Ao completar 50 anos de carreira, um dos maiores infectologistas do Brasil reflete sobre os ataques que sofreu durante a pandemia, alerta para o avanço do negacionismo e critica a nova geração de médicos que busca fama nas redes sociais, na entrevista concedida ao Estadão.
Por Delmo Menezes
O nome de David Uip está gravado na história da medicina brasileira. Aos 73 anos e com 50 de carreira, o infectologista — que enfrentou epidemias como Aids e covid-19 — mantém a serenidade e a firmeza de quem sempre esteve do lado da ciência, mesmo em meio ao caos e à perseguição.
Ex-secretário de Saúde de São Paulo, ex-diretor do Instituto de Infectologia Emílio Ribas e hoje diretor nacional de Infectologia da Rede D’Or, Uip fala com emoção e indignação sobre os ataques sofridos durante a pandemia e sobre o futuro da medicina em um tempo em que a popularidade digital parece valer mais que a formação científica.
“A história mostrou — e continua mostrando — quem estava certo. A medicina é missão, não espetáculo”, resume.
“Entre o medo e a missão, escolhi ir em frente”
Em 1984, quando o Brasil ainda descobria o que era o HIV, Uip viveu o drama de ser acidentalmente exposto ao vírus.
“Perfurei o dedo com uma agulha de um paciente que tinha Aids e hepatite B. Passei mais de um ano sem saber se estava infectado. Mas entre o medo e a missão, segui em frente”, relembra.
O episódio simboliza a ética que guiaria toda a sua trajetória. “Você tem que fazer escolhas. Eu nunca me escondi. Fui à linha de frente em todas as epidemias”, afirma.
Ataques e ameaças: “Na covid foi desumano”
Durante a pandemia, ao coordenar o Centro de Contingência da Covid-19 em São Paulo, Uip foi alvo de ataques, fake news e ameaças de morte.
“Ameaçaram meus filhos e meus netos, invadiram minha clínica e tentaram invadir minha casa. Recebi ligações de pessoas dizendo que me odiavam e queriam que eu morresse”, conta.
Mesmo assim, ele diz nunca ter pensado em recuar. “Chamei minha família e disse: a história vai contar quem está certo. Dito e feito. A história contou.”
Negacionismo e desinformação: “Vacina é bem social”
Para o infectologista, o negacionismo precisa ser combatido com firmeza.
“Quem é contra vacina precisa ser responsabilizado. Não é uma questão de opinião, é uma questão social. A recusa à vacina é uma escolha política que põe vidas em risco.”
Ele lamenta o retorno de doenças que haviam sido erradicadas. “Estamos vendo o sarampo voltar, e até a poliomielite ameaça retornar. Esses jovens não viram o que eu vi — crianças paralisadas e morrendo por doenças evitáveis.”
“Medicina não é palco para influenciadores”
Uip demonstra preocupação com a formação das novas gerações de médicos, especialmente com o fenômeno dos “médicos influenciadores”.
“Me assusta ver jovens achando que vão fazer carreira alternativa pela mídia social. Medicina é estudo, dedicação e ética. Não se faz medicina com likes.”
Segundo ele, o número crescente de formandos que evitam a residência médica em busca de retorno financeiro rápido é um reflexo preocupante da superficialidade digital: “É o triunfo da pressa sobre a profundidade”.
Entre política e medicina: as memórias dos Covas
O médico também recorda os anos em que foi responsável pela saúde de Mário Covas e Bruno Covas, duas figuras centrais da política paulista.
“O Mario foi o primeiro político a dizer: o povo tem o direito de saber tudo sobre minha saúde. Isso quebrou um paradigma.”
Já sobre Bruno, a emoção é visível:c“Eu o conhecia desde criança. Foi uma perda profundamente dolorosa. Dizem que o médico envelhece e fica frio — mentira. Sofremos igual.”
Tecnologia e o futuro da medicina
Entusiasmado com os avanços científicos, Uip aposta na vigilância genômica e na inteligência artificial como ferramentas essenciais para o controle de epidemias.
“Vamos antecipar surtos e personalizar tratamentos. Mas nada substituirá o toque, o olhar e a escuta do médico. Isso é insubstituível.”
Atualmente, o infectologista lidera um projeto na Rede D’Or que monitora bactérias multirresistentes — um dos maiores desafios da saúde global.
“Se nada for feito, em 2050 as mortes por infecções resistentes vão superar as por câncer e doenças cardíacas. É uma pandemia silenciosa.”
Fé, missão e legado
Uip encerra a conversa reafirmando sua fé e a certeza de ter feito o que era certo.
“Nunca me arrependi. Fiz o que acreditava ser justo e necessário. A medicina é feita de ciência, compaixão e coragem — nunca de curtidas”, disse.
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Da Redação do Agenda Capital (entrevista concedida ao Estadão)








