
Com levantamentos divulgados praticamente todos os dias, números diferentes para uma mesma disputa podem confundir o eleitor; TSE exige registro, mas não faz controle prévio dos resultados
Por Delmo Menezes
A poucos dias do primeiro turno das eleições de 2026, o eleitor brasileiro convive com uma verdadeira enxurrada de pesquisas eleitorais. A cada dia, novos levantamentos são divulgados por diferentes institutos e veículos de comunicação, apresentando percentuais que, em alguns casos, mostram cenários bastante distintos para uma mesma disputa.
A quantidade de números disponíveis levanta uma questão importante: até que ponto as pesquisas retratam a realidade do eleitorado e em que medida a sucessão de levantamentos pode influenciar a percepção do eleitor?
Pesquisa eleitoral é, por definição, uma fotografia de determinado momento. Ela procura medir a preferência de uma parcela da população a partir de uma amostra e de uma metodologia específica. Portanto, não representa uma garantia do resultado das urnas.
O problema surge quando os percentuais passam a ser apresentados ao público como se fossem uma espécie de resultado antecipado da eleição.
Quando os números não parecem combinar com a realidade
Nas disputas proporcionais, especialmente para deputado distrital, deputado estadual e deputado federal, a diferença entre o que aparece em uma pesquisa e o que se observa na movimentação política pode chamar ainda mais atenção.
Há situações em que candidatos com trajetória política consolidada, forte presença territorial ou inserção em segmentos organizados do eleitorado aparecem em posições muito inferiores às expectativas de seus próprios grupos. Ao mesmo tempo, nomes pouco conhecidos do eleitorado podem surgir entre os primeiros colocados.
Isso não significa, por si só, que uma pesquisa esteja errada. Metodologias, amostras, períodos de coleta e margens de erro diferentes podem produzir resultados diferentes. Mas discrepâncias sucessivas merecem ser analisadas com cuidado, principalmente quando os números passam a orientar manchetes e discursos de campanha.
Registro no TSE não significa resultado previamente validado
Existe uma diferença fundamental que precisa ser compreendida pelo eleitor.
Desde 1º de janeiro de 2026, pesquisas de opinião pública relacionadas às eleições ou a candidaturas devem ser registradas no Sistema de Registro de Pesquisas Eleitorais, o PesqEle, até cinco dias antes da divulgação. Entre as informações que devem ser apresentadas estão o contratante, metodologia, período de realização, plano amostral, margem de erro e intervalo de confiança.
Mas o próprio Tribunal Superior Eleitoral esclarece que o registro não significa que a Justiça Eleitoral tenha feito uma avaliação prévia do resultado da pesquisa. O TSE não realiza controle prévio sobre os números divulgados.
Em outras palavras: uma pesquisa registrada é uma pesquisa que cumpriu as exigências formais de registro previstas na legislação, mas isso não transforma seus percentuais em verdade absoluta.
Quem contratou também importa
Outro dado que merece atenção é quem encomendou e financiou o levantamento.
A legislação exige que o registro informe o contratante da pesquisa, além de outras informações relevantes sobre sua realização. Esses dados podem ser consultados pelo público no sistema da Justiça Eleitoral.
Isso permite que o eleitor vá além da manchete e procure conhecer o contexto em que determinado levantamento foi produzido.
Uma pesquisa que apresenta um candidato com 30%, por exemplo, não deve ser analisada apenas pelo percentual. É importante saber quando as entrevistas foram realizadas, quantas pessoas foram ouvidas, onde foram entrevistadas, qual foi a margem de erro, qual a metodologia utilizada e quem contratou o levantamento.
O fenômeno das pesquisas e enquetes na internet
Outro capítulo dessa discussão está nas chamadas pesquisas on-line e enquetes que circulam pelas redes sociais, grupos de WhatsApp e outras plataformas digitais.
O problema é que uma sondagem espontânea na internet não pode ser automaticamente tratada como uma pesquisa eleitoral científica. O TSE diferencia pesquisas submetidas às regras eleitorais de enquetes informais, que não possuem o mesmo rigor técnico. A Corte já destacou que a apresentação de uma enquete com aparência de pesquisa pode induzir o eleitor a acreditar que se trata de um levantamento técnico.
Por isso, números que circulam pelas redes sociais sem metodologia clara, amostra definida e registro quando exigido devem ser vistos com especial cautela.
O chamado “efeito pesquisa”
Existe ainda uma questão política e comportamental: a exposição repetida aos números pode influenciar a percepção do eleitor.
Quando determinado candidato aparece diariamente na liderança, pode transmitir a sensação de força eleitoral. Da mesma forma, um candidato constantemente apresentado nas últimas posições pode passar ao eleitor a impressão de que sua candidatura tem pouca viabilidade.
Esse fenômeno não significa que toda pesquisa tenha sido produzida com o objetivo de influenciar o eleitor. Mas a forma como os resultados são selecionados, mancheteados e repetidos pode contribuir para a construção de uma determinada percepção sobre a disputa.
Em uma eleição marcada pela velocidade das redes sociais, o número da pesquisa pode acabar virando notícia mais importante do que o próprio debate sobre propostas, trajetória e compromissos dos candidatos.
O que o eleitor deve verificar
Diante da avalanche de números, o eleitor pode adotar alguns cuidados antes de tirar conclusões:
- Verificar se a pesquisa está registrada no PesqEle, quando o registro for obrigatório;
- Identificar quem contratou e financiou o levantamento;
- Conferir qual instituto realizou a pesquisa;
- Verificar o período em que as entrevistas foram realizadas;
- Observar o tamanho e a composição da amostra;
- Conferir a margem de erro e o intervalo de confiança;
- Conhecer a metodologia utilizada;
- Comparar diferentes levantamentos, sem tratar um único resultado como definitivo;
- Desconfiar de números divulgados nas redes sociais sem metodologia ou identificação clara.
O próprio TSE mantém uma ferramenta para consulta das pesquisas registradas, permitindo que qualquer interessado tenha acesso às informações cadastradas no sistema.
A pesquisa mede o momento. A urna decide a eleição
Em uma democracia, pesquisas podem ser úteis para compreender tendências e diferentes momentos da disputa. Mas elas não substituem o voto e não elegem candidatos.
A experiência eleitoral demonstra que cenários podem mudar durante uma campanha. Um levantamento realizado alguns dias antes da votação não consegue antecipar todas as decisões que serão tomadas pelos eleitores até o momento em que a urna for encerrada.
Por isso, diante da avalanche de pesquisas que marca os últimos dias antes do primeiro turno, o principal cuidado do eleitor deve ser não transformar números em certezas.
Pesquisa é instrumento de informação. A análise crítica cabe ao eleitor. E, no fim do processo, é a urna eletrônica que registra a decisão soberana do eleitorado.
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*Delmo Menezes – Gestor público, jornalista, secretário executivo, teólogo e especialista em relações institucionais com experiência em diversos órgãos da administração direta e indireta. Analista político e observador atento da política local e nacional. Editor-Chefe do portal de notícias Agenda Capital.



