes para o tratamento de uma doença crônica para uma finalidade exclusivamente estética.
Ao mesmo tempo, cria uma nova forma de estigma contra pessoas com obesidade.
Gualano alerta que a sociedade pode passar a enxergar o corpo gordo não apenas como um problema de saúde, mas também como consequência da falta de dinheiro para comprar medicamentos capazes de produzir emagrecimento.
O perigo do mercado ilegal
Quando o preço das canetas pesa demais no bolso, alguns consumidores procuram alternativas fora do mercado regular.
É nesse ambiente que cresce o risco de aquisição de produtos contrabandeados ou de procedência desconhecida.
A Anvisa alerta para os riscos envolvidos. Sem controle sanitário adequado, não há garantia de que o medicamento tenha sido produzido, transportado ou armazenado corretamente.
“Nós não sabemos o grau de pureza desses medicamentos, como são transportados, como chegam às pessoas, em que condições, se têm impurezas ou não. Quer dizer, não se sabe o que tem ali”, alerta Gualano.
Para Paulo Miranda, o avanço do mercado ilegal é um sinal de que o país precisa discutir com urgência o acesso aos tratamentos.
“Essa questão precisa ser debatida da forma mais rápida possível para que as pessoas não precisem recorrer ao interesse de organizações criminosas, que atuam no contrabando desses remédios para ter acesso a medicamentos que deveriam conseguir por meio da compra regular ou da saúde pública”, afirma.
O desafio para o Brasil
A chegada das novas terapias mudou o tratamento da obesidade. A queda da patente da semaglutida pode ajudar a democratizar o acesso e a concorrência tende a reduzir preços.
Mas o desafio é maior do que colocar medicamentos mais baratos nas farmácias.
É preciso ampliar o diagnóstico, fortalecer o acompanhamento médico, facilitar o acesso à alimentação saudável, incentivar a atividade física e criar políticas públicas capazes de alcançar justamente as populações que mais enfrentam dificuldades.
As canetas emagrecedoras podem representar uma revolução na medicina. O desafio agora é impedir que essa revolução seja acessível apenas a quem pode pagar.
Porque, quando uma tecnologia capaz de transformar vidas fica restrita a uma parcela da população, o problema deixa de ser apenas o preço de um medicamento. Passa a ser uma questão de justiça e acesso à saúde.
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Da Redação do Agenda Capital





