O agora ex-ministro do STF Luís Roberto Barroso na sessão em que anunciou a aposentadoria Foto: Foto: Reprodução / TV Justiça

Maioria dos ministros votou contra a liminar concedida pelo agora ex-ministro, que autorizava profissionais de enfermagem a participarem de procedimentos de interrupção da gestação nos casos previstos em lei

Por Delmo Menezes

BRASÍLIA — O Supremo Tribunal Federal (STF) formou maioria, nesta sexta-feira (18), para derrubar a liminar concedida pelo ministro Luís Roberto Barroso que autorizava enfermeiros a atuarem em procedimentos de aborto legal. A decisão havia sido proferida na noite da última sexta-feira (17), em uma de suas últimas ações antes da aposentadoria antecipada do magistrado.

Barroso havia determinado que os órgãos públicos de saúde não poderiam impor obstáculos à realização de abortos previstos na legislação brasileira — ou seja, em casos de risco à vida da gestante, gravidez resultante de estupro e gestação de feto anencefálico.

A liminar também suspendia investigações, processos administrativos e judiciais contra enfermeiros e técnicos de enfermagem que prestassem auxílio em tais procedimentos. Para o ministro, a interpretação literal do artigo 128 do Código Penal — que menciona apenas médicos — criava barreiras desnecessárias e contribuía para a omissão do poder público em assegurar um direito garantido há décadas.

“Falta assistência e há proteção insuficiente que impede mulheres e meninas de acessarem um direito garantido por lei”, afirmou Barroso ao justificar a medida.

A decisão, no entanto, precisava ser referendada pelo plenário. Em sessão virtual extraordinária, que se estenderá até 24 de outubro, já há maioria contrária à liminar. Votaram pela revogação Gilmar Mendes, Cristiano Zanin, Flávio Dino, Kassio Nunes Marques, André Mendonça e Alexandre de Moraes.

Os demais ministros — Luiz Fux, Cármen Lúcia, Dias Toffoli e Edson Fachin — ainda podem se manifestar até o fim do julgamento, mas a maioria já está consolidada.

Aposentadoria antecipada e última atuação no plenário

A liminar foi uma das últimas decisões de Barroso antes de sua despedida oficial do Supremo. O ministro, que presidia a Corte, anunciou sua aposentadoria antecipada — oito anos antes do prazo constitucional — alegando motivos pessoais e o desejo de diminuir sua exposição pública.

Na mesma semana, ele apresentou outro voto marcante: defendeu a descriminalização do aborto até a 12ª semana de gestação, argumentando que o Estado não deve interferir em decisões íntimas das mulheres.

“As mulheres são seres livres e iguais, dotadas de autonomia e autodeterminação para fazerem suas escolhas existenciais. O papel do Estado não é escolher um lado, mas garantir que cada um viva conforme sua convicção”, disse o ministro em seu voto.

O julgamento sobre a descriminalização, no entanto, foi interrompido após um pedido de destaque feito pelo decano Gilmar Mendes, o que deve adiar indefinidamente a análise do tema.

Contexto e sucessão no STF

A liminar sobre a atuação dos enfermeiros foi apresentada em duas Arguições de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPFs), ajuizadas por entidades da sociedade civil, como a Sociedade Brasileira de Bioética e a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), além do PSOL. As ações pediam que o STF reconhecesse a violação de direitos fundamentais decorrente das barreiras impostas ao aborto legal e ampliasse a participação de profissionais de saúde nos procedimentos.

A derrubada da liminar, porém, restabelece o entendimento tradicional: apenas médicos podem realizar a interrupção da gestação nos casos previstos pela lei.

Com a saída de Barroso, o presidente Lula deverá indicar seu sucessor nos próximos dias. O nome mais cotado é o do atual advogado-geral da União, Jorge Messias, que é evangélico e, segundo interlocutores, tende a adotar uma posição mais conservadora em temas como o aborto.

O voto de Barroso, contudo, permanecerá registrado e continuará válido, conforme prevê o regimento interno do STF, mesmo após sua aposentadoria.

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Da Redação do Agenda Capital

Delmo Menezes
Gestor público, jornalista, secretário executivo, teólogo e especialista em relações institucionais com experiência em diversos órgãos da administração direta e indireta. Analista político e observador atento da política local e nacional. Editor-Chefe do portal de notícias Agenda Capital.

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