A governadora do DF reconhece que muita coisa precisa ser feita principalmente na área da saúde pública
Por Delmo Menezes*
Ao assumir definitivamente o comando do Governo do Distrito Federal, após a renúncia de Ibaneis Rocha (MDB), a governadora Celina Leão (PP) passou a enfrentar um desafio que vai além da sucessão política: construir uma marca administrativa própria e demonstrar capacidade de liderança em áreas sensíveis da administração pública.
A estratégia escolhida pela governadora é clara. Em vez de antecipar o discurso eleitoral, Celina procura transformar a gestão em sua principal plataforma política. A lógica é simples: quanto melhores forem os resultados entregues até 2026, maior será a possibilidade de chegar às urnas com um discurso respaldado pela administração pública.
Esse modelo de campanha, baseado na força da máquina administrativa e na apresentação de resultados concretos, não é novidade na política brasileira. No entanto, no Distrito Federal, ele ganha relevância diante da responsabilidade assumida por Celina de administrar uma capital que enfrenta problemas históricos, especialmente na saúde pública, na mobilidade urbana e no equilíbrio das contas públicas.
A saúde como principal desafio
Nenhuma área simboliza tanto os desafios do atual governo quanto a saúde pública.
A própria governadora tem reconhecido, em diversas manifestações, que o setor ainda está distante do nível de qualidade esperado pela população. O reconhecimento público dos problemas representa uma mudança de postura em relação ao discurso tradicional de governos que, muitas vezes, evitam admitir fragilidades administrativas.
A resposta anunciada veio com medidas emergenciais, entre elas a contratação temporária de 320 médicos para reforçar a rede pública de saúde no DF.
Mais do que ampliar o número de profissionais, a medida sinaliza que o governo pretende reduzir um dos principais focos de desgaste político: a demora no atendimento, a sobrecarga das unidades e a dificuldade de acesso da população aos serviços especializados.
Ao mesmo tempo, Celina adotou um discurso de endurecimento interno ao afirmar que não haverá tolerância com casos de má conduta na administração pública.
A mensagem possui um destinatário claro: servidores e gestores responsáveis pelo funcionamento da máquina pública, especialmente em áreas consideradas estratégicas.
O peso das contas públicas
Outro eixo da atual gestão é o equilíbrio fiscal.
Embora o Distrito Federal apresente situação financeira relativamente mais confortável do que diversos estados brasileiros, o governo acompanha de perto temas relacionados às finanças públicas e à situação do Banco de Brasília (BRB), uma das principais instituições financeiras do Centro-Oeste e ativo estratégico do GDF.
O desafio consiste em preservar a capacidade de investimento sem comprometer o equilíbrio das contas públicas, em um cenário de aumento das demandas sociais e pressão por mais investimentos em saúde, infraestrutura e mobilidade.
Para especialistas em gestão pública, o equilíbrio fiscal costuma ser um ativo silencioso: raramente gera dividendos políticos imediatos, mas sua perda pode comprometer toda a administração.
Política de entregas
No campo político, Celina Leão procura construir uma narrativa baseada na chamada “política de entregas”.
A governadora tem repetido que obras concluídas, melhoria dos serviços públicos e eficiência administrativa representam o melhor argumento para conquistar a confiança do eleitor.
Essa estratégia também busca reduzir o espaço para o debate exclusivamente ideológico, deslocando a discussão para indicadores de desempenho da administração.
Ao lado do pré-candidato a vice-governador Gustavo Rocha (Republicanos), Celina tenta consolidar uma imagem de continuidade administrativa, preservando os avanços obtidos durante a gestão de Ibaneis Rocha, mas imprimindo características próprias ao governo.
Pesquisas fortalecem o discurso
Os primeiros levantamentos eleitorais sugerem que a estratégia começa a produzir efeitos.
Pesquisa divulgada pelo Instituto Paraná Pesquisas mostra Celina Leão liderando os cenários avaliados para a sucessão no Palácio do Buriti.
Quando o ex-governador José Roberto Arruda aparece como candidato, a governadora registra 34,6% das intenções de voto, contra 28,1% do adversário.
Sem Arruda na disputa, em razão das discussões jurídicas sobre sua elegibilidade, Celina alcança 45,9%, aproximando-se da possibilidade de vencer ainda no primeiro turno.
Outro indicador considerado relevante é a aprovação administrativa, atualmente em 58,3%, segundo o mesmo levantamento.
Embora pesquisas representem apenas um retrato momentâneo do cenário eleitoral, elas servem como termômetro importante para medir o impacto da gestão junto ao eleitorado.
Os obstáculos permanecem
Apesar do ambiente favorável, o governo está longe de enfrentar um cenário tranquilo.
A oposição intensificou as críticas após declarações da governadora sobre comportamento eleitoral em regiões de menor renda, episódio que gerou forte repercussão política.
Além disso, permanecem cobranças relacionadas à ampliação da infraestrutura hospitalar, redução das filas da saúde, expansão do metrô, investimentos em mobilidade e execução de promessas apresentadas ainda durante a campanha da chapa liderada por Ibaneis Rocha.
São temas que tendem a ganhar ainda mais relevância à medida que o calendário eleitoral avança.
A construção de uma identidade própria
Talvez o maior desafio político de Celina Leão seja construir uma identidade administrativa própria.
Durante anos, sua imagem esteve associada à condição de vice-governadora. Agora, todas as decisões passam a ser atribuídas diretamente ao seu governo.
Isso significa que acertos e erros terão impacto direto sobre sua imagem perante o eleitor.
Nos próximos meses, a eficiência da gestão será observada principalmente pela capacidade do governo de apresentar resultados concretos na saúde, manter o equilíbrio das contas públicas, fortalecer instituições estratégicas como o BRB e preservar a capacidade de investimento do Distrito Federal.
Se conseguir transformar essas entregas em percepção positiva da população, Celina Leão poderá chegar à campanha de 2026 com um dos ativos mais valorizados na política: a defesa de um governo sustentado por resultados administrativos. Caso contrário, as dificuldades em áreas essenciais poderão servir de combustível para a oposição.
É nesse equilíbrio entre gestão e política que começa a ser desenhada a disputa pelo Palácio do Buriti em 2026.
*Delmo Menezes – Gestor público, jornalista, secretário executivo, teólogo e especialista em relações institucionais com experiência em diversos órgãos da administração direta e indireta. Analista político e observador atento da política local e nacional. Editor-Chefe do portal de notícias Agenda Capital.





