Para Thomas Shannon, ex-embaixador americano no Brasil, Trump percebeu que não poderia interferir no julgamento de Bolsonaro e foi pressionado por empresários americanos a recuar nas tarifas contra o país.
Por Redação
Após meses de tensão diplomática que levaram Brasil e Estados Unidos ao pior momento da relação em décadas, os dois países iniciam um movimento de reaproximação. A trégua começou após gestos de cordialidade entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente americano Donald Trump, durante a Assembleia Geral da ONU, em setembro. Desde então, os dois voltaram a conversar por telefone e já há planos para um novo encontro, possivelmente durante a cúpula da Asean, na Malásia.
Em entrevista à BBC News Brasil, o ex-embaixador dos Estados Unidos no Brasil Thomas Shannon afirmou que a guinada na postura de Trump está ligada a dois fatores principais: a constatação de que não conseguiria interferir no julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e a pressão de empresas americanas afetadas pelas tarifas impostas sobre produtos brasileiros.
“Trump sabe que sua tentativa de proteger Bolsonaro da prisão e garantir que ele pudesse disputar eleições fracassou”, afirmou Shannon.
Segundo o diplomata, a mudança também reflete uma preocupação prática da Casa Branca com os impactos econômicos internos. “O presidente foi exposto, por meio do setor privado, a uma espécie de curso intensivo sobre o impacto que essas tarifas teriam no dia a dia de muitos americanos”, explicou.
Fim da “era Bolsonaro” nas relações bilaterais
Shannon acredita que, embora Trump continue a demonstrar lealdade pessoal a Bolsonaro, o ex-presidente brasileiro se tornou uma “página virada” para o governo americano.
“Ele valoriza a amizade, mas sabe que sua tentativa de interferir na política brasileira fracassou. Não há mais o que fazer”, avaliou.
Mesmo com o abrandamento do discurso e a tentativa de reconstruir pontes com Brasília, Shannon não acredita que haverá reversão das sanções aplicadas a ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e a outras autoridades, com base na chamada Lei Magnitsky.
“Ficaria surpreso se houvesse algum avanço sobre as sanções ou as revogações de vistos. A prioridade agora é econômica”, afirmou.
Economia no centro da reaproximação
De acordo com o ex-embaixador, a pressão silenciosa do setor privado americano foi determinante para a guinada de Trump. Grandes empresas dos EUA, com cadeias produtivas dependentes de insumos brasileiros — como aço, alumínio e alimentos —, alertaram a Casa Branca para os riscos políticos e econômicos das tarifas de 50% impostas em julho.
“Trump entendeu que foi mal informado ou induzido ao erro e decidiu transformar uma crise em oportunidade, usando o encontro com Lula para mudar o tom da relação. No mundo da diplomacia, isso é um movimento muito inteligente”, afirmou Shannon.
O diplomata acredita que, nas próximas semanas, haverá avanços concretos na área comercial: “Se as tarifas não forem totalmente retiradas, devem ser reduzidas drasticamente ou isentar diversos produtos.”
Influência chinesa e pragmatismo americano
Para Shannon, a aproximação com o Brasil também tem relação com o avanço da China na América do Sul. “Trump percebeu que manter um confronto prolongado abriria espaço para a China se aproximar ainda mais do país”, destacou.
Ele ressaltou, porém, que o Brasil está em uma posição de força para negociar, especialmente por causa de seus recursos naturais estratégicos, como minerais críticos e terras raras. “Esses recursos serão centrais para o desenvolvimento do século 21, e o Brasil pode se tornar um parceiro muito valorizado.”
Brasil reafirma soberania
Ao avaliar o comportamento do governo brasileiro durante a crise, Shannon foi enfático: “O Brasil seguiu o único caminho possível. Os brasileiros nunca permitiriam que uma potência estrangeira interferisse em um processo criminal ou determinasse quem pode ser candidato.”
Para ele, o recuo americano representa uma vitória da diplomacia brasileira. “Sempre acreditei que daria certo. O Brasil resistiu e manteve sua soberania, o que é fundamental para qualquer parceria de longo prazo”, concluiu.
Contexto político e comercial
O ex-presidente Jair Bolsonaro cumpre pena de 27 anos e 3 meses após ser condenado pelo Supremo Tribunal Federal por tentativa de golpe de Estado e outros crimes. Desde a condenação, seus aliados vêm tentando reabilitar sua imagem política, mas sem sucesso prático.
No campo econômico, a relação entre Brasil e Estados Unidos passa por um processo de reconstrução após a crise tarifária. As negociações em curso visam reduzir ou eliminar tarifas sobre produtos como aço, alumínio, suco de laranja e carne bovina. A expectativa, segundo fontes diplomáticas, é que a retomada de uma agenda comercial mais cooperativa ajude a abrir espaço para investimentos bilaterais e fortalecer o diálogo político entre Brasília e Washington.
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Da Redação do Agenda Capital





