A dois meses do primeiro turno, eleitor precisa deixar de lado a paixão política e olhar com atenção para candidatos, propostas e capacidade de governar
Por Delmo Menezes*
O tempo passa depressa. Parece que foi ontem que o Brasil acompanhava a Copa do Mundo e, de repente, o país já está mergulhado no processo eleitoral. Em pouco mais de dois meses, o eleitor brasileiro estará diante da urna eletrônica para escolher quem comandará os destinos do país pelos próximos quatro anos.
O primeiro turno das eleições será realizado em 4 de outubro. Se houver necessidade, o segundo turno ocorrerá em 25 de outubro.
As convenções partidárias estão chegando ao fim e o quadro de candidaturas começa a se consolidar. A partir de agora, a eleição entra em uma fase completamente diferente. Não será mais apenas o momento das especulações, das pesquisas e das articulações de bastidores. Chegou a hora de os candidatos mostrarem, de fato, quem são, o que pensam e o que pretendem fazer pelo Brasil.
E essa talvez seja a maior responsabilidade do eleitor: não escolher simplesmente contra alguém, mas escolher a favor de um projeto de país.
Chega de transformar eleição em ‘Fla-Flu‘
O Brasil vive há anos uma polarização política que parece não ter fim. De um lado, Lula. Do outro, o grupo político ligado ao ex-presidente Jair Bolsonaro, que agora tem Flávio Bolsonaro como um dos principais nomes da disputa presidencial.
É legítimo que existam diferenças profundas entre projetos políticos. A democracia, aliás, depende da existência de posições diferentes. O que não parece saudável é transformar toda eleição em uma espécie de “Fla-Flu” político, no qual o eleitor precisa necessariamente escolher um lado e tratar o adversário como inimigo.
Essa lógica tem sido extremamente desgastante para o país.
O Brasil não pode passar mais quatro anos discutindo exclusivamente quem é contra quem. Precisamos saber quem tem melhores condições de governar.
As pesquisas eleitorais mais recentes mostram que existe espaço para outras alternativas. Nomes como o ex-governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), e o ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), e Renam Santos (Missão),aparecem no cenário nacional e podem representar opções para um eleitor que não se identifica com a polarização.
Isso é positivo para a democracia.
Quanto maior o número de alternativas competitivas, maior a possibilidade de o eleitor comparar propostas e escolher aquele que considera mais preparado.
Pesquisa não escolhe presidente
É importante lembrar: pesquisa eleitoral é fotografia, não resultado de eleição.
Os levantamentos registrados na Justiça Eleitoral ajudam a compreender o momento político, mas não substituem o voto. Até outubro, muita coisa pode acontecer.
Candidatos ainda serão mais conhecidos, propostas serão apresentadas, alianças poderão mudar, debates serão realizados e a propaganda eleitoral levará os nomes dos postulantes para dentro das casas dos brasileiros.
É justamente nesse período que o eleitor precisa prestar atenção.
Não basta saber quem está na frente ou atrás nas pesquisas. É necessário perguntar: por quê?
E, principalmente: esse candidato está preparado para governar o Brasil?
O eleitor precisa fazer sua própria investigação
Nunca foi tão fácil obter informação. E, ao mesmo tempo, talvez nunca tenha sido tão difícil separar informação de desinformação.
O eleitor precisa fazer uma espécie de investigação pessoal antes de votar.
Quem é o candidato? Qual é sua trajetória? O que ele fez quando ocupou cargo público?Quais resultados apresentou? Quais são suas propostas? Como pretende colocá-las em prática? Quanto custarão? De onde virá o dinheiro? Quem serão seus principais aliados? Que equipe pretende levar para o governo?
Essas perguntas são muito mais importantes do que simplesmente saber qual candidato fez o discurso mais emocionante ou publicou o vídeo mais compartilhado nas redes sociais.
Debates serão decisivos
Os debates eleitorais terão papel fundamental nessa escolha. É diante das câmeras, frente a frente com os adversários, que o candidato terá oportunidade de explicar suas ideias e responder às críticas.
E é justamente nesse momento que o eleitor poderá observar algo que muitas vezes não aparece em uma peça publicitária: a capacidade de argumentar, ouvir, responder e apresentar soluções diante de problemas concretos.
Debate não deveria ser ringue. Não deveria ser competição para saber quem grita mais alto ou quem consegue provocar o adversário.
O debate precisa ser uma oportunidade para o eleitor conhecer melhor os candidatos.
Quem tiver propostas consistentes deverá explicá-las. Quem fizer promessas deverá dizer como pretende cumpri-las. Quem apresentar números deverá estar preparado para sustentá-los.
E o eleitor precisa estar atento.
Propaganda gratuita: uma oportunidade que não deve ser desperdiçada
A propaganda eleitoral no rádio e na televisão também terá papel importante.
Muita gente reclama do horário eleitoral gratuito, mas ele é um instrumento democrático relevante. É um dos poucos momentos em que o cidadão pode acompanhar, de forma organizada, aquilo que os candidatos pretendem apresentar ao país.
A propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão começará em 28 de agosto e seguirá até 1º de outubro, antes do primeiro turno.
É claro que o eleitor não deve acreditar automaticamente em tudo o que aparece na televisão. Propaganda é propaganda. Mas ela pode servir como ponto de partida para uma investigação mais profunda.
O Brasil precisa discutir o que realmente importa
A eleição deveria colocar no centro do debate os problemas reais da população.
A economia precisa voltar a crescer de forma sustentável. O emprego precisa ser valorizado. A renda precisa melhorar. A inflação precisa ser controlada. As contas públicas precisam ser administradas com responsabilidade.
Na educação, precisamos discutir qualidade do ensino, valorização dos profissionais, formação técnica e acesso ao ensino superior.
Na saúde, é preciso enfrentar filas, melhorar o atendimento e ampliar a eficiência dos serviços públicos.
Na segurança pública, o país precisa discutir o avanço das organizações criminosas, a integração entre as forças de segurança e políticas efetivas de prevenção e combate à violência.
E há uma questão que não pode ser esquecida: os programas sociais.
Programa social não é necessariamente sinônimo de assistencialismo. Uma política pública bem estruturada pode proteger quem precisa e, ao mesmo tempo, criar condições para que milhões de brasileiros tenham acesso a educação, qualificação, emprego e oportunidades.
O debate precisa ser mais inteligente do que simplesmente “ser a favor” ou “ser contra” programas sociais.
O eleitor não pode terceirizar sua escolha
Talvez esse seja o ponto mais importante desta eleição.
O eleitor não pode terceirizar sua decisão.
Não pode votar apenas porque a família vota naquele candidato. Não deveria escolher apenas porque um amigo recomendou. Não deveria decidir exclusivamente por um vídeo que recebeu em um aplicativo de mensagens.
E, principalmente, não deveria votar apenas para impedir que determinado candidato vença.
O chamado “voto contra” pode até fazer parte da estratégia eleitoral de algumas pessoas, mas uma democracia madura precisa estimular algo maior: o voto consciente em um projeto que o cidadão considere melhor para o país.
É preciso olhar para o candidato e perguntar: “Eu confiaria a ele a responsabilidade de administrar o Brasil pelos próximos quatro anos?”
Essa é uma pergunta simples. Mas talvez seja uma das mais importantes de toda a eleição.
A hora da decisão está chegando
Faltam aproximadamente dois meses para o primeiro turno. Parece muito tempo, mas não é. Serão semanas de intensa movimentação política. Pesquisas, debates, entrevistas, propaganda eleitoral, redes sociais, alianças e ataques ocuparão diariamente o noticiário.
Por isso, mais importante do que torcer por um candidato é conhecer todos aqueles que disputam a Presidência.
Compare. Questione. Pesquise. Assista aos debates. Acompanhe a propaganda eleitoral. Conheça as propostas. Observe o passado. Avalie o presente. Pense no futuro. Escolha com consciência.
Porque, no final das contas, o futuro do Brasil não estará nas mãos de Lula, Flávio Bolsonaro, Caiado, Zema ou qualquer outro candidato. Estará, por meio do voto, nas mãos de cada eleitor brasileiro.
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*Delmo Menezes – Gestor público, jornalista, secretário executivo, teólogo e especialista em relações institucionais com experiência em diversos órgãos da administração direta e indireta. Analista político e observador atento da política local e nacional. Editor-Chefe do portal de notícias Agenda Capital.





