Presidente dos Estados Unidos apagou vídeo diante de indignação generalizada, no que equivaleu a um recuo
Por Erica L. Green
PALM BEACH — O presidente Donald Trump tem parecido imune às regras usuais da política.
O homem que certa vez se gabou de que poderia “ficar no meio da Quinta Avenida e atirar em alguém” sem perder apoio de eleitores regularmente rompe normas políticas e legais no país e no exterior, com poucas consequências óbvias.
Mas, de vez em quando, Trump esbarra de frente em algum limite que ainda existe e é forçado a recuar, oferecendo um vislumbre da tolerância do país ao seu comportamento.
A resposta caótica da Casa Branca a um videoclipe racista do ex-presidente Barack Obama e da ex-primeira-dama Michelle Obama que Trump publicou online foi um momento em que a administração percebeu que suas reações habituais às críticas — rir disso, dobrar a aposta, seguir em frente — não funcionariam. E embora Trump não reconheça, como regra, erros — e não o tenha feito neste caso também — ele apagou o vídeo diante da indignação generalizada, no que equivaleu a um recuo notável.
“É surpreendente, por si só, ver alguma vez ele dar um passo atrás para fazer qualquer coisa que não seja, no momento, dobrar e triplicar a aposta. Então, nesse sentido, é surpreendente; parece significativo”, disse Jeff Shesol, historiador e ex-redator de discursos do presidente Bill Clinton, que hoje atua como sócio da West Wing Writers, uma empresa de redação de discursos e estratégia em Washington.
Trump ainda desfruta de forte apoio dos republicanos. A Casa Branca frequentemente aponta para uma sequência de sucessos como evidência de que, apesar de toda a controvérsia sobre o estilo do presidente e suas táticas, suas estratégias estariam funcionando.
Aliados europeus estão a caminho de gastar mais com sua própria defesa, como Trump exigiu, e ele interveio em vários conflitos no exterior, incluindo a conquista da liberdade de 20 reféns israelenses vivos mantidos pelo Hamas.
“O presidente Trump é o líder inequívoco do Partido Republicano e qualquer um que diga o contrário está enganando a si mesmo”, disse Karoline Leavitt, secretária de imprensa da Casa Branca, em um comunicado. “Sob a liderança do presidente Trump, os republicanos permanecerão unidos contra os democratas radicais, que destruirão nosso país mais uma vez, se tiverem a chance, com fronteiras totalmente abertas, não cidadãos votando em eleições e uma política econômica horrível.”
É inegável que Trump frequentemente passa incólume por controvérsias que teriam afundado qualquer outro político. Ele continua a mentir sobre ter vencido a eleição de 2020 e nem mesmo uma condenação criminal o impediu de vencer a presidência pela segunda vez. Nas últimas semanas, sua administração ameaçou interromper um grande projeto de infraestrutura se ele não tivesse o nome de Trump nele.
Ainda assim, com as eleições de meio de mandato em novembro, Trump foi forçado a recuar — ainda que apenas em graus, e ainda que apenas temporariamente — em momentos-chave, incluindo a sexta-feira, quando a Casa Branca agiu para conter uma reação bipartidária ao vídeo que retratava os Obamas como macacos.
Em outro caso, depois que Alex Pretti foi baleado e morto por agentes federais em Minnesota, Trump inicialmente justificou a morte, mas, após críticas generalizadas, moderou parte de sua linguagem sobre o tema.
Na sexta-feira, 6, a Casa Branca inicialmente descartou as críticas como “indignação falsa” em relação a um meme da internet. Mas logo ficou claro que Trump enfrentava uma reprimenda de membros de seu próprio partido, começando pelo senador Tim Scott, da Carolina do Sul, o único republicano negro no Senado e um dos aliados mais próximos de Trump, que chamou o vídeo de “a coisa mais racista que já vi sair desta Casa Branca”. A partir daí, um coro de críticas começou a vir de republicanos.
Ao meio-dia, a Casa Branca havia retirado a postagem do ar e culpado um “assessor” desconhecido pelo erro. À noite, Trump disse que não percebeu que o trecho com os Obamas havia sido inserido no final do vídeo. Questionado se condenava a representação racista dos Obamas, ele disse: “Claro que condeno”.
Mas ele notavelmente se recusou a pedir desculpas, dizendo que não foi erro dele.
Nos últimos meses, Trump também recuou em suas posições sobre a repressão violenta em Minneapolis, que deixou dois cidadãos dos Estados Unidos mortos, e sobre suas ameaças de assumir o controle da Groenlândia “de um jeito ou de outro”. Ele também claramente sente a pressão em relação à economia, à medida em que os americanos expressam profunda incerteza sobre o custo de vida.
Os republicanos, porém, podem estar começando a perceber que Trump corroeu apoio em temas como a economia e a imigração, que tipicamente têm sido pontos fortes do Partido Republicano.
“O que Trump não entende é que gravidade política é gravidade política, não importa quem você seja e quão dominante você tenha sido”, disse Chris Christie, ex-governador de Nova Jersey e um dos críticos mais ferrenhos de Trump entre os republicanos.
Barrett Marson, um estrategista republicano baseado no Arizona, disse que a controvérsia teve peso adicional para o partido, que há muito tenta fazer avanços junto às comunidades negra e hispânica. “Ele está perdendo isso. Agora ele vai queimar esses ganhos até o chão.”
Ele disse que, embora Trump não tenha pedido desculpas pela postagem, apagá-la foi o mais próximo que o presidente chegou de reconhecer que ela estava errada. E até isso pode ser de curta duração.
“Ele não consegue admitir um erro e, portanto, não consegue aprender com o erro”, disse Marson. “Então, se eu acho que isso pode acontecer de novo? 100%. Esta é a última vez que ele publica ou republica algo que é ofensivo e racialmente carregado? Tenho certeza de que não é.”
Trump tem um padrão de voltar rapidamente à sua posição original depois de recuar sob pressão política. Após os protestos sangrentos em Charlottesville, Virgínia, durante seu primeiro mandato, Trump cedeu à pressão de seus assessores e condenou nacionalistas brancos. Um dia depois, ele voltou a culpar “ambos os lados” pela violência mortal.
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Com informações do The New York Times





