Os ministros André Mendonça e Alexandre de Moraes. Foto: Victor Piemonte/STF.

André Mendonça enfrenta resistência no Supremo para levar adiante eventual investigação contra Alexandre de Moraes; pressão da opinião pública é vista como fator capaz de alterar o cenário

Por Redação

A divulgação de mensagens atribuídas ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master, envolvendo o ministro Alexandre de Moraes, aprofundou a crise interna no Supremo Tribunal Federal (STF) e colocou o ministro André Mendonça diante de um cenário considerado desfavorável para avançar com uma eventual investigação contra o colega.

Na terça-feira (1º), Mendonça retirou o sigilo de parte dos autos que reúnem informações obtidas a partir da análise dos celulares de Vorcaro e defendeu que o conteúdo seja submetido ao plenário do Supremo. Segundo o ministro, uma eventual decisão sobre a abertura de investigação contra Moraes deve ocorrer de maneira pública e transparente.

O caso envolve conversas entre Vorcaro e Moraes, além de referências ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, e outros integrantes de instituições públicas. O material foi produzido no contexto das investigações da Operação Compliance Zero, que apura irregularidades relacionadas ao Banco Master.

Mendonça teria apoio restrito no STF

Nos bastidores do Supremo, a avaliação é de que Mendonça teria, neste momento, apoio mais consistente do ministro Luiz Fux para levar a discussão ao plenário. A ministra Cármen Lúcia também é apontada como possível integrante desse grupo, dependendo da repercussão do caso e da pressão da opinião pública.

Os demais ministros, entretanto, apresentariam resistências à iniciativa. Nesse cenário, pessoas próximas ao relator avaliam que a retirada do sigilo poderia aumentar a transparência do caso e provocar uma reação da sociedade capaz de influenciar ministros que ainda não teriam posição definida.

A estratégia, portanto, seria levar o debate para além dos bastidores do tribunal e permitir que o conteúdo das investigações seja conhecido publicamente antes de uma decisão definitiva.

Gonet pede nulidade e arquivamento

O movimento de Mendonça, porém, encontrou forte resistência do Ministério Público. O procurador-geral da República, Paulo Gonet, pediu ao STF a nulidade e o arquivamento do relatório produzido pela Polícia Federal.

Segundo Gonet, Mendonça teria determinado a apuração envolvendo Moraes sem provocação do Ministério Público ou da autoridade policial. Para o procurador-geral, a investigação de um integrante do Supremo exigiria autorização do plenário da Corte.

Gonet não entrou propriamente no mérito das suspeitas envolvendo Moraes. O principal argumento apresentado pelo PGR é processual: a forma como a apuração foi conduzida seria inadequada e, por isso, as provas produzidas deveriam ser anuladas.

Conteúdo das mensagens amplia desgaste

A divulgação do material aumentou a pressão sobre o STF porque as mensagens reveladas mostram contatos entre Vorcaro e Moraes em período próximo à prisão do banqueiro, além de referências a tentativas de interlocução com autoridades.

Segundo informações divulgadas a partir do relatório da PF, Vorcaro teria procurado diferentes autoridades em busca de apoio diante das investigações que atingiam o Banco Master. O material também menciona contratos entre o banco e o escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro.

A defesa de Moraes sustenta que a atuação do ministro relacionada ao contrato teve como objetivo avaliar possíveis impedimentos legais e nega interferência em decisões judiciais.

Fachin terá papel decisivo

Com a retirada do sigilo e a manifestação de Gonet, o próximo passo dependerá do presidente do STF, Edson Fachin. Cabe a ele decidir o encaminhamento da questão e, caso entenda pertinente, submeter o assunto ao plenário.

Fachin tem defendido uma solução baseada no diálogo e na preservação institucional do Supremo, evitando que o episódio evolua para uma crise ainda maior entre os próprios ministros.

O problema é que, nos bastidores, cresce a percepção de que faltam interlocutores capazes de reduzir a temperatura do conflito. De um lado, Mendonça defende transparência e análise pelo plenário. De outro, integrantes do chamado campo majoritário do STF sustentam que as provas produzidas contra Moraes devem ser consideradas nulas, seguindo a linha apresentada pela PGR.

Governo teme impacto eleitoral

A crise também ganhou dimensão política porque ocorre a poucos meses das eleições de 2026. No Palácio do Planalto, a avaliação seria de que uma eventual análise pelo plenário deveria ocorrer somente depois do processo eleitoral, para evitar que o episódio seja incorporado à disputa presidencial.

A preocupação é que o caso seja utilizado por diferentes grupos políticos para atacar o STF, o governo e os próprios candidatos à Presidência.

Ao mesmo tempo, o episódio já provoca forte repercussão nas redes sociais. Monitoramento divulgado nesta quarta-feira (2) apontou aumento expressivo das menções ao caso, embora a mudança nas opiniões sobre Moraes ainda seja considerada limitada.

STF diante de uma crise institucional

O episódio coloca o Supremo diante de uma situação particularmente delicada: a eventual investigação de um ministro da própria Corte precisaria ser decidida pelo colegiado, enquanto parte dos integrantes do tribunal já manifesta preocupação com a legalidade da apuração.

Para Mendonça, a saída passa pela transparência e pelo julgamento do assunto pelo plenário de forma presencial e com a presença da imprensa. Para Gonet, o caminho é o arquivamento do material por supostas irregularidades na origem da investigação.

No meio desse embate está Fachin, que terá de administrar uma das mais delicadas crises internas do Supremo nos últimos tempos.

A grande incógnita agora é se a pressão pública será suficiente para alterar o equilíbrio de forças dentro da Corte ou se prevalecerá a posição do grupo majoritário pela anulação das provas e pelo encerramento da apuração.

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Da Redação do Agenda Capital

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